O pessoal endoidou para valer. Como a pulsão punitiva é dominante, o clima do auto-de-fé a tudo permeia. Pretende-se uma espécie de regra geral: uma jogada do boliche, o ‘‘strike’’ derrubando todos a um só tempo.
No meio dessa paranóia alguém lembra, no que passa a ser olhado como saído da Renascença, que uma das conquistas da civilização foi a da individualização da pena. De nada adiantou. Tanto que não apenas o pessoal da oposição como alguns da aliança situacionista passaram a defender a cassação da vice Emília Belinati junto com o marido.
Para dar fundamento jurídico um basbaque de plantão sugere que ‘‘o acessório segue o principal’’. O principal neste momento não é, de forma alguma, a figura populista (e por isso mesmo atrasada, mal de que padece a esmagadora maioria de políticos brasileiros, Alvaro Dias e Requião no meio) de Antonio Belinati, alvo de todas as iras, muitas até amplamente justificáveis, e sim o ‘‘background’’ punitivo, o furor ensandecido de vingança.
É possível que parte dos que protestam e radicalizam surja da circunstância de muitos deles terem votado mais de uma vez no prisioneiro e tentam atingi-lo como se com isso se autoflagelassem e purgassem as culpas. Endurecimento é preciso não apenas com Belinati como também com Gianoto (de Maringá) e com o próprio governador e ainda o prefeito curitibano, alvo de ação do Ministério Público, com o detalhe, porém, de um mínimo de civilidade, pois, caso contrário, estaremos, dentro em pouco, legitimando o linchamento.
De nada vai adiantar esse ‘‘frisson’’ em torno de prisões se na sequência houver recursos e os acusados forem inocentados. Aí não vale dizer que precisamos julgar os juízes e prendê-los também. Lembro no tempo do golpe, gestão Paulo Pimentel, a prisão do delegado Dorval Simões com enorme aparato cercando a delegacia e, depois, o policial sendo absolvido e recebendo atrasados e desprezando até a possibilidade de uma indenização. Vejam bem: um dos maiores criminalistas do Paraná, então promotor público, Luis Alberto Machado, era o autor do cerco e do processo como diretor da Polícia Civil.
Vamos julgar duramente os que praticaram ilícitos. Com a cautela, no entanto, de não transformá-los em mártires. A idéia da cassação de Emília e até de sua expulsão do PTB é de um mau-caratismo repugnante. Ouvir dirigentes que se dizem ‘‘trabalhistas’’, e jamais o foram, encher a boca e falar em austeridade é de esgotar todos os estoques de En
BIZARRICE
Quando o dirigente trabalhista anunciou que o partido não poderia tolerar corruptos, o senador Requião temeu que o cara estivesse mudando de agremiação e pretendendo ingressar no PMDB da linha do Barbalho
AXIOMA Ainda sobre esse hábito governista de achar que ‘‘ninguém está vendo’’ o que acontece vale lembrar o conceito do crítico e filósofo Henri Louis Mencken sobre o que seria a ‘‘consciência’’: uma voz interior que nos alerta que alguém pode estar olhando...
GLOSA Cada dia aparece alguém de fora, agora há um da Austrália (Melbourne), para aprender algo sobre transporte coletivo de Curitiba. Ora, os nossos políticos há muito tempo aprendem com bichos australianos: são tão híbridos na idéia, e também no comportamento, como os ornitorrincos (têm pelo, bico, botam ovo e são mamíferos) e escondem as coisas sem serem marsupiais como os cangurus que contam com aquela bolsa.
EPIGRAMA O governo Lerner cada vez mais lembra um cadáver insepulto. Mas há quem aposte que o seu secretário de Comunicação Social, Rafael Greca, ainda o transformará na Fênix, aquela ave que renasce das cinzas.
LIBERDADE Melhoraram sensivelmente os padrões de liberdade de imprensa no Paraná num momento em que escasseavam recursos oficiais para a propaganda. Ligar uma coisa à outra é um teorema ou uma perversão? Outra explicação: o nível dos escândalos e da corrupção é de tal ordem que não há como suavizá-los ou escondê-los.
SPRAY Não há como traçar paralelos entre Richa e Lerner diante de casos de corrupção: ao saber que o secretário de Fazenda (Erasmo Garanhão) pagou juros indevidos em empréstimo internacional, fato denunciado por Belmiro Valverde (do Planejamento), o governador facilitou que ambos fizessem acareação ante o Legislativo e com cobertura direta do Canal 4. - Tomou decisão errada ao demitir os dois secretários, mas assumiu o ônus. - Lerner ‘‘promoveu’’ o autor dos desvios da Banestado Leasing a secretário de Esporte e Turismo. Faltaria agora designar um dos ‘‘arapongas’’ para secretário de Segurança. - Ninguém explicou aquele caso dos juros demasiados do governo Richa, ficando, porém, a suspeita de que se tratava de pagamento de dívidas de campanha. Tal qual se dá agora com essa onda de Londrina e Maringá, em que a presunção de dinheiro para fins eleitorais é o juízo dominante, o que vai acabar acontecendo com essa denúncia também contra o prefeito Cassio Taniguchi.
FOLCLORE O Big Brother e mais o Doutor Mabuse (com seus mil olhos) são fichinha perto dos 5 mil grampos deste governo Lerner.
CROMO A maré não invadiu a praia e sim o corsarismo imobiliário.
AFORÍSTICO O último a sair que apague a luz, se é que até lá ela já não estiver racionada. Só não há racionamento para a corrupção.

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