Quem está provocando a Polícia Militar, muito mais do que as esposas dos milicianos, como se deu nos últimos dias, é o próprio governo. Este sabe, há muito, do problema hierárquico na instituição com o corte da gratificação que formou um fosso entre os estratos da corporação, atingindo justamente os setores intermediários, agravado com a concessão das vantagens para alguns no Judiciário. A questão é antiga, mas que se transforma num problema até de traço estrutural.
A PM já perdeu quadros de elite nesse período: de uma só tacada uma de suas figuras de maior brilho, o coronel Bortolini, caiu por pressão daquele que realmente mandava na área de segurança, o saudoso deputado Aníbal Khury. Na sequência, em ato de solidariedade, o que é exclusividade das pessoas decentes (hoje não muito em voga) o caso levou de roldão o comandante Mainguê. Foi essa perda voluntária de prerrogativas de Jaime Lerner que justificaria, mais tarde, o espanto com que a sociedade assistiria aos efeitos da passagem da CPI nacional por aqui, marcada pelo desmantelamento da cúpula da Polícia Civil e por uma evidência de que o crime organizado se apoiava em setores da malha legal.
Por interferência do secretário-chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, escalado como bombeiro para essas tarefas desagradáveis no campo reivindicatório, o governo ganhou moratória do ano passado para que se resolvesse em fevereiro deste ano essas tensões e agora conseguiu mais dois meses de prazo. Quer dizer, como é do seu estilo, empurrou tudo com a barriga como se estivesse solucionando e não apenas adiando compromissos. Ora, esse processo acaba acumulando energia dos potencialmente rebelados como PMs, professores e funcionalismo em geral submetidos a um arrocho que o STF já considerou desumano e ilegítimo.
De moratória em moratória, em meio a obsessão da venda (a qualquer custo) da Copel para acertar problemas de caixa, criados pela incompetência e também pela prodigalidade dos gastos e abusos em desvios (Banestado, Jogos da Safadeza), sabemos desde logo que teremos em julho a reprise dos atos de indisciplina e de subversão. Só falta agora o professorado e as outras faixas do funcionalismo aproveitarem a ressaca para uma surfada geral. Será o caos programado pelo governo com um rigor de planejamento que não emprega como rotina dos seus atos administrativos.
BIZARRICE
O pedágio na Penitenciária nada tem a ver com o da estrada, mas neste é mais do que legítimo, quando se passa pela catraca, erguer as mãos como quem acabou de ser assaltado. E o que é pior, legalmente
AXIOMA Ontem deu para ver, dizia o pessimista, por que o Brasil não vai para a frente: num dia útil, por causa do apagão, pelo menos quatro estádios cheios em jogos de futebol. É por isso que se diz que quando o governo convoca o povo brasileiro a ir para o campo a maioria se dirige ao Maracanã.
GLOSA Que afinidade levará o pessoal do Primeiro Comando da Capital se considerar um partido: uma aproximação de estilo ou o quê?
EPIGRAMA Ontem nem tudo estava ruim para Jaime Lerner, Cassio Taniguchi, Rafael Greca, Gerson Guelmann e Giovani Gionédis (este mais feliz ainda porque é diretor): a classificação do Coritiba no Maracanã compensou as amarguras comuns de todos os dias.
REFLEXÃO Se todo o agarra-agarra na área for pênalti, como aconteceu ontem no Flamengo e Coritiba, escanteio no Brasil vai ser como lance livre no basquete: nenhum escapará da marcação da penalidade.
CAFEZINHO No fim da tarde de ontem comentaram por aí que a liderança do governo teria ido ao Palácio Iguaçu tomar um ‘‘capuccino’’ com o governador. Olha isso aí está mais com cara de ‘‘capaccino’’.
SPRAY Pegou a CPI do Ministério Público: os que estavam visados objetivamente e os potencialmente deram o número de assinaturas. Para a democracia não é um mal: todos os poderes devem estar igualmente sujeitos à análise e à revisão dos seus atos. O MP não é um poder, mas ganha essa dimensão na Carta de 1988. - Janene, visadíssimo pelos episódios de Londrina, foi um dos que tomaram a medida em primeiro lugar. O Brasil vive um momento de efervescência política e cívica e os exageros, até os institucionais, compensarão pelas vantagens globais. - O jovem Luis Malucelli, filho do ex-deputado Luisito, ingressa hoje no PSDB pelas mãos dos irmãos Alvaro e Osmar. A festa vai ser no Malutron, meio-dia. Se houver a hipotética intervenção no tucanato encabulado do Paraná, mudam todos para o PTB, a essa altura sem a vice Emília Belinati. - Atrasadíssimo o cronograma do shoppping gigante do Barigui. Construtora promete início das obras para agosto, mas isso já vem sendo protelado há muito. - Em 30 anos o PIB de Curitiba cresceu 20 vezes, segundo a revista ‘‘UpDate’’, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo. Quase em cima do ciclo lerneriano. Que bom se isso se desse com o Estado, agora já sob o ‘‘comando’’ dele pela segunda vez, quando as expectativas não parecem assim tão satisfatórias.
FOLCLORE Para enfrentar o Atlético Paranaense, o Coritiba precisava arrumar um dirigente do tipo Mario Celso Petraglia e parece ter conseguido isso com a ida do ex-secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, para o seu conselho. Ambos saídos – dizem que definitivamente, embora pareça encenação – do ‘‘staff’’ de Jaime Lerner. Para o coxa arrancar de uma vez só falta botar o empresário Salomão Soifer em dobradinha com Gionédis. Isso tira o sono do Petraglia.
CROMO As uvas de fato estavam verdes, mas nem tanto quanto os olhos da Bruna Lombardi.
AFORÍSTICO O pedágio fica apenas nas estradas e nas penitenciárias ou é parte de um estilo de administrar as coisas?

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