Luiz Geraldo Mazza
Mais uma vez a dificuldade de consenso nas esquerdas levou o encontro de Porto Alegre a conclusões superficiais e centradas em clichês como a de fortalecer o nacionalismo como alternativa à globalização. Tudo isso dá a nauseante impressão de marcha à ré.
A desesperada busca de referenciais latino-americanos levou o seminário a considerar o prefeito Cárdenas, da Cidade do México (não custando lembrar que a Luísa Erundina chegou lá em São Paulo e nem por isso as coisas mudaram significativamente), o emblema, pelo menos mais novo, de resistência ao status quo. Aí não faltou quem lembrasse que tentou duas vezes e que na terceira emplacou, para estimular Lula que cada vez mais se parece com aquilo que ele próprio dizia do Maluf: compete, compete, compete.
As esquerdas pensantes são capazes de formular melhor as coisas do que as alinhadas e engajadas porque estas têm a ação e a doutrina contaminadas pelo virus da pressa, da resposta ao imediato e que as aproxima das piores criações do populismo. Haja vista para a postura da CUT relativamente aos serviços públicos em torno dos quais como das funções estatais conserva uma visão de albergue, de partilha de cestas básicas.
Quem está na periferia, como é o caso do Brasil, tem que ver as formas e o ritmo da reação ao processo neoliberal, sem transformá-lo em paranóia. O MST, por exemplo, que poderia ser olhado como expressão do arcaismo (já que a reforma agrária perdeu o bonde da história em termos modernos, ainda que possa justificar-se como saída social e não econômica), é uma prova de que há espaços claros de resistência em estruturas assimétricas como a nossa. Também outras formas de cidadania ativa, levadas ao radicalismo, podem ser suscitadas como a questão do emprego (raiz das manifestações européias em âmbito bem mais avançado que o nosso), a da ecologia e do consumo.
Não há lugar para reciclar o velho como, por exemplo, restabelecer o ludismo, movimento dos tecelões que consistia em quebrar os teares pela circunstância de que desempregavam. Aliás, numa das greves metalúrgicas acusou-se Meneghelli exatamente disso: de estar colocando carros com defeitos na linha de montagem na chamada operação cambalacho. Recolocar o nacionalismo como valor de luta à esquerda é um atraso brutal como sempre recomenda o marxista Eric Hobbsbaw. Mas na recente eleição francesa, em que Jospin levou a melhor, socialistas andaram se valendo de referências indiretas à pregação de Le Pen quanto à reserva de mercado do trabalho para os nacionais, o que é um risco .
Pode-se suscitar a defesa de valores e de interesses nacionais, tais como aqueles que eram codificados na Escola Superior de Guerra, sem que se caia necessariamente no nacionalismo. Essa noção de matizes é que se torna indispensável preservar e isso se torna difícil quando se tenta responder à pretensão de hegemonia do neoliberalismo com outro fundamentalismo.
BIZARRICE No encontro de anteontem sobre questões fundiárias, Lerner chegou a dar um soco na mesa para quebrar a inércia para a qual marchava a reunião. Espera-se que faça isso no interior do governo ainda neste mandato, se é que vai haver um segundo.
Se cada vez que seus secretários lembrassem zagueiros batendo cabeça ele desse um soco na mesa, sua gestão viraria permanente batucada.
SPRAY Segundo o Lineu Tomass, um dos que ajudou a colocar Requião no cenário político e que hoje é seu adversário zoológico, conta que na CPI dos Títulos Estaduais deu brotinho na cabeça. Quer dizer: menos do que pizza.- Outro que bate no senador paranaense em seu Observatório da Imprensa em cima do mesmo tema é o Alberto Dines.- O fato, porém, é que a pendência criada em torno do qual relatório é o válido dá ao senador uma projeção que o Ypiranga Pitiguari, prefeito de Greenville, não conseguiu na novela A Indomada com a cobrança de pedágio e a adoção da direção inglesa no trânsito.- Sindijus faz assembléia em 22 deste mês para ver se adere à proposta de greve geral do funcionalismo. Briga também contra a criação de 136 cargos em comissão com a supressão das vagas de assessor jurídico.- Um juiz substituto em início de carreira está ganhando menos do que um aluno de 1º ano da Escola de Formação de Oficiais da PM. Ambos recebem R$ 2 mil. Só que o cadete mora na academia e o juiz tem que pagar aluguel ou estada em hotel.- Graças à CBN, o Ibope empreendeu em Curitiba a primeira pesquisa de audiência de rádio em automóvel. Eis um referencial que deveria ser mais perseguido.- Pessimistas acham que o Coritiba volta à 2ª divisão e fica com o caixa no vermelho como foi encontrado pela atual diretoria. No tempo do Evangelino, o coxa saltou de campeão, em 85, para penúltimo lugar, em 86. Espera-se que a ciclotimia tenha vacinado o clube.- Centenas de ações trabalhistas movidas contra a Prefeitura por causa de um dos programas de Greca. Há quem diga que o mesmo se dará com o Baía Limpa de Lerner no litoral.
FOLCLORE Onaireves Moura privatizou a FPF, o primeiro a fazê-lo no Brasil em homenagem ao neoliberalismo. A entidade, porque está sem água, conserva um odor de sentina, de privada. Para não pagar R$ 42 mil à Sanepar, improvisou um poço artesiano, feito na louca, e cuja tubulação não resistiu à pressão da água, estourando. Nada disso impediu a festa elegante para Ricardo Teixeira e Havelange. Lá discursos deveriam começar assim Meus penhores e penhoras.





