Habituado a nominar projetos inconclusos, como os tais de Costa Oeste, aquele que serviu de base para os Jogos Mundiais da Safadeza (cuja prestação de contas é um mistério) ou a Costa Leste, que cuidaria do nosso abandonado litoral, o governador Jaime Lerner cuida do corpo e do espírito, como sempre, em suas estadas no exterior. No momento não dá a mínima para a circunstância de estar em penúltimo lugar no ranking dos governadores, pois acha que tudo é passageiro – como ele, dos vôos internacionais.
Neste fim de semana estive no Litoral e testemunhei o grau de depressão que o atinge, especialmente nas praias. Afinal estamos em julho, já em pleno período de férias escolares, e não se nota, apesar do empenho de alguns prefeitos (o de Pontal do Paraná promovendo encontro de municípios turísticos e a Ilha do Mel preparando a Festa da Tainha, enquanto Guaratuba cuida da sua Festa do Divino) qualquer ação pública que justifique a Costa Leste e seus possíveis significados cromáticos do marketing convulsivo.
A sensação é de que a orla mergulhou no sonambulismo, algo inaceitável ante as expectativas criadas pela propaganda irresponsável, aquela mesma que falava no canal que ligaria Pontal do Sul a Matinhos, entremeado de marinas de luxo bem na linha dos delírios arquitetônicos e das pranchas que tudo aceitam. Em toda a extensão da costa há desolação, sensação de morte, algo como se a faixa que vai da Ilha do Mel à Barra do Saí estivesse em estado terminal.
Percebe-se a decadência em tudo no excesso de oferta de casas e de negócios à venda. Há algo que parece um exagero, como acentua um trabalhador da Praia de Leste: ‘‘De cada três casas ou três armazéns e petiscarias dois, nada menos de dois, estão à venda.’’
Ninguém ousa explorar a entressafra turística: a cabeça do empresariado não assimila o exemplo próximo de Santa Catarina, onde se costuma cobrar meia diária ou meio aluguel na baixa temporada. Essa regra é seguida no Litoral ou na zona serrana em hotéis, pousadas, estâncias ou restaurantes do vizinho Estado.
Aqui, o melhor hotel de Guaratuba, pertencente a um empresário, tido por todos os títulos como progressista, Joel Malucelli, fecha nessa época do ano. Ninguém se movimenta com maior aplicação e seriedade para fazer da frequência ao Litoral um hábito.
Da Costa Leste, dos diagramas coloridos de Lerner e que nunca saíram do estágio de computação gráfica ou das pranchas para a realidade, chegamos à constatação de que ela se transforma em Costa Peste como se um mal terrível a houvesse atingido e sem esperança de recuperação.
BIZARRICE
Se não baixou a estatística de roubo de automóveis, depois que a CPI do Narcotráfico passou por aqui, é porque o governo não tem jeito, não funciona mesmo
AXIOMA Já que a Justiça está cobrando de Lerner os comprovantes de gastos com propaganda, pergunta-se qual a utilidade operacional do Tribunal de Contas, que não viu sequer o dado elementar, formal, da exigência do empenho, inexistente em boa parte das operações. Casa de Maria Joana dá nisso.
GLOSA Como os norte-americanos já estão adotando o ‘‘Ligeirinho’’ e as outras soluções do transporte curitibano como os biarticulados, pelo menos conforme a propaganda oficial, não espantará se decidirem copiar as Vilas Rurais, desde, é claro, que importem bóias-frias.
EPIGRAMA E o Brasil afirma que não temos inflação, mas os salários estão sob arrocho há seis anos e só o transporte coletivo, do Plano Real para cá, apenas em Curitiba, subiu nada menos de 212%, segundo o Dieese.
SPRAY Algas da Barragem do Capivari foram combatidas e eliminadas, depois de provocarem um estrago considerável por terem atingido as turbinas daquela hidrelétrica. - Pela qualidade da água, embora o governo não tenha tomado a providência de criar o Parque do Capivari, proposta do médico e naturalista Edwino Tempski (tempo em que o sacerdócio ambiental era idealístico) a reserva é apontada como solução futura para o colapso do abastecimento em Curitiba e Região Metropolitana. - A bacia de acumulação do Capivari teve a cautela quase radical de remover vegetais, o que não impediu o surgimento das algas. - Na época fizemos nesta Folha uma ironia com o presidente da Eletrocap, subsidiária da Copel, engenheiro Iran Lamas, e que colocava o rigor do cronograma acima de qualquer veleidade ambientalista, sugerindo que ao lado dos megawats havia tantos milhões de lambaris. Discutíamos o equilíbrio do meio e também o fato de apesar de boa parte das obras se sediarem no Litoral haver um escasso aproveitamento dos trabalhadores da região.
FOLCLORE O presidente da Copel e secretário da Fazenda, Ingo Hubert, passava pela Rua Ébano Pereira quando foi alvo de uma brincadeira curitibana: a de ‘‘quebrar’’ os transeuntes, chamando-o pelas sílabas finais, obrigando-os a se voltarem para atender ao apelo. Justificativa de um dos manifestantes: ‘‘quebrá-los’’ no folguedo é nada, perto da quebra real do Paraná que está sendo promovida com método.
CROMO Se não se oferece uma pedra a quem nos pede uma rosa também não podemos ver na troca de colibris por morcegos algum tipo de oferenda.
AFORÍSTICO E quando o governo despertar do sonambulismo certamente estaremos mais próximos de uma realidade inaceitável.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

mockup