Se o senador Antonio Carlos Magalhães, depois da acareação de ontem, levar a pior, já se sabe como a esmagadora maioria do povo baiano reagirá, dizendo que quem está sendo cassada é a Bahia. Analogicamente, isso jamais se daria com Jaime Lerner, posto que tivesse assumido o governo como a pessoa de maior potencial, pelo menos nos tempos recentes, para ser uma figura nacional.
Abstraindo a questão concreta do fato de que deva ou não ser cassado junto com seu colega José Roberto Arruda, a verdade é que Antonio Carlos é quase uma unanimidade naquela província nordestina. Pouco importa que expresse o nosso coronelismo e a postura de um patriarca feudal, mas jamais se daria aqui com nossos personagens algo semelhante.
Percorre-se toda a Bahia e nela há uma onipresença de ACM, algo que em escala menor Lerner já deteve restritamente a Curitiba. O que mais se aproximou dessa comparação foi Ney Braga, a quem o Paraná deve o deslanche de sua atualidade, no que concerne à infra-estrutura econômica e social, mais aquela do que essa.
Um motivo a mais para lamentar a nossa fraqueza e o desprestígio com que somos tratados nacionalmente e, sobretudo, a prodigalidade com que jogamos fora como lixo o mais expressivo dos potenciais (o caso de Lerner, tanto em relação a ele próprio como aos recursos que dissipou) transformando-nos numa periferia do poder nacional em que pese a nossa participação no bolo nacional.
Ninguém diria que o Paraná foi cassado se um dos nossos senadores, deputados e o próprio governador, episodicamente o mais vulnerável de todos, dançassem – e essa é a medida dos nossos níveis de agregação. Todos eles nomes possíveis para disputar o governo e que sofrem dessa carência fatal.
BIZARRICE
Nessa história dos grampos o Gerson que pode dominar o interesse de alguns deputados é aquele outro do cigarro Vila Rica e que dá vantagem
AXIOMA ‘‘Aguarda-se a publicação do acórdão condenatório para o competente recurso à Corte Internacional de Haia.’’ Do ex-juiz e anarquista militante Elísio Marques sobre o tribunal que julgou o latifúndio.
GLOSA No Paraná, em lugar de acareação entre os nossos políticos deveria haver uma ‘‘acarecação’’ porque tem mais gente com implante de cabelo do que de ponte de safena.
EPIGRAMA Um oficial PM de Sergipe vir dar lições em matéria fundiária aos paranaenses é a maior prova do nível a que descemos e do despropósito das encenações havidas. Debite-se esse desprestígio do Paraná ao governo Lerner, desrespeitado e olhado com desdém, mesmo quando detém uma proposta séria.
SEMÂNTICA Ninguém pode negar que é difícil alguém falar com mais propriedade sobre a questão da terra do que um latifundiário.
EROTIZAÇÃO Com a erotização até das crianças pelas Carla Perez da vida e as congêneres a obsessão do público passa a ser o latibúndio.
SCAPS Não dá para aguentar ouvir senadores chamando Dona Regina Borges, aquela do Prodasem, de ‘‘Vossa Excelência’’. Do Vossa Excelência se chega facilmente ao tratamento vós, o que é errado. mas dito, frequentemente, com solenidade.
SPRAY O clima está de tal forma emocional, seja na acareação do Senado ou na apuração dos ‘‘grampos’’, que ninguém está disposto a dar colher de chá aos acusados, mesmo que as provas sejam precárias. - Ontem, por exemplo, um setor da esquerda recebeu a proposta da comissão do governo como um simulacro daquela criada para explicar os incidentes do Riocentro no regime militar, dirigida pelo coronel Job que para ouvi-lo era necessário uma paciência do Jó bíblico. - Com as andanças do cabo Jordão procurando o senador Requião (em sua gestão ele mandava envelopes apócrifos a adversários reais ou imaginários e os atribuía a outros com quem estava conflitado) dá para esperar pelo pior para o governo Lerner que já havia tentado atingir na CPI dos Precatórios e acabou não conseguindo, embora houvesse material como os fatos o demonstraram na sequência. - Uma subsecretaria da Casa Civil (a de Assuntos Especiais) se valia de ‘‘diárias frias’’, como ficou demonstrado em processos, para alimentar o envio desse tipo de correspondência até com o uso de militares, como se viu. - Isso foi debilmente denunciado porque a oposição era numericamente fraca e na transição para o governo Mario Pereira é que o assunto começou a andar. - Dá para prever a catadupa de denúncias que virá contra Lerner se a oposição ganhar a parada em 2002, mesmo que haja acordo branco, por exemplo, com o senador Alvaro Dias que não resiste a uma exposição na mídia para exercícios moralistas como fez com o aliado Richa.
FOLCLORE O hoje auditor do Tribunal de Contas Caio Soares tem um pique imediato para tiradas de humor. Ligadíssimo a Jaime Lerner, ele foi estimulado a disputar uma vaga na Câmara Municipal. Todo o primeiro time lerneriano o apoiou de forma notória. Mesmo com a mobilização (já que a chapa do PDT exigia muito fôlego numérico para emplacar) Caio ‘‘dançou’’, ficando como terceiro ou quarto suplente da bancada. Pouco depois do pleito, preocupado com sua saúde, ele foi ver o resultado de um exame de triglicerídios e espantou-se com a taxa acumulada mas logo transformou o susto: ‘‘Se eu tivesse tantos votos como glicerídios já estaria na Câmara!’’
CROMO Esse verde-esmeralda dos teus olhos seria de uma lente de contato?
AFORÍSTICO Fórmula 1, golfe, hipódromo e CPI só dá pra aguentar com edição.

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