Com o livro do professor Ricardo de Oliveira ‘‘O Silêncio dos Vencedores’’, as pessoas se ligaram na questão da genealogia e sua força no processo político e também econômico, mais naquele do que neste, a não ser até o período ervateiro do Paraná. Há momentos curiosos em que a elite de raiz se associa ao adventício. Uma delas foi na eleição de 1960: dois postulantes da tradição – Ney Braga e Plínio Franco Ferreira da Costa – enfrentaram uma expressão típica do pioneirismo, o petebista Nelson Maculan. Maculan perdeu por excesso de honestidade: recusou apoiar Jânio, o que Ney Braga fez sem qualquer cerimônia. Tanto que havia o ‘‘slogan’’ bem sacado ‘‘Quem é Ney é Jânio, quem é Jânio é Ney’’. Toda a UDN do Norte estava com Maculan, mas não aceitava a dobradinha com o general Lott para a presidência. Afinal, o generalíssimo é que segurara, anos antes, a ‘‘Marcha da Produção’’ dos cafeicultores contra JK e o confisco cambial.
Às vezes a obsessão pelo poder leva também a genealogia a dividir-se como se deu quando da volta de Moysés Lupion porque o governo Munhoz da Rocha não teve como impedir o surgimento de três candidaturas do situacionismo: Mário de Barros, na composição PTB e PR, Othon Mader pela UDN e Luis Carlos Tourinho pelo PSP. Já em 1965, a última direta no regime militar (e que por isso ameaçou vitórias, as únicas, da oposição em Minas e Rio de Janeiro), tivemos um pleito com traço plebiscitário entre Munhoz da Rocha, apoiado pela dissidência do PDC liderada por Affonso Camargo, e Paulo Pimentel, por quem Ney Braga fez tudo para impedir que o ex-cunhado voltasse ao poder. Um dos lances fortes foi a carta de Bento contra Ney em que diz que o ex-aliado ‘‘trai à medida que respira’’.
Quando o Paraná diversificou a sua economia (ação de Ney Braga e comando, no planejamento, de outro arraigado, Alex Beltrão) a elite foi perdendo espaço no cenário renovado. A cafeicultura estava no fim e ironicamente um paranaense, Leônidas Bório, no comando do Instituto Brasileiro do Café (IBC) deflagraria o processo de erradicação. Paulo Pimentel é o primeiro dos governantes do ciclo pioneiro; os outros vieram com as vitórias do PMDB com Richa, Alvaro Dias e Roberto Requião, também da tradição e igualmente metropolitano.
O DIVISOR NORTE-SUL A alternativa Sul (ou capital) e interior é uma outra condicionante que vai obrigar à montagem das chapas ao governo. A de Paulo Pimentel, homem do Norte, para enfrentar a força da genealogia, de Bento Munhoz da Rocha, valeu-se de um vice da elite curitibana, o engenheiro Plínio Franco Ferreira da Costa. Bento colocou como seu vice o mineiro Rafael Rezende. Mesmo nas eleições indiretas o diagrama foi observado, tanto que quando Haroldo León Peres, expressão do Norte, foi para o seu governo, o seu vice era o estadista metropolitano, tocador da Copel, Pedro Viriato Parigot de Souza. Da mesma forma, no último governo eleito indiretamente, Ney Braga tem como vice o advogado e mestre José Hosken de Novaes, de Londrina.
Na primeira eleição direta para o governo estadual concorreram dois típicos representantes do mundo renovado: Saul Raiz e José Richa. Pois a composição vitoriosa deu a João Elísio, da tradição litorânea, a vice-governança, como Alvaro Dias se ajustaria (e na hora agá romperia) com Ari Queiroz e Requião com um homem do Oeste, Mário Pereira.
Neste particular há uma passagem curiosa com este jornal, então apenas Folha de Londrina: o Norte contava com dois candidatos ao governo, José Richa e José Carlos Martinez, e o Sul metropolitano com Roberto Requião. Esse divisor sempre sensibilizou muito o pessoal do Setentrião, tanto que a cobertura preferencial, dada a um curitibano, quando havia dois mais ligados à região, gerou algumas incompatibilidades com alguns assinantes da publicação fazendo suas desistências em sinal de discordância.
O fato é que mais do que qualquer outra publicação paranaense esta Folha complementou no plano cultural e político a integração físico-territorial que especialmente Ney Braga acelerara como ‘‘ponte’’ não apenas com o Norte, já que, na sequência, estenderia seu campo de ação ao Oeste e ao Sudoeste, unindo aquilo que Ruy Wachowski chamou de os ‘‘Três Paranás’’.
O CERNE O primeiro esforço de integração entre Norte e Sul, afora a marcha da linha férrea, foi a Estrada do Cerne, feita pelo interventor Manoel Ribas. Sua relevância é de tal ordem que vai tornar possível, em 1952, o Porto de Paranaguá bater o de Santos na exportação de café e transformar-nos no maior produtor.
Se é verdade que parte da produção foi escoada por via férrea, é de espantar que uma estrada macadamizada, de traçado tortuoso, tenha sido o meio mais usado para aquela excepcional movimentação de caminhões que obviamente não tinham a capacidade de carga dos atuais. Ademais, do Planalto para o Litoral o caminho era o da Graciosa pelo traçado original, já que a BR-116, chamada então de BR-2, só viria anos depois com Juscelino Kubitschek.
A indisposição do homem do interior em relação ao Sul era óbvia: autoridades vinham de lá, delegados de polícia, coletores de renda, juízes, promotores, cartorários. Para uma sociedade forjada na informalidade, na democracia para valer, em que a assinatura num papel operava como moeda e confiança, deveria realmente ser um aborrecimento ver os janotas de fora pegando os melhores postos da burocracia e isso numa sociedade centrada no trabalho.
Só nos anos 60 é que as condições de comunicação com o Norte e o Noroeste vão se tornar modernas com a Rodovia do Café. Na continuidade – e isso tem arranque na gestão Paulo Pimentel – sai a Ferrovia Central do Paraná, ligando Ponta Grossa a Apucarana, no ramal mais rentável de toda a malha meridional. Isso tudo é parte desse Paraná de todos nós.
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