Luiz Geraldo Mazza
As tensões ontem registradas na Polícia Militar revelam o óbvio: o governo já terminou o seu ciclo, acabou. A crise opera por vasos comunicantes, já com as características de uma pandemia, não havendo setor público que não esteja infectado. Não se pode imaginar como o atual governador, com tamanho desgaste, venha a disputar uma eleição como a pretendida para o Senado da mesma forma que não há um horizonte para o governo sair da entalada em que se meteu por suas próprias artes e rematada incompetência.
Credibilidade zerada, ausência de autoridade (que está na raiz não apenas da corrupção, mas também da debochada inação da área pública), falta de punch marcam o grau de esgarçamento do tecido político-institucional. A resposta está na desobediência generalizada, pois sabido é que não se concede o direito ao motim na PM, na mínima falta de respeito à figura do governante que parece cada vez mais angustiado, mais entediado, para novas viagens ao exterior e com isso fugir da mediocridade dessa erupção de paixões provincianas que afinal são mesquinhas e prosaicas demais para um espírito de eleição.
Além de quebrar o Estado concretamente com a desastrada gestão financeira (o penúltimo secretário posa de solução sucessória, como se nada tivesse a ver com o que está ocorrendo e como se tudo se desse depois de sua saída), o governador é um ausente que se recusa a encarar a realidade e para tanto se vale dos títeres de escola de samba que o bajulam. Tenta dissimular o fato de que a venda da Copel se funda num esforço para acertar problemas de caixa, ainda que procure dourar a pílula com a capitalização do Fundo de Previdência, também quebrado congenitamente.
A cada pressão reivindicatória, como essa da PM ou a dos professores, lembra da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ou então afirma que isso só será possível com a venda da Copel, como sugeriu inúmeras vezes. Um setor da oposição estaria disposto a aprovar o projeto que lhe permite e à vice-governadora as viagens sem pedidos de licença ao Legislativo na esperança de que haja algo como o ocorrido com Fujimori que aproveitou a estada no Japão para tirar o time de campo de forma definitiva. Faltaria a frase renuncinha não dói.
BIZARRICE
Em 1985, nas eleições para prefeito de Curitiba, como se recusava aos debates com Roberto Requião, Lerner foi chamado de Fujaime. Pelo menos está mantendo a coerência de escapista militante
AXIOMA Tanto as alegações do governo como da oposição se parecem no caso dos grampos: as fitas, quer a do Gerson Guelmann que enunciou o jornal de campanha de Requião que vinha de Cascavel, quer as do Tony Garcia, que capta conversas de empresários da comunicação social e de jornalistas e políticos, vieram das mãos de anônimos como o maná bíblico que cai do espaço sideral.
GLOSA De repente privatizam e terceirizam a mãe. Não é impossível com a moda neoliberal. A mãe preta não deixava de ser um caso de terceirização no período que precedeu a abolição da escravatura. Outro caso é da mãe de leite, que substitui a mãe efetiva, diretamente na hipótese de amamentação nos seios ou indireta no emprego do chamado
pronto-socorro dietético ou banco de leite humano.
EPIGRAMA Se o presidente da Binacional Itaipu, Euclides Scalco, está completamente por fora do problema do racionamento de energia elétrica, como o demonstrou ontem na CBN-Curitiba, imaginem o que se dá com os demais.
SURREAL Como País do absurdo, não espantaria que, atendendo a paranóia do povo diante da banalização da violência, se adotasse a pena de morte no Brasil e, ainda por cima, na cadeira elétrica. Nossa vocação para o desperdício o justificaria.
HAMLET O prefeito de Londrina, Nedson Micheleti, está numa postura parecida com a de Hamlet, ambivalente, na declamação do ser ou não ser. Diz que o problema da Sercomtel é diferente da Copel. É claro que o caso da nossa tele é mais dramático pelo cerco da concorrência, a maior dinâmica registrada no processo, mas o fundamento alegado é igual.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Lerner não fecha as contas se não vender a Copel, Nedson vai para o prejuízo. A maior razoabilidade do segundo caso não o torna diferenciado do primeiro.
SPRAY Telepar parece o governo estadual: quanto mais tenta se explicar no evento dos grampos mais se complica. A empresa insiste em dizer que não houve grampo e sim uma linha paralela no fato ligado à secretária Maria Elisa. - Uma concessionária, seja de que setor for, tem basicamente um compromisso: o da fidelidade e que foi notoriamente burlado. - Um complicador está na razão do procurador-geral de Justiça que teria, segundo a secretária, contido apurações porque estas punham em risco a vida da denunciante. Essa é difícil aceitar. - A Federação Paranaense de Futebol queria o jogo Paraná x Atlético no Pinheirão. Só que o Conselho de Segurança de Edifícios e Imóveis da Prefeitura de Curitiba, juntamente com o CREA, iria, hoje, em vistoria negar condições, como já havia ocorrido antes de forma parcial. Isso facilitou a designação do Estádio Couto Pereira para o jogo de domingo. Urge acertar bem a divisão das torcidas.
FOLCLORE Nunca se viu um governo tão azarento na história do Paraná. Se ele ganhar hoje na loteria é porque amanhã o mundo vai acabar. Na certa.
CROMO A imobilidade da gaivota no espelho da várzea do Rio Iguaçu não é catatonia comum, mas suavemente poética.
AFORÍSTICO Há o Midas e o anti-Midas. Aquele pega coisa e vira ouro e este pega ouro e vira coisa. Como um que nós todos conhecemos.





