Se há uma cidade que pode testemunhar bem o que foi o Paraná antes do deslanche da Copel é Paranaguá. No fim dos anos 50 eram frequentes os atos de violência em protesto contra a escuridão seguidos de quebra-quebra. A revista ‘‘Panorama’’ escalou o repórter fotográfico Sérgio Matulevicius para documentar essas manifestações.
Viajando de trem e num toco duro, pernas encolhidas quase em posição fetal, Sérgio, com seus olhos privilegiados, revia a paisagem serrana e se deslumbrava. Embevecido com o que via, não percebeu que aos poucos as suas pernas amorteciam e pesavam por causa da escassa circulação sanguínea. Ao chegar em Paranaguá, logo na Praça Fernando Amaro, com aquele rosto mongol, de imigrante, batia os pés no chão para afastar a dormência e perguntava em cada roda com ar espantado: ‘‘Onde é o quebra-quebra?’’ Mal saiu da primeira roda, já estava com apelido carimbado ‘‘Robô curioso’’.
IMAGINÁRIO Dizem que quando Heitor Villa-Lobos andou por Paranaguá (teria lá permanecido por dois anos e esse é um dos assunto mais mal estudados daquela cidade, a despeito da sua importância) teria trabalhado numa fábrica de fósforos de duas cabeças, negação absoluta do consumismo de agora. O maestro foi amigo do meu avô materno, Randolpho Gomes Veiga, que era gerente da maior empresa de então, a Alberto Veiga, que só encerrou atividades no ano passado. Há um episódio, dentre muitos que marcaram a presença do maior gênio musical do Brasil, a realização de espetáculo lítero-musical do qual participou e no qual havia algumas das suas composições e a atração era uma cantora lírica da cidade ligada à família Bório.
Pena que a relação entre eu e meu avô, a quem acompanhei em caçadas e passeios às praias que eram feitos em diligências do tipo ‘‘pau-de-arara’’ da empresa de Germano Russi, não fosse aproximada como a que tenho com meus netos. Isso me permitiria imaginar quantas inspirações teriam iluminado a cabeça de Villa-Lobos enquanto vagava pelas ladeiras da cidade junto com meu avô em sonatas da madrugada.
MUDANÇA 1 Por que estou aqui a lembrar da cidade em que nasci e da qual me afastei com 9 anos? Simples: nesta semana fui ao lançamento do livro do Malu (Luis Alfredo Malucelli) ‘‘Só Risos’’, um registro de situações anedóticas de figuras do Paraná inteiro. O Instituto Histórico e Geográfico e o Rotary fizeram a promoção no Clube Olímpico e deu para perceber no meio do papo que Paranaguá, apesar da sua importância estratégica, está distanciada do poder e das vantagens que já usufruiu no passado, incluindo o ‘‘pico’’ da fase cafeeira quando seu terminal se consagrou como o maior do mundo, superando o de Santos. As maiores expressões parlamentares do Paraná – Bento Munhoz da Rocha Neto e Acioly Filho – são de lá. Bento foi governador, e Paranaguá chegou a eleger o governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, que faleceria no desastre de avião perto de Curitiba com Nereu Ramos e Leoberto Leal entre outros.
Apesar dos cuidados com restaurações de alguns prédios e sítios históricos, a cidade parece ter sido atingida por um maremoto, uma ressaca potencializada, tal a sua descaracterização, já não bastasse a cretinice dos políticos que lhe tomaram território para criar Pontal do Paraná, suprimindo da sua unidade cultural e física a orla praieira. Há muito a cidade não tem um deputado e os pára-quedistas, que assumem esse papel, são redundantemente postiços, uma vez que todos os políticos, dos bons aos ruins, são postiços. A malha portuária se agiganta, sem qualquer plano diretor até para a finalidade específica, e se torna hipertrofiada diante da cidade desfigurada.
MUDANÇA 2 A nova economia de Paranaguá não aproveita os valores locais, seus antigos capitalistas não conseguem sequer aquilo que os curitibanos obtêm virando gerentes e executivos de multinacionais. Negócios e negociatas do Porto não beneficiam gente da terra. Na hora da eleição, quando poderia eleger alguém, a cidade se divide e se vê novamente sem representação. Quando falo com os mais jovens sobre as perspectivas da cidade (as elites se mandaram para a capital) lembro de uma reclamação que ouvi em Campo Mourão sobre a Coamo, a maior cooperativa da América Latina, de que só dava os empregos menores ao pessoal da terra.
É o ônus do que chamamos de modernidade: executivos, especialistas em engenharia financeira e de sistemas são contratados nos grandes centros. É a questão dos chamados níveis de qualificação empresarial, profissional e tecnológica. Essa temática não impediu que recordasse da minha infância quando assistia a hidroaviões amerrissarem nas instalações da Condor, empresa alemã e que fecharia com a guerra: da praia ali improvisada num Itiberê que nada tem desse rio podre, degradado de hoje em que já mergulhei e vi o fundo, de onde assistia a regatas com as guarnições do Santa Rita.
LAMENTO Paranaguá é um retrato na parede como o Itabirito para Drummond. Ainda não dói, mas mistura alegria e raiva. Como alavancá-la se o tempo não volta? Pelo menos a transformação não tirou da cidade sua alegria e irreverência, sua mania de dar apelidos. Lembro bem: Wilson Rio Apa, escritor, aventureiro, teatrólogo, chegando com a mulher na estação ferroviária e os filhos. Barba indiana (era aí um inovador com suas leituras de Krishnamurt), jean sablon (caga em pé), a blusa passando por cima da calça, desce na plataforma. Um chapa se vira para o outro e pergunta de quem é a carga para levar. ‘‘Dele ali’’ – fala cantando – ‘‘do Jesus Cristo em férias’’.
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