Leonel Brizola é o campeão das ‘‘boutades’’ gauchescas. Quando ele viu Lerner querendo pular para o outro lado (na primeira eleição de FHC) matou a situação numa frase: ‘‘Já está costeando o alambrado.’’ É uma referência ao gado que tenta fugir dos limites da cerca.
Um outro saque é o da ‘‘chuleta na serragem’’. O sujeito convida a família para o churrasco. Não a família nuclear, mas a extensa, uma festa épica. O anfitrião prepara a carne na véspera e no dia seguinte, 6 da manhã, lá está diante da grelha ou do fogo de chão e o atiça iniciando o ritual. Lá pelas 10 horas o pessoal começa a chegar, a criançada correndo atrás de bola, os mais velhos no jogo de baralho ou de malha. Saem as batidas, os refrescos e quando o dono da casa pega a carne tinindo do fogo e vai conduzi-la dá uma topada e a chuleta se mistura com a serragem.
Segundo observadores da cena política, isso teria ocorrido com Alvaro Dias: o senador assumiu o PSDB, bloqueou a entrada de Lerner (mais próximo do que ele dessa tal de social-democracia, essa dissimulação que vem de Getúlio Vargas com o PSD nos anos 40), montou o cenário para voltar ao governo e agora vai ter que deixar o partido para não afetar a sua imagem de homem de palavra e de escrita.
Nada favorece Alvaro no momento, e a impressão que se tem é a de que foi o tempo todo pautado pelo senador Requião que o provocava e ao irmão Osmar, também senador e também tucano, chamando-os de ‘‘tchutchucas em Brasília e tigrões no Paranᒒ. Vejamos o cenário que se abre para ele, caso firme posição contra a retirada da assinatura: fica na dependência de José Carlos Martinez se pretender ingressar no PTB (do qual Martinez é presidente); se for para o PMDB fica sob o comando de Requião; se ingressar no PPB, com as denúncias contra o deputado federal José Janene nos episódios de Londrina e de Maluf na ilha de Jersey, ficará difícil, para Alvaro, o seu discurso monocórdio da moralidade.
AXIOMA
Um grupo de deputados tenta amanhã convencer os senadores Alvaro e Osmar Dias para retirarem a assinatura da CPI da Corrupção. O açodamento de um deles era de tal ordem que queria o encontro para hoje. Aí foi advertido: ‘‘Amanhã é Corpus Christi, o habeas-corpus fica para sexta, se é que vai sair’’
BOM PARA OSMAR Já para Osmar as coisas melhoram, desloque-se ele para o PMDB ou ao PT, que seria bem melhor (menos contaminação, vitaminado pelos feitos do último pleito municipal), para o qual foi convidado pelo comando nacional. Facilita-se assim a aliança pretendida pelo senador Requião dando respaldo a Lula e tornando-a invencível com a possível eleição de Osmar ao governo, Roberto ao Senado e mais um petista para a outra cadeira, sobrando ainda a vice-governança para fechar o acordo.
Até sexta-feira, o diretório regional tucano vai tentar convencer os Dias a retirarem as assinaturas, uma vez que se trata de ‘‘questão fechada’’. Osmar é menos aberto a essa possibilidade do que Alvaro, ainda que este se encontre numa camisa de onze varas. E se consumar-se a saída, aqueles deputados que prometeram sair junto confirmam a promessa ou fazem uma avaliação cautelosa dos terrenos minados em que podem pisar?
É um ‘‘pacau de bico’’. E pelo jeito Alvaro desde que sacrificou a eleição para senador a fim de garantir a de Requião ao governo está predestinado a ser tratado de uma forma injusta pelos fados. Quando foi candidato ao governo não teve a retribuição de Requião que o esnobou e depois deu o repique não o apoiando e saindo, pelo ‘‘acordo branco’’, para uma eleição biônica sem qualquer confronto.
Tanto Alvaro como Requião atuam muito em cima do personalismo. O diretório do PMDB regional ficou sob intervenção por aberta incompatibilidade com o nacional. Alvaro sempre quis partidos para ele: assim foi com o PMDB, enquanto possível, depois com outras legendas como o PP e o PST e agora PSDB. Sobre ele há uma vantagem de Requião: fidelidade a uma legenda.
BIZARRICE Na saída da passeata da Praça Santos Andrade contra a privatização da Copel, o prefeito da Lapa, Paulo Furiati, olhava para o céu preocupado com o sinal de chuva e sorriu quando viu o arcebispo metropolitano Dom Pedro Fedalto abençoando a multidão. Era a confiança de que o tempo melhoraria. E melhorou.
GLOSA O deputado Ribas Carli quer ouvir a sociedade na questão do Estatuto da Polícia Civil por entender que não se trata apenas do interesse de uma corporação. Ontem ouviu integrantes do Fórum da Paz do qual faz parte Dona Elizabetha Zanella. Ela é um símbolo vivo da sociedade resistente e um forte sinal, por sua experiência trágica, que o estatuto não pode ser expungido da necessidade de matéria disciplinar, como está acontecendo.
EPIGRAMA O bibliófilo e historiador Edilberto Trevisan está empenhado em traduzir o livro do alemão Julius Platzmann de 1872, que viveu em nosso litoral, denominado ‘‘Da Baía de Paranaguᒒ. Ele é a caixa-preta de tudo o que se dá por lá e que alerta para interesses internacionais na área.
Por sinal que o ‘‘Fantástico’’ na matéria sobre a Amazônia mostrou que Al Gore, ex-vice e candidato derrotado nos States, é um dos que acham que a Amazônia deva ser internacionalizada. Pensam assim outras figuras da suposta esquerda como Mitterrand e Gorbachov, e a direitista Margareth Tatcher.
FOLCLORE Dizem que o Coritiba ficou invejando o Atlético pela contratação de Mário Sérgio. Mas não o desejava como técnico e sim para formar a melhor meia cancha do Paraná com Caio Júnior, mais ofensivo.
CROMO No mar à noite as fosforescências brotam na água e as mãos do pescador se tornam luminiscentes.
AFORÍSTICO Quem é mais social-democrata: o time de Lerner ou o de Alvaro?
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