No imaginário de alguns políticos ainda existe a crença de que agito de rua é fator decisivo no processo. Em 64 levamos uma fubecada, todos que éramos pelas reformas estruturais, com a mobilização das marchadeiras religiosas. Queríamos o confronto das ruas para ver quem tinha maior poder de pressão e quebramos a cara. Novamente com a mobilização contra a venda da Copel, que já está vendida por esse governo compulsivamente leiloeiro, houve a persistência do mito das barricadas. Apesar do apoio de todas as entidades do patronato e até da Igreja com a bênção do arcebispo na largada da procissão cívica da Praça Santos Andrade.
Se sobrou número nas assinaturas do Projeto de Iniciativa Popular, que impede a privatização da Copel, com 120.984 assinaturas qualificadas (Registro Geral, título eleitoral), isso sem falar em mais de 80 mil que não preenchiam as exigências formais, faltou na passeata seguida de comício no Centro Cívico. O governo vai subestimar o número e os manifestantes irão aumentá-lo, falando em 10 mil participantes, quando se atingiu pouco mais de um terço daquilo que era esperado.
Não fosse a capilaridade do movimento, de alcançar os condomínios, e com os deputados da comissão de frente fazendo panfletagem anteontem em Santa Felicidade aproveitando a romaria aos restaurantes, não haveria tanto apoio formal. A operação atingiu 241 municípios e certamente se as transportadoras dessem mais apoio (e certamente não o fizeram temendo represálias que são um temor igual àquele quando políticos redescobrem o filão de pedir a quebra do monopólio das linhas intermunicipais) o sucesso externo, de espetáculo, seria maior.
O saldo é bom: temos, pela provocação da sociedade organizada, o teste de uma inovação constitucional relevante, a do projeto de iniciativa popular. Instituições para serem úteis precisam ser acionadas. Assim nesse caso, assim naquele dispositivo da Carta Magna Federal de 1988 e que trata da democracia direta. A função faz o órgão. A democracia direta se diferencia da representativa porque independe de rituais e o povo brasileiro está, aos poucos, criando essas tais instituições alternativas. Não podemos esquecer de duas coisas: a Copel já não é nossa porque o Estado perdeu o controle sobre ela e o governo detém maioria parlamentar, pois para essas coisas costuma produzir milagres. Dá para lembrar do recuo da CPI instalada da Copel-Sercomtel, uma vergonha irremissível.
BIZARRICE ‘‘Vende-se. Ligar para o telefone 350-2400. Tratar com Jaime.’’ Um dos cartazes ontem no Centro Cívico apresentava esse classificado que pelo conteúdo tem tudo de um ‘‘desclassificado’’. Só faltar mesmo vender o Palácio e o entorno da praça, hoje gradeada como fortificação medieval
AXIOMA O relatório do desembargador José Wanderley Resende, que desobriga Gerson Guelmann e o coronel Vieira de irem à CPI da Telefonia, é corolário natural da primeira decisão que considerou que as investigações tomaram rumo diferente do objetivo da convocação. Se no exame do mérito do mandado de segurança esse entendimento for mantido, a questão dos grampos – por sua natureza explosiva – ficará de fora. Resta esperar que procedimentos como os buscados na Câmara Federal tragam os efeitos políticos de encurralar o governo nas suas contradições internas.
GLOSA O PSDB deve desalojar os irmãos Dias dos seus quadros. Violência, talvez. Mas dá para imaginar como o senador Alvaro reagiria no governo estadual se um parlamentar do seu partido assinasse CPI para investigá-lo. O autoritarismo brasileiro deveria estar incluído naquela música popular que lista as ‘‘coisas nossas’’.
EPIGRAMA O que teve mais impacto: a mobilização de ontem no Centro Cívico ou o acampamento dos sem-terra que Jaime Lerner permitiu que ali permanecesse por meio ano?
ISOLAMENTO Embora a fragilidade da demonstração pública da passeata, o fato é que nunca se viu na história do Paraná tamanho isolamento de um governador: os apoios das classes empresariais (especialmente o manifesto da Associação Comercial, mais contundente e claro do que o da Fiep e demais) e das várias representações profissionais e liberais revelam que Lerner não detém hoje 10% do prestígio que acumulava como prefeito e no começo do seu primeiro mandato. A base aliada nele não confia, nem quando se promete tratamento a prestações.
SPRAY Empurrar crises com a barriga, obter moratória, é a obsessão do governo paranaense: já está vencendo o prazo para renegociação com as esposas de PMs e ele nada viabilizou. - Na questão da CPI da Telefonia procura ligar-se em detalhes formais descuidados pela oposição e que fogem aos objetivos para os quais foi convocada. Ganho prazo aí também. - Nesta semana, dia 15, deveria haver nova sessão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça sobre o problema, já decidido por maioria absoluta, da reposição a que têm direito os judiciários do Paraná. Em função do feriado, é possível que a sessão seja adiada outra vez. - Em todas as demandas, nessa ou na dos professores e da Polícia Militar, um ponto de estrangulamento comum: não há dinheiro no Estado que seus gestores ‘‘quebraram’’ com uma administração temerária e pródiga.
FOLCLORE O governo está numa entalada tão grande que quando está para fechar o acordo de troca de presidiários descobre-se que houve mortes. Aí o áulico de plantão lembra, para agradar, que a tragédia é menor que a do Carandiru. Após essa vem outra das esposas dos PMs. O certo é viajar o quanto antes.
CROMO O Guga perdia: aí um beija-flor bailou diante da TV e veio a reação. Deu-se com o Décio Macedo, e o seu colibri é como o canarinho do Dino Almeida.
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