Luiz Geraldo Mazza
O schollar Ricardo Costa de Oliveira, mestre em Ciências Sociais, lança hoje, às 17 horas, no Espaço Cultural da Assembléia Legislativa, o livro O Silêncio dos Vencedores, tese de doutorado, que envolve genealogia e classe dominante no Paraná. É curioso o título do brilhante ensaio porque o teórico e militante das Brigadas Vermelhas da Itália, o filósofo Antonio Negri, por mais de uma vez, fez incursões densas sobre o silêncio dos vencidos. Não faz muito tempo, no caderno Mais da Folha de S.Paulo, ele teorizou sobre essa condição do derrotado que certamente se voltava para o seu movimento radical e que dançou na sequência da cruzada das Mãos Limpas e que detonou o crime organizado, incluindo a Máfia.
Curioso é que no Brasil a consagração, notadamente quando há martírio, é do derrotado como se dá com Tiradentes numa linha e com Ganga Zumba em outra. A aura do estadista (dos anos 50, não o outro do Estado Novo, um ditador) Getúlio Vargas se torna intensamente luminosa com o suicídio acrescido da contundência da Carta Testamento. O suicídio bloqueou a trama que vinha desde o fim da Guerra nos campos da Itália para modernizar o Brasil e as suas instituições, conforme o anseio logístico ocidental, o que vai acontecer em 1964, depois da tentativa frustrada de 1961 na renúncia de Jânio Quadros e no esforço para evitar a posse de Jango.
Ricardo se ocupa dos enlaces parenterais (e que por vezes se apresentam em facções diferenciadas) da política paranaense mesmo antes do surgimento da província em 1853. Obviamente um árabe como José Richa, de São Fidélis (RJ) e antes dele paulistas como Paulo Pimentel, de Avaré, ou Alvaro Dias, de Quatá, nada têm a ver com essa genealogia. O próprio Aníbal Khury, um dos que mais mandaram na política paranaense, levando essa presença aos Três Poderes, nada aparenta ter a ver com essa nobiliarquia. No entanto, servia-a em suas ações e dela recebia a reciprocidade em votos, atenções e compromissos.
Como incluir um eslavo como Jaime Lerner nessa galeria? De forma indireta na medida em que deu continuidade, modernizando-a e depois degradando-a, à linha do neysmo, desdobramento da oligarquia dos Munhoz e dos Camargo. Ricardo faz menção a algo que é foco de minhas observações constantes: quando Bento Munhoz da Rocha (o maior estadista que tivemos, embora sem a força clânica de Ney, seu cunhado do primeiro casamento) foi governador, seus parentes Laertes Munhoz e José Munhoz de Mello eram os chefes do Legislativo e do Judiciário. No último governo indireto, Ney Braga foi governador e os chefes do Legislativo e do Judiciário, Fabiano Braga Cortes e Marino Bueno Brandão Braga, eram seus parentes.
Essa genealogia vencedora já não está com tanta bola assim. A sua expressão econômica, que teve seu auge no ciclo ervateiro, foi perdendo expressão na cafeicultura, na urbanização e na industrialização, e caminha para ser algo tão estranho como a aristocracia nos filmes de Fellini. O paradoxal é que temos com ela relações de espírito e de sangue e ainda a assistimos brilhar, de certa forma, nos nichos cartoriais do serviço público.
GLOSA
Havia quatro cedros enormes na frente das instalações de O Boticário, em Curitiba. Pois apesar de todas as juras ambientalistas da empresa abateram as árvores, sem qualquer cerimônia, e o cenário está lá exibindo dezenas de troncos que foram cortados
BIZARRICE Alceni Guerra acha que os votos marcados na rejeição de suas contas em Pato Branco é algo mais grave do que o chuncho do painel do Senado. Argumenta que lá em Brasília os senadores só deram uma olhadinha, e no Sudoeste marcaram as cédulas. Se o Alceni fizesse um discurso igual àquele da Constituinte em que defendeu a gravidez (solidária, é claro) dos pais até convenceria. Aquela era uma causa difícil.
AXIOMA Vejam que governo incoerente: o tenente-coronel Nemésio Xavier de França, hoje no Depem, havia sido nomeado para o mesmo posto, tempos passados, e houve uma ordem palaciana para suspender a posse. A decisão chocou profundamente a PM. A alegação, estúpida, era a de que Nemésio era amigo de Maurício Requião. Se descobrem que ele é compadre do Osmar Dias iriam todos à loucura. Pois agora, na emergência e na crise, esqueceram essas mesquinharias.
EPIGRAMA Ontem, no Portão, na audiência pública de Cassio Taniguchi não se falou de novo no aumento dos ônibus. Da tarifa, sim; da frota, não.
SPRAY Só agora chega à Justiça a denúncia contra o delegado Noronha, afastado logo após a passagem da CPI nacional do Narcotráfico no Paraná. - Matéria de prova é sequência de telefonemas para os reis do desmanche Mandelli e Caboclinho, e que dependeriam de quebra de sigilo para complementação. - Agora uma pergunta: se os desmanches continuam operando, a polícia montou algum esquema preventivo para evitar o seu funcionamento? - Um mestre incluído indevidamente no corpo docente de uma dessas novas instituições universitárias a está processando. Com justíssima razão. Pau neles, que a grana não falta!
FOLCLORE Incrível o Análise Conjuntural do Ipardes: o artigo principal de Gilmar Mendes Lourenço faz uma avaliação detalhada da desnacionalização do processo brasileiro. Quando a análise é interna, o governo Lerner sempre está certo. E desnacionaliza tanto, que faz a sua quadragésima viagem às metrópoles que ele tanto favorece e que nos colonizam.
CROMO Flores artificiais agitadas pelo ventilador: haverá natureza mais morta do que essa feita de matéria inerte?
AFORÍSTICO Façam soar o alarme de que o governo acabou. Isso libertará a todos do pesado sonambulismo.
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