Houve quem não gostasse das referências feitas (em função dos grampos no Sindicato dos Bancários pelo HSBC) sobre o governo Lerner de que se as coisas assim persistissem poderíamos em breve ter campos de concentração e até fornos crematórios. Evidentemente que se trata de um exagero pedagógico, aquele que é feito com o ânimo de corrigir (animus corrigendi) ou o de gozar (jocandi), criticar, condenar, ridicularizar. Em matéria de mancadas, chegou-se a um ponto de exaustão. Como ensinam os teólogos escolásticos, é inaceitável qualquer forma de tolerância com o erro absoluto.
O fato é que há hipóteses plausíveis de vinculação entre governo e corporações nesses dois episódios: o do grampo na secretária Maria Elisa, com respaldo na Telepar, e o dessa sordidez contra bancários. Indesejado ou não, o fato deve ser cobrado do governador por se tratar da autoridade maior e cujos agentes subordinados deitam e rolam, como se viu na CPI federal do Narcotráfico no caso da polícia quando Lerner não teve outra alternativa a não ser a de derrubar toda a cúpula do sistema.
Delegados de polícia aparecem na relação dos pagamentos do HSBC e a sua associação de classe, a Adepol-Sindicato, mandou à imprensa uma justificativa dizendo que os recibos eram o único meio formal de documentar as doações recebidas daquele estabelecimento para a compra de papel, combustível, computadores, impressoras etc, já que o governo está quebrado e não supre o setor dos recursos mínimos. Você, leitor, acredita nisso?
Admitemos que seja verdadeiro: ainda assim esse governo trapalhão estaria legitimando formas de contabilidade paralela. Como outras, a que já me referi, do tempo de Requião, em que a PM, em troca de dar guarda a agências do Banco do Brasil, recebia dinheiro supostamente para a aquisição de combustível e que passava por um sistema de comprovação, via recibos, à margem de qualquer norma contábil.
Não dá para comparar a gravidade de um assunto com o outro. Mas de qualquer forma mostra as vulnerabilidades da administração, sujeita a esses paralelismos, por vezes indecifráveis. Não há Tribunal de Contas que entenda disso. A tarefa é para mágicos como Davi Coperfield ou Houdini.
GLOSA
Todo o mundo esperava uma hecatombe com o discurso de ACM e a coisa não passou de um traque baiano. Se o Requião lê o discurso o efeito seria outro. E ACM poderia acertar o revezamento em troca da lista
BIZARRICE O deputado Neivo Beraldin está irritadíssimo com a mídia porque não foi dado destaque a seus pronunciamentos sobre as contas de Lerner. Sempre foi assim: nos ‘‘considerando’’, como dizia o coronel Paraguaçu, o relatório do TC traz críticas e quando chega nos ‘‘finalmente’’ vem a relação pactual com o Executivo, largamente praticada pela Assembléia Legislativa como sempre.
AXIOMA Se o governo der os cargos que setores da base aliada pedem, será que a tempestade passa? Há um problema se mais gente quiser mais ‘‘bocas’’. Papai Noel em junho não é estranho, pois o governador, quando prefeito, inventou um velhinho do Natal que era verde como uma lagarta.
EPIGRAMA A receita estadual aprendeu ontem um jornal de oposição que vinha de São Paulo para cá e que criticava o governo. Seria alerta de grampo?
SPRAY Mais uma violência do governo Lerner: o jornal do Fórum ‘‘Impeachment Jᒒ, que pede o impedimento do governador e de FHC, foi apreendido na BR-277 pela Receita Estadual, quando era remetido de São Paulo a Curitiba. - Se a polícia presta serviços ao HSBC na hora do expediente, não surpreende também o fato de ser substituída, hipoteticamente, por fazendários. - A publicação, editada pela jornalista Léa Okseanberg, com quatro páginas, juntava no mesmo bolo Belinati, Jairo Gianoto, Paolicchi, Giovani Gionédis, Rafael Greca. - Na manchete uma rima de pé quebrado: ‘‘Vamos limpar o Paraná tirando o Lerner já!’’ - O governo não está livre de assaltos: o secretário de Esportes, ou melhor, coordenador da Universidade do Esporte, Segismundo Morgestern, teve a sua casa invadida e pilhada. Teriam levado o cofre, documentos e valores. Apesar do sigilo, a notícia vazou. - Bancada aliada percebeu que levaria bomba se o pedido de salvo-conduto para viagens em favor do governador e da vice figurasse na ordem do dia e tirou o time para evitar ‘‘quórum’’. - Ocorre que cada vez está mais difícil a barganha: há poucos cargos possíveis em número bem menor do que a demanda dos aliados. A sequela é nervosismo, ansiedade. - O constrangimento sofrido ontem pelo secretário de Planejamento, Miguel Salomão, quando vinha cumprir um ritual da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), ao apresentar o relatório do quadrimestre, dá bem a idéia de como está o clima nas relações entre Executivo e Legislativo. - Não dá para acreditar que os parlamentares estivessem interessados no relatório, mas tão-somente em criar e manter o confronto. Se continuar assim, na hora em que o governador for ler a sua mensagem anual correrá o risco de ser agredido. Uma grosseria, nada mais, fantasiada de desforço cívico porque os deputados alegaram não ter os números do relatório. Uma assembléia que recuou no caso da CPI da Copel-Sercomtel perdeu a moral para qualquer coisa. Quem tem memória sabe disso.
FOLCLORE O jornal ‘‘Agora Paranᒒ fez uma charge pesadíssima contra o vereador João Cláudio Derosso, presidente da Câmara Municipal de Curitiba, em que este, como homem do riquixá da China, carrega servilmente o prefeito Cassio Taniguchi. Uma imagem vale mais do que mil pauladas.
CROMO E no apagão, como manter o motor que garante a vida ao aquário? Que tal peixes fosforescentes flutuando como agulhas luminosas?
AFORÍSTICO Vai haver outra mancada oficial hoje. É inevitável.

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