O Brasil vive um momento excepcional de democracia. Assim era também em 1964 com Jango Goulart. Só que naquele tempo havia a guerra fria que tudo contaminava. Apenas no dia de ontem, em Curitiba, tivemos marchas e comícios de conflito aberto com o governo, um deles decorrente da patetice de aprender um jornal basista com o que acabaram promovendo os autores.
São as dores do parto da democracia. Há um risco no momento em que se pretende acelerar a délivrance e fazê-la, como se deu 37 anos passados, a ferro. Em parto normal, quer dizer aquele que nasce do livre jogo das forças em choque, chega-se à democracia, mesmo que venha com resíduos de assembleísmo e democratismo, o que vale à demagogia institucionalizada.
É parte desse jogo, embora se discuta a quebra de regras de cortesia, a oratória candente, mas necessária, do presidente da OAB nacional, Rubens Approbato Machado, na posse do novo presidente do STF, ao abuso intolerável da edição de Medidas Provisórias, raios de Zeus, de FHC. FHC veio com aquela costumeira de afirmar que lutou contra a ditadura, o que, diga-se de forma clara, não assegura indulgência plenária a ninguém.
Imediatamente os porta-vozes do Planalto, cada vez mais parecidos com a múmia daquele quadro do Agildo Ribeiro como professor de história, criticaram o que chamaram de ação oportunista e deseducada, todavia sem razão alguma. Pior seria se a OAB não se valesse do momento para evidenciar a usurpação de poderes e lembrando, muito bem, do despotismo, ao qual, no caso brasileiro, por mais positivas que sejam algumas ações do governo para reorganizar o Estado, não se pode adornar com o adjetivo de ‘‘esclarecido’’.
Há ousadias necessárias que exigem a ruptura dos protocolos. Essa tensão é parte das dores do parto da democracia. Grave é a quebra da hierarquia das leis, do desrespeito sistemático da Constituição e o abuso do poder.
GLOSA
‘‘A corrupção que a gente sabe’’, segundo o jornalista Cândido Gomes Chagas, substituiria com vantagem os ‘‘teasers’’ anteriores dos marqueteiros palacianos ‘‘A transformação que a gente v꒒ e ‘‘A transformação que a gente faz’’. De fato, o transformismo havido é assustador
MECENATO Fala-se amiúde nos meios culturais de Curitiba que o empresário Salomão Soifer seria o mais novo Mecenas da praça e estaria disposto até a transferir à Fundação Cultural da cidade um imóvel que abrigava os Moinhos Anaconda para um núcleo de formação cinematográfica. Como dizia o Fernando Veloso ‘‘ainda teremos, com o progresso econômico, o nosso José Mindlin’’.
Em plena globalização é de esperar-se que o mecenato deixe de ser estatal, o que será um bem para todos e apoio à Lei de Responsabilidade Fiscal.
BIZARRICE Um delegado de polícia, ao ver as emendas que obteve no estatuto da categoria expungido de toda matéria disciplinar poderia dizer que haviam tirado ‘‘o ferrão da vespa’’
AXIOMA O humor é melhor do que o ódio nas manifestações. Segue a lição de Chê Guevara de que ‘‘é preciso endurecer-se sem perder a ternura jamais’’. Humor é uma forma de ternura. Aquela moça nua, a Carla, presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, no ato anti-FHC em Brasília, está longe dos modelos de nudez que empolgaram a mente masculina como Lady Godiva e Frinéia, aquela que, ao ficar pelada diante dos juízes, foi absolvida pela beleza. Se era para chamar a atenção valeu, mas isso está longe de tirar a roupa do governo.
EPIGRAMA O argumento de FHC de que lutou contra a ditadura não é suficiente para contestar seus atos autoritários como as Medidas Provisórias. Aliás, esse é um hábito comum invocado em favor das vítimas de 64 que se fossem tantas, como se diz, constituiriam maioria diante das forças do governo, as militares e as civis que não eram poucas.
Nenhum homem e nenhum povo tem direito à absolvição permanente. A Igreja só há pouco admitiu a barbárie da Inquisição. Mussolini, antes de ser fascista, era socialista. Mas também não se pode, de outro lado, permitir que vítimas se transformem como Israel que faz com os palestinos em alguns aspectos algo parecido com o que fizeram os alemães com o seu povo. Aconselho a propósito a leitura do livro ‘‘A Indústria do Holocausto’’ do judeu Norman G. Finkelstein, que desmistifica os exageros e a deturpação ideológica.
SPRAY O governo entrar com mandado de segurança (acatado na liminar por um desembargador) contra o presidente da Assembléia Legislativa e o presidente da CPI dos Telefones em favor das empresas Consult Informática e Cotrans (aquela que aluga veículos) para que não tenham seus contratos verificados é a prova maior de que teme até uma devassa parcial. - O desembargador Vanderley Rezende vai ouvir agora os deputados para saber se há legalidade na pretensão em obter de forma clara essas informações. - O uso do cachimbo deixa a boca torta: bastou um pouco de independência no Legislativo para que o Executivo perdesse o autocontrole. - Depois de muita encenação, houve juízo e a polícia devolveu os jornais apreendidos dos basistas. A repercussão da violência vai ser maior do que as denúncias que não diferem das divulgadas pela mídia. O autoritarismo e a burrice quase sempre caminham juntos.
FOLCLORE Se escondeu os protocolos das montadoras, o governo acha que pode tudo ocultar: da história dos grampos à dos contratos superfaturados. É que ele próprio se escondeu e ninguém o acha. Nem ele mesmo.

mockup