Luiz Geraldo Mazza
Nunca houve qualquer risco para o governo na questão da venda da Copel. Tanto que obteve a maioria folgada para a autorização da transa e o esperneio dos oposicionistas tinha um ar de melancolia, um Exército Brancaleone extenuado antes de começar a lutar. Com suas hesitações e quebra de compromisso com a base parlamentar aliada, o governo permitiu que a matéria vencida voltasse com toda a força e se politizasse.
Ainda ontem os acertos finais com a base aliada garantiram maioria tranquila para qualquer embate parlamentar, sem neurose ou paranóia, incluindo o caso da lei de iniciativa popular que bloquearia a venda da Copel. Não há razão para novos espantos e com todo esse batismo, adensado com a passeata de depois de amanhã, o leilão sairá. Único front, tanto de governo como de oposição, hoje disponível é o do Judiciário. Quem tiver melhor assessoria jurídica causará maiores dificuldades ao competidor.
O resto é cena, espetáculo, incluindo aí a tal passeata. Novamente, porém, o governo quer provar que suas reservas de burrice são maiores do que as naturais da Amazônia. Tanto que pretende valer-se da mesma logística, posta em prática diante do MST, bloqueando ônibus com manifestantes nas estradas. É por isso que, apesar do frio, as sorveterias, de um modo geral, estão vendendo bem. É que na arte de espatifá-los na testa ninguém supera o nosso governo. Que não é bom, mas consome, como ninguém, toneladas de Kibon.
BIZARRICE
O PSDB quer fritar Alvaro com a gordura do Osmar ou o contrário?
AXIOMA Dois juízes, um de Cascavel e outro de Ponta Grossa, tiveram suas atuações sob correição ontem examinadas, em sessão administrativa, na reunião do Órgão Especial do Tribunal de Justiça.
GLOSA Já que programaram o revezamento das funerárias em Curitiba por sorteio, por que não aproveitam para fazê-lo, cada dia, num dos bingos também sorteados?
EPIGRAMA Acertos de deputados da base aliada oficial na Serlopar e Fundepar vai garantir o fechamento da maioria para o avanço na Copel que, aliás, já está privatizada há muito. Exatamente o que houve com o Banestado se repetiu com ela: esvaziada, endividada e pilhada, não vai dar sobra suficiente para a previdência dos servidores estaduais.
ISONOMIA Essa demanda dos funcionários do Judiciário, ganha, há anos, na instância superior (53,06% ou os 30,74% de acordo) como reposição de perdas apenas confirma que o princípio da igualdade (isonomia) não funciona. Já na primeira decisão, até hoje não cumprida, os magistrados obtiveram a reposição que pleiteavam. Como se não bastasse, estão, conforme o jornal Consciência & Luta dos judiciários, pleiteando mais 26,05% retroativos a 1989 e a matéria está para ser votada numa das próximas reuniões do Órgão Especial.
Irônicos, perguntam se haverá pedidos de vista, destaques ou questões de ordem para atrapalhar a definição do caso.
SPRAY A decisão de bloquear os ônibus que virão segunda-feira a Curitiba para trazer gente do interior na marcha em defesa da Copel foi revaliada diversas vezes nos escalões oficiais. - Apesar de o risco de incidentes ser bem menor do que o havido com os sem-terra que acabou gerando um mártir (que daria origem ao tribunal do latifúndio, circo bem menos representativo do que esse da tal passeata, e além disso ao monumento bem no jeito de Niemayer, medíocre como arte quase decalcado daquele de JK em Brasília) qualquer embaraço, direto ou indireto, só ajuda a oposição. - Declarações do secretário da Casa Civil, Alceni Guerra, pedindo uma alternativa aos oposicionistas à venda da Copel para capitalizar a previdência (sabe-se que por melhor que seja o ágio o que sobrará é menos do que o governo queimou em propaganda ou deixou afanarem no Banestado) soam patéticas para a oposição que apenas tenta faturar o evento. - A Fiep lança seu manifesto antes do agito, mas nem o potencializa, se for contra o leilão, e, muito menos, o dilui se postar-se favoravelmente ao governo. A entidade não fatura coisa alguma com o suspense que criou. Não dá para confundir o peso da federação daqui com a de São Paulo, que também não deixe de ser cúmplice. - Mas, durante mais de um mês, os grandes consumidores de energia (Votorantin, Klabin etc) se reuniram para tomar posição conforme o impacto em cada setor, o que, sem dúvida, conferiu seriedade à avaliação.
TEOREMA Se você pagasse um político pelo preço que ele pensa que vale, subtraído do valor efetivo que teria no mercado, estaria com dinheiro, mais do que suficiente, para comprar a Copel com a maior facilidade.
CRONOGRAMA Segunda: passeata da Copel. Terça: decisão do PSDB nacional sobre os senadores Alvaro e Osmar Dias e audiência do Guelmann e do coronel Vieira na CPI dos Grampos. Serão só dois dias no calendário, mas na cuca de muita gente tanto um fato quanto outro mudariam a história. Quá, quá, quá.
FOLCLORE O técnico Leão, da Seleção Brasileira, parece Lerner: o time jogou bem, segundo ele, e até poderia ganhar. Leão e Lerner enxergam o que desejam e jamais aquilo que está acontecendo.
CROMO O Papa beijando o chão, o eleitor de Cassio Taniguchi esticando o olho, Guga desenhando um coração no saibro e dedicando-o aos franceses. O gestual é o discurso mais enxuto que se conhece.
AFORÍSTICO Incurável, em coma profundo, inquilino da UTI: o governo.
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