Alguém já comparou a política às ruas do baixo meretrício que compromete quem delas se aproxima. Apesar das exceções, que ainda a aproximam de uma atividade indispensável ao homem, conforme o conceito aristotélico de que só a ele cabe esse exercício, normalmente o lixo e a sordidez é que predominam. Agora apareceu um documento atribuído ao senador Alvaro Dias em papel timbrado do Senado e respectivo gabinete, datado de 1º de junho, em que ele faz acusações pesadas contra seu colega de bancada, Roberto Requião, até de crime contra menores. Nem a autoria e nem o suposto fato são verossímeis, não se ajustam ao modo de ser das figuras citadas e tudo soa como grosseira manipulação. A quem favorece esse tipo de canalhice?
Isso se dá no momento em que tanto Alvaro como Requião lideram as pesquisas para a eleição governamental, o primeiro distanciado à frente, e igualmente na sequência de um apelo do dono do PMDB ao dono do PSDB e a seu irmão Osmar para que retornem ao partido. Se Alvaro só entrou no PSDB com a garantia de que se impediria o ingresso de Jaime Lerner e seu grupo não retornaria ao PMDB para submeter-se ao estilo ditatorial que tanto os aproxima.
Não bastasse a pobreza dos quadros paranaenses, o repeteco intolerável dos mesmos tipos com seus discursos moralistas, as idiotices novelescas desse governo desorientado e trapalhão, ainda temos que suportar essa avalanche fecal. Não há Sanepar ou Sabesp, a de São Paulo, que tenha capacidade para fazer o esgotamento da craca inominável. Vade retro.
AXIOMA
Que o governo tivesse razões para esconder os protocolos das montadoras como se fossem ‘‘Os Protocolos dos Sábios do Sião’’ vá lá, mas se recusar a mostrar o balanço dos Jogos da Safadeza é demais e ainda por cima ocultar quem gerirá a próxima edição
BIZARRICE A Associação Comercial do Paraná, sempre afinadíssima com Lerner, divulgou ontem manifesto contra a privatização da Copel. Seus dirigentes poderiam argumentar: nós não mudamos, quem mudou foi ele, o governador. E mudou tanto que disse que preferiria morrer a vender a estatal ou ainda que só o faria se tivesse enlouquecido. Continua em dívida com o povo.
GLOSA A cogitada expulsão dos senadores Alvaro e Osmar Dias do PSDB é tão burra e estúpida quanto as ações do governo paranaense que encheram a bola da oposição, inclusive de uma CPI que não tem um fato comprovado até agora de grampo, além daqueles da espionagem comercial e o da ex-secretária Maria Elisa Paciornik.
EPIGRAMA A influência, ainda, do Aníbal Khury é de tal ordem na política paranaense que até parece a Epifânia da novela ‘‘Porto dos Milagres’’ que antes, durante e depois dos funerais vai continuar presente.
CACIFE Sabe-se que na política há figuras que adoram frequentar cassinos na Argentina e Paraguai a cada deslocamento para Foz do Iguaçu. Não são iguais certamente, pois uns, mais pobres, jogam nas salas dos mais comuns e outros mais abonados se dirigem ao salão de ‘‘bacarat’’, cacife mínimo de R$ 50 mil.
ONGs A Globo ontem mostrou o poderio empresarial das ONGs ambientalistas e a fortuna que manipulam. Isso, no passado, era obra de idealistas, de quixotes, hoje não mais. Em que pese o tom emocional, por vezes primário, das denúncias do deputado Neivo Beraldin sobre a atuação das ONGs em Guaraqueçaba há um fato que exige um mínimo de reflexão: se flui tanto dinheiro para esse fim, por que não se reserva o mínimo para o caiçara, pelo menos com 10% das atenções que venham a ser dispensadas para o papagaio-da-cara-roxa e o mico-leão-dourado?
Vejamos os riscos dos transbordamentos por parte dos próprios ecologistas: houve tanta atenção para o macuquinho-do-brejo, no andamento das obras da barragem do Iraí que o alertamento técnico, feito por eles mesmos, para a qualidade da água e a possibilidade de proliferação de algas, não mereceu a ênfase devida nos debates.
O Brasil está num período ainda adolescente de participação cívica, o que não impede que haja proliferação tão excessiva de ONGs quanto de algas no Iraí. Há quem diga que no Rio de Janeiro há mais ONGs de meninos de rua do que o número desses excluídos apurado em recenseamento.
Num momento em que se pede CPI para o presidente FHC e em que se faz uma para o Judiciário e outra para o Ministério Público, em que se derruba um patriarca do padrão ACM, por que não submeter as ONGs a algum controle público?
‘‘CARTA BRANDI’’ O Brasil já viveu várias experiências de documentos apócrifos. Uma delas na ‘‘Carta Brandi’’, que tentou desestabilizar o governo justamente no meio militar. O documento recente da política local, atribuído a Alvaro Dias contra Requião, é de um primarismo que não resiste à mínima análise, afora a agressão gramatical. Dado solerte é o de que o envelope tem o carimbo do Diretório Estadual do PSDB - Liderança do Partido - Assembléia Legislativa do Paraná. Como essa bancada (ora governo, ora oposição) é pendular, presta-se para fomentar a intriga e generalizar suspeitas.
FOLCLORE Embora seja acusado de indeciso, à mínima providência, Jaime Lerner é autor de uma das boas piadas de boteco sobre os que preferem o Campari, por seu tom amargo-doce, ‘‘como bebedores que ficam em cima do muro.’’
CROMO Nas algas do Rio Iraí o amargor na torneira: água com cheiro, gosto e cor é um feito exclusivamente do homem a favor e contra ele.
AFORÍSTICO Mesmo quando dorme, o governo é um risco para todos.
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