Luiz Geraldo Mazza
No front político não se aprendeu ainda a respeitar aquela regra fundamental de que há o outro nesse processo. Isso aconteceu com essa farsa que foi o tal tribunal que julgou ontem o latifúndio e os crimes dos governos que com ele se identificam que nada tem de verdadeiro em relação a Lerner. Os maiores crimes fundiários aconteceram antes e no fim dos anos 50 no Oeste-Sudoeste, quando tivemos algo mais significativo e de maior corpo do que os feitos dos sem-terra na rebelião dos colonos. Ainda recentemente, num governo bastante aproximado a causas sociais, o de Requião, houve a prisão, tortura, execração e morte do líder Teixeirinha em Campo Bonito. E ao lado de tudo isso, durante todo o tempo, do Império para cá, a ação da grilagem quase sempre protegida pelos governos e subestimada pelo Senado, a quem cabia por exemplo anular alguns concedidos por Lupion e não o fez.
A OAB, que nem sempre atua como devia na preservação dos direitos, agiu bem ao condenar esse aparato teatral que só terá uma consequência das mais funestas: a de santificar o MST a pretexto de combater a sua criminalização que também não é aceitável, desde que o nosso maior movimento social respeite a lei. E não venham com a sacanagem de falar em lei burguesa que afinal é a que temos, escorada na matriz da Constituição Cidadã do Doutor Ulysses.
O totalitarismo está em todos os campos e idéias. Fazer um julgamento como esse do governo Lerner (merecedor de sanções por sua desídia, preguiça, falta de determinação, acobertador de corrupção, tolerante com as vinculações do crime com setores institucionais), o de que seria um paradigma negativo ante a questão da terra seria de uma desonestidade sem tamanho. Paga exatamente por ter sido tolerante ao extremo no festival de invasões que o MST promovia no Noroeste. Tanto que poderia inclusive ter apanhado a UDR em flagrante num episódio de retomada de área invadida, mandando simplesmente divulgar o rosto dos integrantes que posaram de heróis para a TV e agiram como os primários militantes de uma Ku-Klux-Klan de pés-vermelhos.
A Justiça poderia tê-lo enquadrado por desobediência com as centenas de ordens de imissão de posse não cumpridas. No episódio da Fazenda Borborema, filmado, os sem-terra aparecem torturando pessoas e matando o Django, não importando saber se era ou não truculento. Não temos pena de morte e ao que se saiba o MST não tem delegação para julgar e executar.
Quando o governo agiu, o processo cumulativo das invasões passou a exigir uma firmeza até então não adotada. Ainda, porém, confiando na frouxidão do governo os sem-terra cometeram o erro de montar o circo no Centro Cívico, embora claro que isso não favorecia, nem tática ou estrategicamente, a causa. Ibopes mostraram o apoio esmagador da população contra a irresponsabilidade do MST, logo após o despejo, cuja queda de credibilidade junto à opinião pública é notória e que se busca recuperar com o tribunal de exceção.
PATRULHAS
Em tudo é preciso haver noção de tolerância. O denuncismo, por exemplo, tem um lado bom e outro perverso. Temos um crime irremissível em nossa profissão: o caso da Escola de Base em São Paulo, com a mídia destruindo pessoas de forma irremediável. Temos aqui a paranóia armada contra Moysés Lupion desmoralizada na Justiça. Recentemente, o linchamento do Alceni Guerra e depois o de Ibsen Pinheiro, contra quem nada se apurou, deveriam servir de referência obrigatória. É o modus in rebus, de Horácio, o aconselhamento de moderação nas coisas. A um histérico que baba é inútil alertar
MANIQUEÍSMO Aqueles que se julgam ungidos pela verdade (e assim foram tanto à esquerda com o socialismo real ou à direita com as brigadas de Mussolini, as falanges do franquismo e do salazarismo) eliminam o adversário seja no plano das idéias, no diálogo, ou no físico. É o caso desse tribunal e também o dos intelectuais que não admitem que artistas baianos apóiem ACM como Caetano Veloso, Gal Costa e uma escritora de esquerda, Zélia Gattai.
Há um enlouquecimento das pessoas em função desse clima de linchamento que se está criando. É claro que a impunidade tradicional é um dos vetores desse quadro psicossocial doentio. O fato de ACM, Jader Barbalho e Arruda merecerem a cassação não exclui o direito de aqueles que são solidários a esses políticos se pronunciarem.
O patrulheirismo é assim: sabe-se como começa, jamais como termina. De repente aquilo que os milicos fizeram em nome da depuração estará sendo imitado pelo lado que se julga o seu oposto. A Inquisição julgava e punia em nome de Deus. Apesar da passagem do tempo até os militantes da defesa dos direitos humanos em ONGs as mais diversas embarcam em engajamento parecido.
REVERSÃO No momento em que donos de jornais se reuniam em seu sindicato, sob a presidência de Abdo Aref Kudri, para tomar posição em torno dos grampos, o governador Jaime Lerner, num esforço de reversão desse processo, criava uma comissão para apurar o caso de todas as escutas telefônicas, e Gerson Guelmann, apontado como um dos autores, teria aberto seu sigilo telefônico, bancário e fiscal. Houve uma especulação de que o importante auxiliar de Lerner, seu chefe de Estado Maior em eleições, teria pedido a sua demissão, o que teria sido negado pelo governador.
De qualquer forma, é sinal de reversão, desde que a continuidade da CPI não crie novos embaraços e que a firmeza dos parlamentares não seja abalada por novas barganhas como se deu no episódio vergonhoso das ações da Sercomtel.





