Luiz Geraldo Mazza
Quando o cineasta Andre Cayate criou uma linha de filmes que discutiam matéria de Direito Criminal, uma dessas obras chamava-se Somos todos assassinos com a batida tese do traço social e condicionante dos atos criminais. No momento atual, se tivesse que traduzir o que ocorre no Brasil, Cayate poderia desenvolver uma tese, ainda na linha do vitimalismo, sob o título Somos todos reféns.
Se já não bastasse o império da violência no cotidiano brasileiro com as pessoas se refugiando em bunkers com célula fotoelétrica, aparelhos de tevê, alarmes, o que significa inexistir segurança nas ruas, ainda temos que assimilar a guerra focal nos presídios com todo o seu horror, como se viu nessa tragédia da Penitenciária Central do Estado, na farsa de negociar com delinquentes que acabaram de matar, no andamento das negociações, justamente em nome dos direitos humanos.
Não é preciso responder a motins, com o modelo do massacre do Carandiru, que só agora vai a júri, mas nada justifica que caiamos no outro extremo, mais do que absurdo, da tolerância máxima, da perplexidade. Se naquele caso o povo, nas pesquisas, apoiou a violência, e certamente movido pela paranóia do medo, insumo básico do fascismo, chegou a consagrar o chefe da operação genocida com um mandato parlamentar, neste o sentimento é de absoluta frustração, sensação de desamparo, o império da anomia.
Nada mais ridículo autoridades se regozijando com o final das negociações como se elas elidissem a barbárie dos crimes cometidos. Nem a esquizofrenia do país dos tristes trópicos a justificaria. Em que lugar ficam os decantados direitos humanos? Invocados em favor dos rebelados e homicidas, parece que em momento alguns aureolarão os guardas de presídios e os demais encarcerados que se recusaram a participar do motim e de todos nós, reféns da violência de dentro e de fora dos presídios, de um país acéfalo de instituições confiáveis e de uma classe política desqualificada.
AXIOMA
Nos governos pode haver falta de brio, mas nunca de breu. Muito brio e sem breu também é complicado. Já com muito breu pode ser olhado como de brio
BIZARRICE A Polícia do Paraná parece ignorar que o hábito não faz o monge ao baixar o édito que trata do traje dos policiais. Ultraje (no trocadilho mais do que um traje) é até agora não haver nada que tentasse recompor a malha da organização posta em cheque com a passagem da CPI nacional por aqui
GLOSA A especulação de que Euclides Scalco sairia candidato a governador é desconhecimento não só da pouca disposição do vice-ministro do Apagão e presidente da Itaipu (que relutou sempre em pegar posições na linha de frente) e também do seu currículo eleitoral. Poderia atender ao requisito novidade que beneficia Osmar Dias, Rubens Bueno e Cassio Taniguchi, mas não funcionaria no item do potencial eleitoral que está longe dos megawatts de Itaipu, embora possa ser uma luz na escuridão para um PSDB depurado.
EPIGRAMA A revista Panorama (matéria de capa) chama Alceni Guerra de o desarticulador político, seguindo das perguntas por que entrou no governo? e por que não saiu?. Como o texto se mostra preocupado com a integridade do governo, é quase certo que a massa informativa veio de aliados palacianos.
Curioso é que Alceni deseja que se diga a verdade: o Paraná quebrou, está sem dinheiro e a venda da Copel (o que dela resta) é inevitável. Uma corrente diz o contrário: a crise é passageira e tudo está no melhor dos mundos. Essa linha comportamental sugere que tudo deve ser feito para preservar Lerner. Este é o governante mais isolado de toda a história do Paraná.
Um governo assim não precisa de oposição: a autofagia o devora.
SPRAY Situações como as vividas na última semana na Penitenciária Central de Piraquara produzem sensação de absoluta impotência. Na segunda-feira, depois da informação das mortes, temia-se aumento da tensão e possibilidade de uma invasão da área dos amotinados. - O governo estadual teve sensibilidade para partilhar as decisões com o Ministério da Justiça, também atingido pela situação de perplexidade. - Rotatividade de presídios é neste momento uma rotina que se segue a cada rebelião. Hoje a massa carcerária está bem mais organizada e operam com ela, além do Primeiro Comando da Capital, que hoje detém a hegemonia, outros núcleos como os do Comando Vermelho e Segundo Comando. - Mortes e justiçamentos em penitenciárias e cadeias se tornaram um hábito. Até hoje, por exemplo, não se sabe o andamento do inquérito que deveria apurar a execução de um preso (havia assassinado um policial no dia anterior) por 20 encapuzados na Delegacia de Furtos de Automóveis. O delegado corregedor à época teria declarado que só podia ser retaliação. Se um caso desses não é resolvido, dá para imaginar quando se dá com grupos organizados como os das penitenciárias com muito maior poder de barganha e terror.
FOLCLORE A irritação dos servidores do Judiciário com o TJ por causa das protelações no seu direito à reposição salarial levou-os à impaciência e a perda do senso de humor. Mas ontem, quando souberam que não há expediente nesta semana, um deles sacou essa: Essa grana, se sair no fim da novela Porto dos Milagres será um parto do milagre.
CROMO Lua cheia: no pomar a sombra das árvores desliza num balé.
AFORÍSTICO Para responder à marcha contra a venda da Copel só falta o governo fazer a sua de prefeitos a favor do leilão com promessa de reciprocidade.
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