Luiz Geraldo Mazza
De uns tempos para cá a amenidade, que caracterizava o comportamento de Jaime Lerner como governante, mudou de forma radical. O governo não usava a polícia sequer para questões graves como a da invasão de terras. Tanto que permitiu a manutenção do circo do MST no Centro Cívico por meio ano. De repente, ele passou a reprimir como se estivesse a cobrar, com juros e correção monetária, o passado de tolerância e a passividade bovina.
Qualquer delegado que dê andamento a inquéritos na área patrimonial ou outra dependência envolvendo o Poder Público é submetido a pressões, o que não reduz a ineficiência do setor, o mais vulnerável, ora agravado com a indevida entrega do problema carcerário das penitenciárias à área de Segurança. Se já é de competência duvidosa para levar delinquentes à prisão, essa deficiência se revela duplicada para mantê-los nas grades, como se observa na rotina.
No fim de semana estive em Pato Branco, participando da instalação da Academia de Letras e Artes da cidade e também para uma palestra, e soube que o chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, cuja prestação de contas de ex-prefeito foi recusada pela Câmara Municipal, teria providenciado o envio de delegado de polícia para examinar possíveis irregularidades nessa votação, apesar da maioria esmagadora que a decidiu (10 a 3 na primeira com uma ausência e um voto em branco e a segunda de 10 a 4 com uma ausência). Não bastasse esse caso, delicadíssimo, há procedimentos na Justiça contra o ex-prefeito, um deles sobre a privatização da Rodoviária, com despacho favorável de primeira instância.
Pode se tratar de um caso de solidariedade interna de governo, espírito de corpo, mas tudo se traduz em mais uma pisada na bola. Esses eventos, pela frequência, já não surpreendem e vão afinal definir o que tem sido esse ciclo de desastres, pois em política, ao contrário do que se diz, a última impressão é a que perdura e que até aqui, em relação a Alceni, beneficiava-o pela massa de injustiças que sofreu quando ministro da Saúde.
BIZARRICE
Que inutilidade essa sessão da CPI do Futebol em Curitiba! Revela a concessão sistemática que políticos e artistas como Pelé fazem à sociedade do espetáculo. Isso é pior do que pizza
AXIOMA Diferenças entre Lerner e Taniguchi são visíveis. Ontem deu para ver uma delas: o prefeito pagou a primeira parcela do 13º, Lerner continua devendo o terço das férias atrasadíssimas. Ao barnabé estadual o único terço que chega às suas mãos é aquele de rezar para que todo esse drama acabe. Haja fé.
GLOSA O STF proíbe o governo de manter delegados calça-curtas. São 274. Dá para imaginar, com o tamanho da crise financeira e do Estado quebrado, a dificuldade de o governo substituí-los por profissionais de carreira.
EPIGRAMA Salomão Soiffer é co-proprietário do parque de contêineres do Porto de Paranaguá e da exploração turística do Parque Nacional do Iguaçu. Vendeu aquele prédio que era do IPE e depois da Secretaria de Segurança para o governo, conseguiu driblar a legislação do recuo para montar o seu Shopping Mueller. É talento demais para uma só pessoa numa terra de empresários sabidamente tímidos.
SPRAY O clima cívico, que permitiu a cassação do prefeito Belinati, pode agora estender-se à crise da Universidade de Londrina. - A carta-renúncia do vice-reitor Marcio José de Almeida, em seu pedido de demissão ao governador, tem mais jeito de carta-denúncia. - O documento é longo, está na Internet e deve provocar tensão interna, especialmente no corpo discente, arregimentado como sempre. - Mas não é só Londrina que está motivada para ações de cidadania: tanto Maringá como Ponta Grossa já se habilitaram e Pato Branco entrou na onda com a rejeição das contas do período de Alceni Guerra como prefeito. - Alceni Guerra esteve na TV Celinauta, de amplitude regional, no sábado ao meio-dia, dando a sua versão sobre a crise e também relatando ações de governo para o Sudoeste. - Na sexta-feira, ainda em Pato Branco, a posse dos membros da Academia de Letras e Artes foi emocionante porque os patronos das cadeiras eram todos pioneiros da região. Uma espécie de reverência aos chamados deuses familiares, gente humilde em maioria e do trabalho numa sociedade que homenageia o homo faber na hora de consolidar o homo ludens. - Luis Alfredo Malucelli, que logo vai lançar o seu livro de crônicas e receitas em Londrina, está empolgado com a receita de barreado da avó do Cândido Gomes Chagas que leva inclusive uma dose de cachaça. - Amigos do pintor Artur Freitas estão adquirindo seus quadros (mostra na Universidade Católica) para ajudá-lo na compra de remédios. - Depois da audiência pública na Boa Vista, Cassio Taniguchi vai dar outra no Portão. Era preciso perguntar quando (e quanto) sai a nova tarifa de ônibus que com o reajuste da tarifa de energia da Copel vai enrolar a vida de todos com mais carestia. - A Folha da Imprensa fez 10 anos ontem. Até o fim do ano amplia seu parque industrial e instalações. No dia 29, lança edição especial de aniversário.
FOLCLORE Mais uma vez haverá duas esperanças na oposição: a de que Lerner dê uma de Fujimori e não retorne e a de que Emília fique impedida de assumir. É o espaço que cabe à oposição: o do sonho, mas imaginário pesadelo do governo.
CROMO Luisinho, meu neto, ansioso pela neve: acorda, com os olhos cheios de magia, e quando há geada acredita que ela, a nevasca, está próxima.
AFORÍSTICO Certos governos lembram às vezes o morto apegado à matéria e que continua ocupando espaços, às vezes aterrorizando.
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