Se o governador tiver qualquer vinculação, ainda que remota, nesta atrocidade que é a espionagem dos sindicalistas bancários pelo HSBC com apoio logístico do seu já minado setor de segurança, deve renunciar, deixar o Palácio Iguaçu, pedir o chapéu, se mandar. Porque se houver tolerância de sua parte dentro em pouco estaremos com campos de concentração e fornos crematórios por aqui e apontados como algo tão natural quanto o Farol do Saber, o Ópera de Arame e outras expressões da arte kitsch, aqui tão badaladas.
O fascismo é, também, um estado de espírito. Quando se articulam os interesses das grandes corporações com o governo e contra o povo estamos diante de algo inaceitável num ordem tida como de Estado de Direito Democrático. Os procedimentos da escuta ilegal em cima dos bancários, além de uma burrice piramidal, já que os sindicalistas agem às claras, o que torna ociosa toda a operação estúpida e que decalca os piores momentos do regime militar no pós-68, potencializado pelo Ato Institucional 5, lançam este governo na cloaca do obscurantismo acoplado à corrupção.
Se a autoridade permite que policiais, delegados de carreira, atuem em questões dessa ordem, mobilizando igualmente a Polícia Militar, e recebam por esses serviços, o sistema acaba ‘‘legitimando’’ aquilo que a CPI nacional aqui descobriu na aliança entre a instituição e o crime organizado. É um ‘‘liberou geral’’ para ninguém botar defeito.
Até clubes grã-finos, segundo o depoimento de um ex-funcionário do HSBC, que atuava justamente nessa área, recebiam essa ‘‘proteção’’ com o deslocamento de seus quadros para tarefas de segurança privada. Essa tolerância que impede identificar a fronteira do público e do privado, já visível na roubalheira do Banestado, e na sordidez da desenfreada ‘‘arapongagem’’, num país civilizado levaria muita gente à cadeia. Infelizmente não é o nosso caso: aqui não será de espantar que o governo, jogando em favor da Telepar, que é parte em tudo isso, tente bloquear de vez a CPI dos grampos, manipulando o seu rebanho de ‘‘vaquinhas de presépio’’ e procure, também, preservar outra corporação, a do banco inglês que ganhou na moleza o maior complexo financeiro do Paraná e que o governo estadual, em momento algum, mobilizou energias para defender.
BIZARRICE
Com esse caso do HSBC, recebendo apoio logístico do governo para espionar sindicalistas, fica provado que o Estado se privatiza em áreas que ninguém poderia imaginar. Com a segurança privatizada, não dá para espantar que de repente o banditismo se torne público e, dentro em pouco, oficial.
AXIOMA O dublê de presidente da Copel e secretário da Fazenda, Ingo Hubert, sumiu do pedaço, andou pela China Continental e viajou pela Europa. Seu antecessor, o Giovani Gionédis, tem razão quando diz que o ajuste fiscal não é prioridade para o momento atual como se isso explicasse a sua saída. Essa viagem é também uma explicação para deputados nervosos que cobram acordos até agora muito compridos e não cumpridos.
GLOSA O subdesenvolvimento contamina: o HSBC pegou o bonde errado. Em lugar do James Bond pegaram, pelo jeito, um carroção do oeste americano.
EPIGRAMA A paranóia militar gerou a tortura, DOI-CODI, repressão. Que tipo de paranóia estaria dominando o governo paranaense com a sua série de engraçados clones do inspetor Clouseau?
A LISTA Seria ótimo que a lista da votação da cassação do senador Luis Estevão viesse a público para desmistificar a austeridade encabulada e a coragem dissimulada de muitos. Claro que a senadora Heloísa Helena, do PT, já saiu de borduna à mão para dizer que a origem de tudo é lixo. Funcionaria como uma espécie de ‘‘jogo da verdade’’ para o conjunto da instituição que tenta sugerir haver feito uma depuração radical na Casa. Todos sabem que não houve, ainda que se reconheça que a Comissão de Ética cumpriu bem o seu papel.
SUTILEZA Pode-se dizer do governo Lerner que ele tem algo de marxista: afinal essa história de ocupar espaços públicos e transformá-los em aparelhos da causa figura entre os valores da doutrina de Antonio Gramsci. O que tem de agente orgânico por aí é de espantar.
TRADIÇÃO Só falta o governo agora dizer que essa história de prestar serviços a outras organizações já era praticada na administração Roberto Requião. De fato, quando o atual chefe da Casa Militar, coronel Vieira, era diretor do setor financeiro da PM ele denunciou o convênio entre a corporação e o Banco do Brasil, no qual este, a pretexto de recursos para combustível, pagava pela guarda das agências uma importância considerável submetida a uma tortuosa prestação de contas sem observância a qualquer padrão contábil de respeito.
À época o coronel Vieira denunciou ainda as compras de calçados e de rádios transceptores, o que teve fortíssima repercussão. Não dá para fazer analogia entre uma relação com um banco público, o principal do sistema, e PM com essa liberalidade havida no HSBC. Mas deste pessoal se pode esperar de tudo, pois afinal eles lembraram que o desmonte da Copel teria se iniciado com as vendas de ações da empresa no governo Requião quando se tratava de operação com objeto bem definido e não visava cobrir problemas de caixa como se deu, desde aquele saque de R$ 160 milhões junto ao Banco Central, com Lerner.
FOLCLORE O vereador Salamuni é o Pedro Lauro remasterizado: quer banheiros públicos em Curitiba, o que é uma forma de ‘‘privatizar’’ útil.
CROMO Rosa, rosae, rosae, rosam, rosa, rosa; rosae, rosarum e assim por diante na primeira declinação de latim. A rosa-flor se tornava magia pura.
AFORÍSTICO Vai pra casa, Padilha, enquanto é tempo.

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