Nunca descemos tanto em matéria de burrice oficial: quando os jornais basistas já estavam liberados, o governo estadual entrou com medida judicial para apreendê-los novamente. Em suma de um ato burro, que foi a apreensão, além de ilegal, ele potencializou o vitimalismo dos atingidos.
Mas não foi só isso: sabendo-se denunciado pela ex-secretária Maria Elisa no caso de contratos superfaturados nas áreas de informática e nesse escândalo que é o arrendamento de automóveis, o governo entrou, pela Secretaria de Administração, com um mandado de segurança para que aquelas empresas não revelassem os seus contratos nem seus dirigentes fossem constrangidos com o risco da prisão. Como a co-autora é a Assembléia Legislativa, percebe-se que o Executivo se nega, de forma clara, a dar informações a que aquele poder tem direito em qualquer circunstância e dispõe-se ainda a dar proteção aos contratantes.
Há quem o ache mais corrupto do que burro por causa da roubalheira do Banestado (Leasing e Corretora), Jogos da Safadeza, os episódios de Londrina e Maringá, aos quais está vinculado, e tantas outras coisas. Todavia, pelos atos que vem praticando prova que é mais burro do que corrupto.
Exemplos da burrice são diários: empurra com a barriga as suas dívidas e engana professores e policiais militares com aumentos que protela; sugere que a ordem para vender a Copel é de Brasília (na verdade é do ‘‘modelo’’ claro de submissão ao receituário purgativo do FMI) e é desmentido categoricamente pelo presidente da República que reafirma a autonomia estadual para a decisão.
Seus próprios quadros – Gerson Guelmann, Maria Elisa, Rafael Greca – criam seguidas dificuldades: um contando que recebeu uma fita do Além que o orientou para apreender jornais da campanha de Requião, outra dando detalhes de contratos milionários superfaturados e o derradeiro, o mais talentoso, dizendo que Lerner não tolera ouvir deputados ao vivo – quanto mais em gravações.
Tudo isso fica muito próximo da sublimidade. E explica por que o Paraná perdeu o respeito em nível nacional.
BOLA POÉTICA Acompanhar a política, especialmente a do Paraná, deveria atribuir aos jornalistas o direito ao adicional de insalubridade. Dá tédio, acaba fundindo a cuca. Nada, pois, mais aconselhável do que buscar o encontro com a poesia e os seus mistérios ontológicos e fenomenológicos. Com a morte do Didi revimos a poesia de Paulo Mendes Campos sobre o craque. E agora com o livro sobre Ademir da Guia não há como esquecer aquilo que João Cabral dele falou: ‘‘Ademir impõe com o seu jogo// o ritmo do chumbo (e o peso),// da lesma, da câmara lenta,// do homem dentro do pesadelo.// Ritmo líquido se infiltrando// no adversário, grosso, de dentro,// impondo-lhe o que ele deseja,// mandando nele, apodrecendo-o.// Ritmo morno, de andar na areia,// de água doente de alagados,// entorpecendo e então atando o mais irrequieto adversário.//’’
OUTRO ADEMIR Houve um outro Ademir, o pernambucano, artilheiro da Copa de 50, que vi atuar aqui em Curitiba pelo Sport de Recife. Do ataque de um time que excursionou pelo Brasil com poucas derrotas (uma para o coxa, que tomou duas) ficaram Djalma, Ademir, Pirombá, Magri e Valfredo. Vejam o que o mestre Cabral disse do Ademir (Queixada) Menezes: ‘‘Você, como outros recifenses,// nascido onde mangues e o frevo,// soube mais que nenhum passar// de um para outro, sem tropeço.// Recifense e, assim, dividido// entre dois climas diferentes,// ambidestro do seco e do úmido// como em geral os recifenses,// como você ninguém passou// de dentro de um para o outro ritmo// nem soube emergir, punhal, do lento:// secar-se dele, vivo, arisco.//’’
Imaginaram o privilégio de quem vê todas essas dimensões do atleta tanto num Ademir como no outro? O primeiro, a meu ver, tinha uma elegância de movimentos que dava a ilusória impressão de lentidão. Não era lento: defendia dentro da área do seu time e, em seguida, lá estava fazendo gol do outro lado. ‘‘Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados.’’ O segundo saía do ritmo compassado para a velocidade aguda num instante de quem passa do mangue para o frevo.
TELEGRAMA No poema ‘‘De um jogador brasileiro a um técnico espanhol’’ vejam o que ele aprontou: ‘‘Não é a bola alguma carta// que se levar de casa em casa:// é antes telegrama que vai// de onde o atiram a onde cai.// Parado, o brasileiro a faz// ir onde há-de, sem leva e traz;// com aritmética de circo// ele a faz ir onde é preciso;// em telegrama, que é sem tempo// ele a faz ir ao mais extremo.// Não corre: ele sabe que a bola,// telegrama, mais que corre voa.//’’
TORCEDOR Do poeta enxuto, faca só lâmina, não se espera transbordamento, mas vejam o que ele escreveu em 81, Guayaquil, ‘‘Brasil 4 x Argentina 0’’ em reflexões que não ocultam o torcedor. Aquele tempo isso era permissível. Vamos lá: ‘‘Quebraram a chave da gaiola// e os quadros-negros da escola.// Rebentaram enfim as grades// que os prendiam todas as tardes.// Nos fugitivos, é a surpresa,// vendo que se tomaram as rédeas// (dos técnicos mudos, mas surpresos,// brancos, no banco, com medo)// Estão presos os da outra gaiola,// que não souberam abrir a porta:// ou não o puderam, contra o jogo// dos que estavam de fora, soltos.// De certo também são capazes// de idênticas libertinagens// uma vez soltos, porém como// se liberar daquele tronco// em que os aprisionaram os táticos// argentinos, também gramáticos.// E enquanto os fugitivos seguem// com a soltura, a sem lei que os regem,//nos bancos é uma a indignação:// dos que vão vencendo e dos que não://Voltamos ao futebol de ontem?// Voltou a ser um jogo dos onze?// Voltou a ser jogar de pião?// Chegou até cá a subversão?// Como é possível a haver xadrez?// Sem gramática, bispos, reis?’’
Bem melhor que política, hein?

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