Há uma anedota sobre o regime militar (a piada normalmente só vem depois que ele acaba) em tudo aplicável ao problema atual do governador, transformado em alvo de mulheres de PMs, dos sem-terra, dos professores. Um ônibus lotado na cidade e de repente o estalo de um tapa na cara: uma senhora pregou o braço num major sob a alegação de que o militar a encoxava. Bastou isso para o rolo entrar no auge. Bofetadas, exibição de carteirinhas (é assustador o número de pessoas importantes que pintaram no pedaço), empurra-empurra. Tudo foi acabar na polícia, na delegacia mais próxima. O delegado punha ordem no caos: o major negava o ato, a mulher descrevia o assédio. Uma coisa, porém, ele não entendia de jeito nenhum: por que, afinal de contas, o cobrador, ao ver o quepe do major no chão aplicou-lhe um chute como se estivesse batendo um pênalti? Nervoso, o homem simples clareou: ‘‘Ora, seu delegado, quando eu vi aquela turma toda batendo num militar achei que a revolução tinha terminado...’’
Ao contrário do que alguns áulicos sugerem a Lerner – para ele aproximar-se de novo da população, como o último e postiço programa do PFL mostrou – ele deveria, isto sim, acautelar-se e até seguir o conselho dos que lhe recomendaram o uso de um carro blindado. Nesse momento ele não está agradando: salários sob forte arrocho do funcionalismo, lançamento do programa de demissões voluntárias num governo que não paga nem as férias dos barnabés, corrupção generalizada, fones grampeados, Estado quebrado, leilão para a Copel e o Banestado. O caos.
Acabou-se o tempo em que Lerner pintava na Boca Maldita. Hoje, na melhor das hipóteses ele correria o risco de ser importunado por um ‘‘xarope’’. Não dá mais para tomar caipirinha no Passeio Público ou sentar numa das mesas do Café Ritz para degustar um ‘‘capuccino’’. Nada justifica, porém, a maldade da oposição, MST no meio, de que usa o neto como escudo humano ao andar por aí.
Seu epílogo de gestão está pior do que o de Alvaro Dias apavorado com os professores. O refúgio é o Maneko’s Bar: lá, em alguns sábados, toma um chope junto com o seu cabeleireiro, o Zé Trindade, este com grande prestígio na roda.
MEU TIO O cineasta Jacques Tati fez vários filmes, mas o que marcou mesmo foi ‘‘Mon Oncle’’ (‘‘Meu Tio’’). Várias vezes imaginei relatar histórias dos meus tios. Um deles, Alfredo Mazza, chamado de ‘‘Alegria’’, era incrível: um fim de tarde em Guaratuba tomava umas e outras com o jornalista Antero Régis quando viu que o seu companheiro, que padecia de doença pulmonar crônica, gelara, tiritava de frio, apesar do calor. Foi até a padaria da vila, perguntou quanto custava o estoque de pães, comprou-o e mandou resfriar o forno e botou o seu irmãozinho naquele calor, improvisação que precedeu de muito o ‘‘pulmão de aço’’. Essa cena de amizade que daria um filme felliniano é bem a marca dos dois amigos.
Um outro tio, o cirurgião-dentista Manoel Lobo da Silva Brasil, fez, semana passada, em Ponta Grossa, 90 anos e, como se não bastasse para alegria da família e dos amigos, lançou o livro ‘‘Nem te conto’’. Lelito, seu apelido, foi o fundador da Universidade de Ponta Grossa e também da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), seção municipal, como seu primeiro associado.
Pois num dia, quando as paixões e irracionalidades da Segunda Guerra levavam massas ensandecidas a quebrar janelas das casas de supostos súditos do Eixo, o seu nome em letras de forma no consultório que tinha numa das dependências da casa em que eu morava, na esquina das ruas Paula Gomes e Mateus Leme, em Curitiba, foi um dos fatores que inibiram a plebe ignara de lançar-se, em fúria cívica, contra os italianos Mazza.
Além de Lobo da Silva era também Brasil. Brasileiríssimo da silva. Azar do Mueller, que tinha a fundição um pouquinho mais adiante, entre as ruas Inácio Lustosa e Barão de Antonina, e que teve todos os vidros quebrados. Azar do Clube Concórdia, no quarteirão próximo, entre as ruas Duque de Caxias e Carlos Cavalcanti, também apedrejado. Por sinal que numa ocasião o interventor Manoel Ribas foi até a porta do clube para segurar alguns ‘‘patriotas’’ e defender o presidente do clube que era seu amigo.
BOTÕES A melhor comunicação que havia sobre futebol, nos anos 40 e 50, era a derivada do futebol de botão e de uma época em que ainda não havia produto industrializado ou sob a forma artesanal que substituísse aquele que usamos em nossos paletós e casacos. Havia um vandalismo nos guarda-roupas: se o botão tivesse defeitos e ‘‘pulasse’’ em sua base nós o lixávamos.
Em cada botão a identidade e a carinha, extraída dos jornais e revistas, dos craques. O campeão da modalidade era o Ermelino de Leão, mais tarde revelado também como o mais dedicado e sensível dos cabos eleitorais de Ney Braga.
Irradiávamos o jogo, imitando o espíquer nacional, quase sempre do Rio, em primeiro lugar, ou de São Paulo. No jogo solitário, era uma loucura porque normalmente havia preferência por um dos times com uma retranca fortíssima para o acidental e o destino. Outro detalhe: era inevitável o colonialismo cultural ao preferirmos o que era cosmopolita (Rio, Sampa; Minas e Rio Grande do Sul demorariam para se impor) e só aos poucos dávamos atenção aos tupis e tapuias da praça: Coritiba, Atlético, Ferroviário, Savóia, Palestra.
A propósito da Segunda Guerra: Palestra daqui e o de São Paulo tiveram que mudar de nome, o Savóia para Brasil e depois Água Verde.
PEDAGOGIA Hoje polícia não intimida apenas com sinais como no passado. Agora é no pau no mesmo. Tivemos aqui agentes de menores como o Serrato e o Caputo que ao simples enunciar dos nomes já inibiam a gurizada. No fim dos anos 40 veio pra cá outro duríssimo, o major Lira, cujos jipes nos perseguiam nas molecagens de rua. Hoje sirene e giroflex não superam aquelas referências.

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