Luiz Geraldo Mazza
Dá para imaginar o quanto se parecem os justiçamentos revolucionários de Cuba e do regime do terror no andamento da Revolução Francesa com esse clima que há hoje no Brasil. A despeito do fundamento na indignação diante da impunidade, regra neste País ao ponto de a Justiça raramente se mostrar capaz de um agir melhor do que o tribunal político dos impeachments e das CPIs, há o risco de a histeria tomar conta de tudo.
Quando dos acontecimentos de 1954, lembro claramente, apesar do messianismo que protegia Getúlio Vargas, armou-se um clima em que já não havia lugar para a defesa porque ficara visível, com provas materiais, que o atentado ao jornalista Carlos Lacerda e que acabou matando o major Rubens Vaz havia sido bolado no interior do Palácio do Catete pela guarda pessoal presidencial. Foi, então, que se instalou no País a República do Galeão com o pessoal da Aeronáutica fazendo o papel de Inquisição. Getúlio não teve alternativa e derrotou os fundamentos da conspiração que pretendia derrubá-lo com o seu martírio pessoal.
O curioso é que na véspera do suicídio o sentimento dominante era de punição ao próprio presidente e após a tragédia, como se tomada por um sentimento de culpa e em busca de purgação, o povo desandou na rua a apedrejar, incendiar tudo o que pode caracterizar reais e imaginários conspiradores. A Tribuna de Imprensa, agora fechada por decisão judicial, foi depredada, o que se daria, em vários pontos do País, também com a embaixada norte-americana ou consulados e ainda instituições culturais daquele país. Um mega quebra-quebra atingindo empresas internacionais atingidas, direta e indiretamente, pelos candentes tons de denúncia da Carta Testamento.
Quando das listas de cassações de 1964 havia um frisson a cada uma das publicações. Fuzilamentos alegóricos, heróis supostos como depois viriam as vítimas (e estas em tal número que, se verdadeiro, superaria o das forças regulares de apoio aos golpistas), apelos angustiados para que outros fossem cassados. No plano humano situações incríveis como a de um dirigente de CGI, Comissão Geral de Investigações, um general, Estevão Taurino de Rezende, levado a listar o próprio filho ou aquela do escritor Nelson Rodrigues, reacionário e um dos fundamentadores do radicalismo à direita, sendo obrigado a intervir em favor do filho, então transformado em guerrilheiro da esquerda.
Se viesse agora a CPI da Corrupção, que, por seu objetivo difuso, fere toda e qualquer regra elementar do direito, teríamos um clima de horror ao lado dessa ocorrência sombria na manipulação do painel do Senado. Aqui também o pedido de impeachment contra Lerner pode dar resultados diversos dos esperados, pois nada melhor do que o sistema apodrecer na sequência de questões como a da prisão de Belinati, de providências semelhantes que viriam de Maringá, o caso dos grampos (se não colocado no campo do ficcional e do absurdo) e ainda a venda da Copel. Essas coisas desagregam e a medida radical do impeachment acaba justamente fortalecendo o governo pela condição de vítima.
São reflexões que convidam à tolerância e à cautela, mas boa parte da plebe quer sangue, prisões e condenados. Se for aconselhado a um deles, um tanto quanto intelectualizado, dirá certamente que é a favor da serenidade, mas que a serenidade extrema, agudíssima, é a morte. Mais lenha na fogueira, portanto.
CARNAVAL Houve um tempo em Paranaguá em que predominavam os ranchos, raiz das atuais e desfiguradas escolas de samba. O culto ao boi (Boi- de-Mamão, aqui no Sul, Boi-Bumbá em outros pontos do País) estava presente em dois deles: o do Norte e o do Sul. Cada rancho tinha sua música apropriada e normalmente eram reprodutores de outros autos populares como os do pau-de- fita (dançarinos vão tecendo um adorno e que depois desfazem à maneira da mítica Penélope, a que espera Ulysses de Ítaca) e dos balainhos.
Hoje mesmo o fandango perde até no distanciamento das ilhas com a entrada das religiões pentecostais que levam uma noção radical de pecado e que estaria no simples atos de dançar aos coitados dos ilhéus. Seria interessante como choque cultural esse puritanismo tentar coibir a dança no candomblé.
ADORNO Em nossos tempos de radicalismo político achávamos que o adorno era uma pura e simples alienação. Não víamos as conotações religiosas, iconográficas e culturais como se o mundo do homem, por uma visão visceral da subsistência, a isso se limitasse. Num dia ficamos a discutir uma foto de primeira página dos jornais brasileiros que mostrava a mãe etíope, os seios murchos a amamentar o bebê quase morto e que era uma representação da Madona da fome. Achávamos um absurdo que em tal clima de miséria houvesse no braço da mãe uma pulseria de pano. O radicalismo tenta impor padrões. O Raoni, festejado pelas esquerdas antropológicas, estaria mal com aquele aparato do tamanho de um pires em sua boca diante de nossa axiologia primária, tanto quanto a outra que opunha o trabalhador braçal ao intelectual.
RUBY A maneira como as pessoas cercaram o ex-prefeito, cassado, Antonio Belinati na hora de sua prisão é de alto risco sob o ponto de vista institucional. Havia um policial com arma na mão. Poderia haver também um infiltrado, tal qual se deu na morte do suposto assassino de John Kennedy, Lee Oswald, abatido por um colaborador da polícia e ligado ao baixo mundo, Jack Ruby. Aqui em Curitiba, no processo de Vera Crovador houve uma situação inusitada: Mandelli, acusado como chefe de desmanches, a inquiriu em delegacia policial como se delegado fosse. O antecedente americano apenas reforça a simbiose que se estabelece na polícia como decorrência fatal de um convívio que às vezes mais aproxima que afasta.





