Agora, com a queda acentuada de temperatura e umidade absoluta na atmosfera, houve novamente a perspectiva de nevascas em Curitiba e Região Metropolitana, sem falar naquelas áreas em que o fenômeno é mais frequente como nos campos de Palmas. Dá até para imaginar um cromo dos cataventos da Copel (até quando eles permanecerão públicos?) em Palmas espalhando neve pelo espaço e não essa matéria desprezível que colocaram sob o ventilador com o leilão da empresa.
Em 1975, a Folha fez uma página geminada sobre o fenômeno: ele vinha na sequência de uma estiagem terrível que produzira efeitos devastadores em nossa economia agropecuária. O deslumbramento com a novidade foi absoluto: todos os clichês sobre a introversão do curitibano, já axiomáticos na sociologia de botequim, desmontaram-se. O maná bíblico mudou o comportamento de todo mundo: na Boca Maldita, lembro bem, executivos do Bamerindus trocavam, numa pulsão lúdica, bolas de neve com engraxates e flanelinhas. Tudo convocava, de uma forma radical, ao convívio e havia o empenho de ‘‘hibernar’’ aqueles momentos nas fotografias como uma forma de evitar a dissipação do tempo, como se diz acontecer com a fenomenologia da arte.
Para os engajados, que não eram poucos, em pretender falar pelos excluídos, expressão aquele tempo ainda não incluída (ou ‘‘inserida no contexto’’, como apregoava o ‘‘Pasquim’’), aquilo tudo não passava de alienação pura. Eles pareciam irritados com a alegria das pessoas numa atitude muito parecida com alguns brasileiros que torciam (da boca para fora, claro) pela derrota da Seleção no México em 70 sob o fundamento de que isso ajudaria a derrubar o regime militar. A atitude intelectual é muita próxima da contemplação, o que os tornava simétricos aos alienados, aos deslumbrados.
Foi um ‘‘happening’’, um psicodrama coletivo, o degelo da introversão, da timidez, do isolamento e de todos os arquétipos que tentam caracterizar o curitibano como um chato em autodefinição. De lá para cá (e já são 26 anos) a cada momento em que as condições atmosféricas se mostram propícias, a espera pela neve, mesmo que não passe de uma nevasquinha, é intensa. Nevasquinhas, que lembram queda de sorvete do espaço, sem a floculação, já vi várias vezes. Quando estudante do Ginásio Paranaense, uma ocasião a rádio deu que nevava no Bacacheri. Foi uma correria inútil: uma nevinha pulverizada foi curtida por uns poucos, mas enchemos todos os bondes da linha para aquilo que só havia acontecido no fim dos anos 20.
O Euclides Dadá, do teatro de bonecos, ficou tão impressionado com o cenário que pediu que eu fizesse um texto sobre o assunto para a sua arte: a cidade cinza-sombria, que se tornava cromática e alegre. No Canal 12, aquele tempo ainda sem a Globo, botamos uma câmera no jardim, fundo musical, e dá-lhe neve no entorno do Castelo de Lupion, um deslumbramento. Os zangados, como sempre, eram minoria, e como os fenômenos espíritas tentavam ‘‘mediunizar’’ a aflição dos sofredores como se estes também não fossem contagiados.
OS CHATOS Guilherme Figueiredo escreveu ‘‘Tratado geral dos chatos’’. O nosso Dalton Trevisan desenvolveu crônicas sobre o assunto quando disse que eles, os iluminados chatos, talhavam o leite no seio materno. Dude Ghignone, livreiro, dizia que um chato quando passava diante da Confeitaria Schaffer fazia todo o leite talhar e explicava a Lei da Oferta e da Procura: aí baixava o preço da coalhada por excesso da mercadoria.
Todos nós, de uma forma ou de outra, somos chatos para alguém. Talvez caiba aquela definição de Sartre (‘‘Entre quatro paredes’’): o demônio são os outros. E assim também os chatos.
OS POBRES O jornalista e escritor Fábio Campana, nascido em Foz do Iguaçu, não se conforma com a privatização radical da exploração do Parque Nacional e que abrange a totalidade dos ‘‘tours’’. Aquilo que o romancista Noel Nascimento, meu colega de Academia de Letras, falou no anúncio contra a venda da Copel é marcante: não pode haver apropriação da água, do ar, dos rios.
Uma das observações de Fábio é a de que a pobreza não terá vez para ver aquele espetáculo das águas, a não ser em formas muito específicas de turismo social e cultural. Lembrei de uma piada mórbida que fiz nos anos 50 sobre o assunto numa coluna do ‘‘Diário do Paranᒒ: pobre só vê as Cataratas quando vai ao oculista. Uma variação daquela do Barão: pobre só come frango quando um dos dois está doente. Essa também desmentida pelo Plano Real e a primeira reafirmada nos magníficos programas sociais dos portadores de anomalia como as Cataratas, operados gratuitamente.
CAMBURÃO Ricardo Teixeira, o da CBF, teria pedido um time de ‘‘bandidos’’ para que o Brasil se saísse melhor nas eliminatórias da Copa. Partindo dele, tudo ficou meio constrangedor, tantas são as acusações em cima do cartola. Claro que a intenção foi de sugerir que se mostrassem mais guerreiros como afinal o João Saldanha, em 1970, queria com suas ‘‘feras’’. O pior é que no início da semana os jogadores foram obrigados a chegar no campo de treinamento em Teresópolis de camburão.
ESTATAIS Telepar já foi em passado não remoto a maior empresa do ramo em todas as pesquisas da área. De certa isso se dava com a Sanepar também. Hoje, em processo de privatização, com a venda de apreciável contingente de ações a uma empresa francesa, já não encontra no público aquela postura de defesa. Mas não é só por causa da água com excesso de produtos químicos como também agora com a proliferação de algas da barragem do Iraí. Não constituem, portanto, exemplos que favoreçam a imagem institucional da privatização. Copel na fila.
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