Luiz Geraldo Mazza
Da mesma forma que o break é uma estilização de lutas de gangues dos bairros negros nos States e as cavalhadas, auto popular, alegorizam cenas das lutas entre mouros e cristãos, o 1º de Maio, de origem revolucionária e também de martírio em Chicago, é hoje uma celebração caricata, onde os algozes da classe trabalhadora posam de boa gente. O pai dos obreiros no Brasil, durante muito tempo, foi Getúlio Vargas, um ditador (o estadista vai surgir na eleição de 1950, bem depois do exílio voluntário em São Borja) que se valia da festa, como tantos outros em ordens tidas como revolucionárias para sugerir que seus compromissos com o proletariado eram permanentes, eternos.
Ninguém consagrou tanto a figura dos pelegos que falavam em nome dos sindicalistas, inaugurando um processo que até hoje permeia a vida dessas instituições no Brasil, em que a evolução havida, a partir das resistências do ABCD paulista, hoje apenas um retrato sépia na parede, não impediram que essas deformações se acentuassem. Agora há ainda um complicador mais grave: o quadro internacional, cósmico, da precarização do trabalho como fator de produção e que transformou o aparato sindical laborista numa quase inocuidade.
Hoje, portanto, não é dia de lembrar dos que morreram brigando pela redução da jornada de trabalho para oito horas, mas sim de participar de churrascadas interativas, ora oferecidas pelo patronato, ora pelo governo ou até mesmo pelos sindicatos trabalhistas animadas por peladas entre casados e solteiros e gordos e magros. É dia, também, de mexer em utopias como essa do Dieese para lembrar, nos 61 anos do salário mínimo, que este deveria valer hoje R$ 1.066, o que é de um delírio sem tamanho.
Ora, os valores constantes da cesta criada por Getúlio Vargas se dirigiam ao trabalhador urbano num tempo em que mais de 70% da população economicamente ativa estavam no campo e não na cidade, para quem se dirigiria o salário mínimo. O Brasil de lá para cada inverteu a pirâmide e esse valor referido, pouco mais de R$ 1.000, é, às vezes, o referencial de ganhos em salário profissional de gente de nível superior como trabalhadores tidos como liberais.
Discursos do gênero apenas servem para anestesiar, ainda que tenham o objetivo de, comparativamente, revelar o absurdo do mínimo, em torno do qual já houve até rebelião militar neste País quando ocupava o posto o herdeiro de Vargas no Ministério do Trabalho, João Goulart. Um salário mínimo desmesurado acabaria com o setor público, já que há prefeituras com extrema dificuldade de cumprir a regra com seus funcionários. A recuperação do salário mínimo é importante para a economia, desde que não a detone ou esgarce e o quadro atual é revelador da extrema dificuldade de chegar ao pleno emprego e sempre com a ajuda da economia alternativa, subterrânea.
A origem revolucionária do 1º de Maio tem que ser recuperada. E na globalização remeter a classe trabalhadora para posturas internacionais de resistência e luta. É alternativa semelhante aquela de Sartre, a de que estamos condenados à liberdade até por não haver outra opção.
AXIOMA
Lerner é o Ferreirinha da era tecnológica! Essa é do Toni Garcia
BIZARRICE Seria o tribunal que julga os crimes fundiários um caminho para a resistência dos trabalhadores em seu dia? Nesse tribunal o réu (no caso o governo palerma, responsável pelo excesso de ocupações, quase facilitadas, do noroeste) já está julgado. Pergunta-se: o latifúndio sofre com o julgamento? Tanto quanto o presidente norte-americano numa decisão que o condene em agito estudantil. O que afeta o latifúndio é a mudança do processo econômico e político e nisso poucos estão interessados. Embora legítima e necessária a pressão do MST, até para mexer com o que há de fossilizado em nossas instituições, ela se funda num arcaísmo, a utopia regressiva do agrarismo, devidamente anatematizada no Manifesto Comunista de Marx e Engels.
GLOSA O Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, quando a ditadura agonizava na Argentina, deu apoio à aventura do Mussolini platino, Galtieri, nas Malvinas. Se Hobbsbaw fosse seguido por esse pessoal, liberal e à esquerda, jamais entrariam em deformações patrioteiras e nacionalistas.
EPIGRAMA Lerner é o Ferreirinha da era tecnológica, da terceira onda, como sugere o intelectual Tony Garcia, ou o Ferreirinha pós-moderno?
REFLEXÃO Curitiba não está com a bola cheia na Globo: no Fantástico houve matérias sobre câmeras de TV na rua e rodízio de funerárias e não se falou no caso paranaense. De repente começa a murchar a auto-estima sustentada, há tanto tempo, pelo marketing massivo e opressor.
QUEIXA Quando do julgamento do José Rainha pelo Tribunal do Júri, o MST dizia que era um conselho com sentença prévia. E era. É o que Jaime Lerner está dizendo deste júri, o que vai fazer o julgamento dos crimes fundiários.
FOLCLORE Com distúrbios sexuais, o cidadão foi ao especialista e contou que na primeira relação sentia um calor intolerável e na segunda quase entrava em hipotermia, tal o frio que o invadia. O médico tentou saber mais coisas e perguntou a frequência daquelas relações. O paciente respondeu: uma no verão e outra na fase mais aguda do inverno.
CROMO Extraterreste é um senhor gordo, dotado de muita imaginação e que habita, há muito tempo, entre nós, curitibanos.
AFORÍSTICO O pobre teve quadrigêmeos. Com pobre é assim: a felicidade vem sempre sob a forma do exagero. Se o avisam de que precisa ver as cataratas é porque vai ao oculista, se lhe oferecem copo de leite é apenas aquela flor.





