Luiz Geraldo Mazza
Há quem ache que as tonalidades religiosas do ex-prefeito Antonio Belinati vão levá-lo a buscar na revelação da verdade a sua catarse pessoal como a coletiva foi de ontem, em Londrina, na hora da prisão, diante desse sentimento exasperado que toma conta das pessoas e está presente em tudo: das apurações dos grampos por aqui ou da fraude no painel eletrônico do Senado. Há um clima, um background agudíssimo, a exigir a condenação dos políticos de todos os quadrantes nacionais e isso foi fatal para a segunda maior liderança do PFL no Paraná, aliás abandonada, isolada, pelo mau-caratismo congênito dessa gente.
Tal clima favorece qualquer tipo de oposição. Tanto que o senador Requião já está, bem no seu estilo, dando dez dias para que Lerner limpe as gavetas, já que o PMDB, veterano de guerra (e de derrotas, pelo menos por aqui), pedirá o seu impeachment.
Prensado pela história dos grampos, na qual foi obrigado a mudar de tática ao admitir uma comissão para apurar o evento quando já existe uma do Legislativo em pleno funcionamento, e agora pela prisão de Belinati e de outras pessoas envolvidas, minado pela falta de credibilidade de um governo desastrado, incompetente e corrupto, Lerner e seus secretários se recusam a dar qualquer testemunho sobre o aliado preso e que desprezaram. Há mais do que suspeitas de que o sistema inteiro se envolve, direta ou indiretamente, nos feitos de Londrina e especificamente na venda das ações da Sercomtel para a Copel que o governo botou todo o seu peso para reverter a CPI instalada.
As patologias das contas fantasmas no Banestado, a mediação do doleiro Youssef, a chegada da força-tarefa que decidiria o segundo turno do pleito municipal tudo isso lembra peças de um quebra-cabeças. Se uma vigilância cívica do padrão da havida em Londrina e Maringá ocorresse no centro do poder na capital, dificilmente o Palácio Iguaçu escaparia do constrangimento intolerável das massas ululando nas ruas e carregando cartazes Agora é a vez de Lerner!.
Só que como tudo que aqui ocorre os áulicos mostrariam ao governador, e ele se convenceria, que se tratava de manifestação por sua candidatura presidencial. O filtro palaciano é assim e justifica a entronização dos puxa-sacos que afinal ajudam pelo menos a manter aceso o ego da autoridade de plantão, evitando o seu mergulho no abismo da depressão.
BIZARRICE
Chantagem com objetivo generoso e santo é santagem. É o que não falta neste preciso instante aqui no Paraná
AXIOMA Depois do caso Belinati, Lerner defende o Guelmann? A pergunta é do Rubinho Ferreira, um artesão da intriga, enquanto come ostras em Guaratuba. E ele esclarece como quem sugere um destino ruim aos políticos malsucedidos: E ostracismo não é bem isso aqui no ato de deglutir ostras e sim raspar o couro com elas.
GLOSA Requião tenta sugerir que perdeu a eleição para o governo, entre outras coisas, por causa dos grampos, esquecendo que a sua também, diante do Zé Carlos Martinez, o Batatinha, é atribuída à farsa Ferreirinha. A propósito, o Ananias, o delegado calça-curta que contratou o Afrânio para encenar o falso pistoleiro, anda na praça e sugere que os esqueletos daquele pleito vão aflorar o ano que vem. O choque do passado no Paraná é uma constante.
EPIGRAMA Há coincidências que perturbam pra valer: depois desses feitos do Paraná, só faltaria ao governador ir viajar num vôo internacional e ter como companheiro de poltrona o jornalista Cândido Gomes Chagas, aquele que ele próprio, Lerner, chama carinhosamente de meu inimigo de estimação.
SPRAY Com a prisão de Belinati, do ex-presidente da Sercomtel Rubens Pavan, do ex-secretário Wilson Mandelli, e o pedido de preventiva para outras quatro pessoas envolvidas nos escândalos de Londrina, aguçou-se a ânsia de parlamentares em tirar o máximo proveito da história dos grampos em telefones, posto que a convicção desse pessoal seja extremamente móvel. - Dentre os envolvidos há um cuja família se ligou em esquemas de captação da extinta Sudam. Como se vê, aos poucos, o Paraná perde a timidez. E se torna mais aberto, pois essas coisas dificilmente viriam a público alguns anos passados. - No meio palaciano há um grupo que não dá a mínima para o que está acontecendo sob o fundamento de que ninguém está vendo. - O pedido de impeachment, que o PMDB pretende fazer, já precedido daquele proposto pelo jornalista Luis Fernando Fedeger, só pode emplacar se houver mudado profundamente a correlação de forças. Quando Requião era governador, a Associação dos Magistrados entrou com pedido igual e que não pegou porque tal processo é político e depende de maioria parlamentar. - Argumenta-se que tal pedido cria desgaste político e obriga o Legislativo a tomar posição. Para que forças externas (o rumor da opinião pública) possam influir é indispensável um clima como esse do Senado ou ainda aquele outro da queda de Fernando Collor e dos anões do Orçamento.
FOLCLORE Um palaciano viu a chuva de ontem como um bom augúrio para Jaime Lerner. Só que ela não era de água benta como a situação exigiria.
CROMO O enlevo com a bolha de sabão multicolorida, a descoberta nos prismas do caleidoscópio da ordem mutante esse o mistério da primeira infância. Já na segunda o senso da morte no cão de estima que expirou e parece de cera e também a inquietação para saber o significado do búrico ladrão no jogo de gude e que absorvia as bolinhas jogadeiras e as calejadas.
AFORÍSTICO Por que voto secreto? Simples. Sem ele a OEA não votaria a exclusão dos Esteites na comissão de Direitos Humanos. É a forra do subdesenvolvido.





