Luiz Geraldo Mazza
Numa eleição em São Paulo para a prefeitura. o hoje senador Eduardo Suplicy se afastou do processo, alegando que buscava reencontrar o seu eixo. Suplicy tem notórios problemas neurológicos (o que não acontece felizmente com o nosso governador), tanto que no exercício da irreverência Paulo Francis o chamava, com frequência, de Mogadom. Lerner não parece ter qualquer tipo de dificuldade a não ser a sua notória reticência no falar, o que não implica em bloqueio do raciocínio, pois, quando à vontade, chega a ser coloquial e brilhante. Mas é visível que, há muito tempo, o nosso governador (por nele ter votado uma vez para prefeito e duas para o governo estadual atribuo-me o direito de exigir um mínimo de rigor na sua atuação) perdeu o eixo do seu governo.
A impressão que se tem é a de que uma espécie de tédio mortal com os rituais da administração o domina. Sua descompressão é alcançada nas viagens, mesmo as locais e nacionais, mas principalmente nas internacionais, nas quais gastou praticamente um ano do seu tempo. Corre versão de que o cinturão sanitário do seu grupo evita fazer chegar aos seus ouvidos informações negativas, algo como um cochicho alertador não se preocupe, ninguém está vendo.
Perdido o eixo não pessoal e sim do governo, cria-se uma atmosfera jamais vista na história paranaense: nunca se viu um ocaso de uma gestão com essas características. Nem no final do primeiro e do segundo governos de Lupion, nem no de Ney Braga, o último, que poderia pela exaustão do regime militar entrar em pane e isso não aconteceu; muito menos nos da sequência de oposicionistas como os de Richa, Alvaro e Requião.
Há quem diga que Lerner não assumiu o primeiro quanto mais o segundo governo e seria chocante, e merecedor de figurar na literatura do absurdo, o fato de que estivesse saindo quando nem chegou a entrar. Como frase de efeito até que vale. Todavia na prática suas ações e omissões estão debulhando o Paraná como se fazia com o café na derriça. AXIOMA
Num governo que se revelou surpreso quando da passagem da CPI das Drogas (a federal, a quente) pelas denúncia de vínculos de setores policiais com o crime organizado, os supostos envolvidos poderiam argumentar, com a maior tranquilidade, que ninguém estava vendo
BIZARRICE Um assessor palaciano ligou ontem para a CBN-Curitiba insistindo na tese de que não há grampo e que o único até hoje provado é o do tempo do Requião. Nesse caso seria bob e não grampo. E a descoberta do equipamento na casa do ex-funcionário do Palácio Gilberto Gonçalves e na de Edgar Fontoura, chefe de segurança da Telepar, pela PIC, capaz de grampear 5 mil telefones como fica? A resposta é aquela: Ninguém está vendo. Apenas um lado está ouvindo.
GLOSA Ninguém estava vendo o que acontecia no Banestado, o que se dá na Copel e Sanepar, o que ocorre nos pedágios, nos Jogos da Safadeza, na trama de Londrina e Maringá. Ninguém viu também o MST acampado no Centro Cívico.
EPIGRAMA O Tribunal de Contas é órgão auxiliar do legislativo. O fato de ser tratado formalmente pela natureza de suas atribuições não lhe retira essa condição de apêndice. A troco de que uma CPI, como o Chab está propondo, para um órgão auxiliar? Poderia nessa linha de raciocínio fazer uma CPI para examinar a própria Assembléia. O caso do recuo da CPI da Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam poderia ser um exemplo significativo.
SPRAY O PT é quem comanda a CPI da Corrupção, mas em São Paulo impede que se instale uma para apurar a presença de empresas que financiaram a campanha de Marta Suplicy em contratos do setor de limpeza pública. - Também faz onda contra a venda da Copel, mas defende a privatização da Sercomtel em Londrina. Para eles em tudo há indulgências plenárias, podendo fazer o que condenam em seus adversários. - Agora o Luiz Carlos Hauly, do PSDB, está denunciando a mesma coisa em Londrina nos contratos do lixo e superfaturamento, síndrome já detectada, anos passados, em Curitiba. - Um dos fundadores da Universidade de Ponta Grossa, o dentista Manoel Lobo da Silva Brasil lança um livro de contos Nem te conto, no dia 23, na sede da Associação Brasileira de Odontologia, seção daquela cidade na comemoração também dos seus 90 anos. Ele é o número 001 da ABO de Ponta Grossa. - Mais uma típica de um governo que generaliza o desrespeito: denunciada na Penitenciária a existência de um sistema de proteção dos presos. Os que não pagam podem ser apagados, como tem ocorrido. - Detalhe importante: Gilberto Gonçalves, enrolado nos grampos, trabalhou para o PMDB, tal qual o cabo Jordão. De repente vão dizer que era a turma da oposição que fazia a escuta. No governo do ninguém está vendo tudo pode acontecer.
FOLCLORE Todo o mundo já tinha esquecido do tribunal que julgou o latifúndio. Que não tinha obtido qualquer repercussão na imprensa nacional, que aliás lhe deu o tratamento devido ao assunto demagógico e fascistóide. Aí o governador Jaime Lerner aparece ontem com um artigo na Folha de S.Paulo voltando ao tema. Agora vai chover bronca na seção de cartas e réplicas e tréplicas. A inteligência por aqui está em férias. Um artilheiro do gol contra.
CROMO Um beijo de língua depois de morder piqui é arte para faquir.
AFORÍSTICO O superfaturamento pode render trocadilho na superfartura.





