A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), recentemente instalada no Legislativo, era para analisar a barbárie em que foi transformado o sistema Telepar que nos tempos de estatal era modelar em todo o País. Foi tolerada exatamente porque seu objetivo estava circunscrito a tomar posição sobre o caos em que o sistema acabou se desfigurando. Bronca de usuário, dentre eles o vereador Fábio Camargo, que teme agora que com o destaque aos grampos se perca o sentido inicial que gerou a instituição parlamentar.
Ocorre que de repente o acessório se transmuda em principal com a descoberta dos grampos, já denunciados, dois anos passados, pela secretária Maria Elisa Paciornick e que tinha ‘‘trombadas’’ com a área econômica, esta empenhada, ainda que tardiamente, em fazer o chamado ajuste fiscal, já que ninguém foi tão irresponsável na prodigalidade como o próprio governo. Basta lembrar que em propaganda, o governo ‘‘queimou’’, em menos de cinco anos, quase R$ 500 milhões, o que poderia ser melhor aplicado no Fundo de Previdência sem a necessidade de vender a Copel, ainda mais se evitasse os rombos da pirataria havida no Banestado e que passam de R$ 1 bilhão.
O grampo, numa certa medida, é mais relevante do que o caso da quebra do sigilo do painel eletrônico do Senado porque ameaça a todos diretamente, uma vez que esses setores de ‘‘inteligência’’ e repressão em todos os tempos jamais conservaram qualquer noção de limite. E o que se está descobrindo no Paraná, neste momento, é mais grave do que muitas das distorções acumuladas pelo regime militar. Como é que num sistema, tido como democrático de direito, age-se dessa forma?
Vamos analisar as broncas de usuários contra a Telepar, aliás degradada já um pouquinho antes da privatização, quando partiu para essa transferência de responsabilidade que é a ‘‘terceirização’’ a outrance, mal hoje comum ao setor público e ao privado com efeitos intoleráveis. Antes, porém, dessa análise, vamos esgotar os esclarecimentos sobre a vergonheira da escuta telefônica, que se torna tanto mais grave se exercida, como tudo indica, pelo poder público.
DEMOCRACIA Anteontem vivemos na Assembléia Legislativa um raro momento de democracia: o depoimento do cabo PM Luis Antonio Jordão na CPI do Telefone, pela presença da mídia eletrônica especialmente, alguns transmitindo de forma direta, lembrou aqueles dois depoimentos dos secretários Belmiro Valverde e Erasmo Garanhão no governo Richa. Havia uma vantagem para o caso anterior porque o Canal 4 transmitiu tudo diretamente. Algo à altura e ao estilo do governo mais democrático que tivemos depois dos anos de chumbo.
A diferença agora é que se tem a impressão de um governo sem um mínimo de credibilidade popular, acuado, como se ele como um todo fosse um réu. No caso Richa, o governo crescia com a análise até pelo fato de envolver os dois mais importantes secretários. Hoje não: a coisa mexe com a retaguarda e um setor que perde a noção dos limites até porque sua rotina é a ilegalidade.
Se os deputados jogaram o governo na parede em recentes ameaças de rebelião dá para imaginar o que aqueles mesmos da base aliada farão agora. Para quem está na oposição é um prato cheio. Mas dá a idéia perfeita da insânia que seria o funcionamento da CPI Federal da Corrupção que imobilizaria o País mais do que o governo e ficaríamos sob um comício permanente, tal qual se deu em 1964 e também em 54, quando a República do Galeão levou à tragédia de Vargas. O PT, o mais agudo interessado, não permite a CPI do Lixo em São Paulo porque se acredita ‘‘ungido’’, o que pode denunciar, nunca ser denunciado, como fazia a UDN moralisteira do passado.
De qualquer jeito, é melhor a CPI do que os bloqueios como o feito em cima da derrama de dinheiro para a emenda da reeleição.
TC ENDURECE Já que o Tribunal de Contas acabou multando o ex-presidente da Copel, o Cascaes, era indispensável que os diretores e conselheiros que andaram fazendo acertos de contas de milhões com empreiteiras recentemente se ligassem na possibilidade de serem chamados à ordem. Com um detalhe: mesmo que a Copel seja privatizada as suas responsabilidades persistem como agentes públicos.
Se as contas de Requião ainda não foram discutidas pela Assembléia se tem uma idéia de como são lentos os procedimentos.
BÓRIS Normalmente subestimavam o José Milani, presidente da Federação Paranaense de Futebol, pela aparência rústica do seu falar, em mesas-redondas. Certa ocasião, o radialista Boris Musialowski, num desses encontros na tevê, começou a prensar o Milani e esse, dando uma de bobo, respondia, chamando-o de Boris Karlof, ator famoso de filmes de terror.
CÓDIGO Diz-se por aí que, instalada a paranóia da escuta telefônica, já se fala, usando códigos, especialmente quando a ligação é com o Palácio. Menos complexa do que um ‘‘misturador de vozes’’, se for adotada também por todos os secretários, estaremos diante de um caso concreto de reprodução bíblica do Velho Testamento na Torre de Babel. Dizem, aliás, que a Torre de Babel deste governo é o ‘‘Chapéu Pensador’’.
WATERGATE Hegel sugeria que a história se repete e Marx o corrigiu com a famosa observação de que ela se dá como tragédia e se repete como farsa, tal qual coloca na abertura dos 18 Brumário. A escuta clandestina de telefones do governo paranaense pode constituir-se numa caricatura do Watergate ianque, se ficar demonstrado que os grampos funcionaram também em campanha eleitoral. Dá para imaginar o ar de vítimas que assumirão os senadores que Lerner derrotou.

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