Quem policia a polícia?

O impacto de dois acontecimentos mostra a dificuldade de estabelecer controles internos no sistema de segurança. Primeiro o da Delegacia de Furtos de Veículos, transformada em área de negócios, e agora o mais abrangente, da Delegacia de Antitóxicos. Uma oleosa presença do silêncio e do terror parece ditar as regras, tanto aqui como em qualquer outro ponto do País.
Pasma, a população olha essas ocorrências e percebe que a anomia, ausência de um código de valores e referências, arrasta a tudo para as informalidades, isso de forma generalizada. A impressão que esses acontecimentos produz é a de que há uma espécie de equilíbrio do terror na coexistência entre a polícia que policia e aquela que jamais é policiada.
Da mesma forma que as malhas da lei cruzam as da informalidade, também o policial infrator às vezes se torna uma figura irremovível. O exemplo é a questão no Rio de Janeiro, que evidencia a gestão partilhada entre bandidos e autoridades em vários campos, do jogo ao narcotráfico, da prostituição a outras formas de crime organizado.
Só há um meio de melhorar essa questão: pela revolução cultural, a partir da cidadania. E é claro que isso não vai acontecer pelo estímulo a telefonemas anônimos, embora esse caminho não seja desprezível. Mas é preciso muita coragem, têmpera dos fortes, para enfrentar a questão. O fato é que em alguns campos houve avanços, de forma expressiva, como o dos estrilos contra erros médicos através de ações reparadoras, ou a articulação dos ambientalistas e consumidores. Mas jamais no campo da depuração policial.
A violência física, quando exercida contra marginais e não contra políticos por questões ideológicas, não tem qualquer charme. O agredido se apavora com a hipótese de denunciar e de apanhar mais ainda pela circunstância elementar de que é um discriminado por sua condição social e econômica. Presidiários, por exemplo, contam com uma permanente disposição de boa parte da sociedade para defendê-los. Tal generosidade inexiste relativamente aos que apanham por causa de pequenos furtos ou de simples suspeitas.
O público tem que tomar consciência do que representa o seu silêncio, como nutriente da sustentação do sistema viciado. E o governo precisa, ainda mais quando ligado no dado promocional das coisas, como se dá também com Lerner, agir e não apenas fazer o discurso da justificação, como o apelo à fatalidade de que ‘‘a corrupção está em todas as partes’’, como se o axioma afinal tudo explicasse e não coubesse mais a ninguém mostrar-se assustado e indignado.
BIZARRICE - É comum em política, tal qual no futebol (o Adinan e o Adãozinho imitando Rivelino, lá no Corinthians), o decalque das figuras fortes. Richa guardou alguns tiques de Ney Braga como o próprio Saul Raiz. Só que esse tinha uma voz esquisita como a dos corredores de Fórmula 1, daí quando foi candidato ao governo disseram que ele era o ‘‘Ney com a voz do Pato Donald’’.
SPRAY - Desde maio, a Comissão de Processo Administrativo Disciplinar, que examinou o aparelhamento da Subchefia de Assuntos Especiais da Casa Civil, entregou ao governo o relatório sobre o caso, até hoje não decidido por Giovani Gionédis. - Esse fato é uma prova de que Lerner não teve o menor interesse em retaliar o seu antecessor através de devassas. Aliás, Requião também nada fez contra Lerner e este igualmente não ferrou o antecessor. Agora com a crise por causa dos empréstimos aposta-se que o governador se mantém na dele, sem assumir medidas persecutórias. - Os relatórios são tumultuados, uma Babel bíblica e que acumula nulidades visíveis, conforme a linha de orientação de cada uma das três comissões nomeadas. - Requião pode se transformar mais facilmente num personagem nacional diante do papel que venha a desempenhar na questão da Vale do Rio Doce do que em função de sua cassação. - Como faz um discurso um tanto quanto arcaico na base das formulações do antigo Iseb, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros - fábrica de ideologias, da qual não se pode lembrar sem algum constrangimento, como dizia o sociólogo Guerreiro Ramos um pouco antes de morrer -, encontra afinidades com os grupos civis e militares, entre os quais a figura incontaminada de Barbosa Lima Sobrinho. - Com algumas consultas e estudos, ouvindo figuras como Eliezer Batista, o guru da estatal, o senador paranaense, se não se perder em inconsequências e frases de efeito, vai ao primeiro plano, pois a causa é legítima. - A convocação de prefeitos do interior a Curitiba para ver a resposta aos problemas mostra que Rafael Greca é forte na instância política, como já havia revelado quando saiu candidato contra a vontade de Lerner, que preferia Taniguchi e teve que reconhecer a derrota. - Por falar em gestão prefeitural já se sabe que Cássio Taniguchi, sensibilizado com as bases populares, vai tocar um gigantesco plano de antipó, já testado e aprovado, que se trata, a rigor, de asfalto subdimensionado, instrumento que consagrou Canet aqui e Jânio em São Paulo.
FOLCLORE - O ministro Bresser pisou na bola ao pressionar o STF para que decidisse contra funcionários públicos. O presidente FHC teve que intervir e pedir desculpas ao ministro Sepúlveda Pertence. Governante sempre foi assim: quer um Judiciário rápido quando o Estado é autor e lento quando é réu.
AFORÍSTICO - Desfaçatez e hipocrisia em político é rotina: dá para percebê-lo quando os notoriamente indignos se dizem tomados de indignação santa.

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