Luiz Geraldo Mazza
A indústria da fofoca é que vai ganhar muito com esse informe de que houve grampo na conversa de jornalistas, políticos e proprietários de meios de comunicação de Curitiba, cujas fitas estariam em poder do deputado Tony Garcia enviada por anônimos. O parlamentar, acertadamente, vai encaminhar o material para perícia na Unicamp para ver se não há edição, montagem etc.
Como é ilegal tanto a escuta quanto a divulgação do seu conteúdo, a atmosfera vai ficar como Curitiba gosta: aberta à especulação, à fofoca e daí à calúnia e tudo o mais. Não se tem ainda comprovação de que essa fita cassete tenha sua origem nos grampos do Palácio Iguaçu, o que, no entanto, é reforçado pela escassa credibilidade do governo e até presumido em função das denúncias dos que operavam na escuta.
Curitiba tem fama de inconfidente, de saber de tudo, principalmente o que se dá no perímetro de sua sociedade cartorial. Lupion chegou a fazer referência num discurso ao fato de que não poderia dar ouvidos ao que se regougava na hoje Boca Maldita. Já o estadista Parigot de Souza, minado pelo câncer, era vítima de uma especulação: a de que não estava sequer assinando decretos.
Foi o que bastou para que a assessoria de Parigot, constrangida pelo boato, o aconselhasse ao sacrifício de aparecer pessoalmente na Avenida Luis Xavier, o que aconteceu e que deu uma idéia ao público, pelo aspecto físico do governador, da severidade da moléstia que o consumia. Ney Braga teve a sua cirurgia de ponte de safena transformada no absurdo de que fora alvejado por um militar ao ser flagrado com a esposa do outro.
Se há razões de ordem política para o amplo esclarecimento de tudo existem, pois, as de natureza psicossocial que de repente se transformam no único e efetivo efeito das descobertas. Ney Braga nem com a camisa aberta exibindo o sinal da cirurgia escapava da incredulidade e ceticismo daquele desconfiado que admitia só aceitar a tese do implante de safena se visse o ex-ministro e ex-governador com sunga ou, até mais exigentemente, de fio dental, já que a versão que percorreu o País sugeria que fora atingido nas nádegas. Se alguém sério como Ney Braga foi alvo dessa perfídia, imaginem o que se dará com o pessoal desse time de terceira divisão que está em campo.
AXIOMA
Se podridão é adubo, dá a impressão que o Paraná deslancha em 2003 num clima de fartura jamais imaginado. Para o governista desatento, a observação se refere ao ICMS represado que virá das montadoras
BIZARRICE Dois diretores da Telepar teriam uma empresa (Defense) especialista em instalação e varreduras de grampos, segundo os primeiros depoimentos da CPI estadual dos telefones. Como se vê o modelo ético de ser governo e privado ao mesmo tempo se reproduz em todos os cantos. Vide a área cultural na capital e os esquemas da propaganda e eventos estaduais.
GLOSA O senador Alvaro Dias sugere que houve grampo na eleição que perdeu para Lerner, afirmando que mal havia gravado um programa para a tevê e os seus adversários já sabiam de tudo. E agentes duplos não poderiam fazê-lo?
EPIGRAMA Já que apesar de toda a vigilância da sociedade em cima do governo, que degrada a olhos vistos, o pessoal dos Jogos da Safadeza está marcando assembléia para o dia 8.
SPRAY O coronel Vieira, da Casa Militar, não foi depor por não ter sido avisado e só o fará em sessão secreta com garantia de que não haja grampo no recinto. - Um cabo da PM pode, como está se verificando, incomodar bem mais do que um cabo telefônico. Uma das coisas que surpreenderam foi a referência a grampos no Tribunal de Justiça e no Tribunal de Contas. - Como o deputado Hermas Brandão, presidente do Legislativo, já havia dito que sofrera também com um grampo telefônico nenhum dos poderes escapou dessa paranóia. - Agora já se entendeu por que houve o afastamento do ouvidor João Elias de Oliveira. Se há algo que sobra neste governo é ouvidor, especialmente o alternativo, aquele das escutas clandestinas. - Está aí um símbolo para este período governamental: o orelhão. - Outro símbolo seria o buraco da fechadura, objetivo de frestadores e voyeurs. Dizem que pegaram nessas conversas até papo de figurões com as respectivas amantes. Essa é uma das gozações que o terrorismo vai engendrar. - Candidato preferencial de deputados ao comando da PM era o coronel Justino Sampaio. Em novembro outro candidato forte, hoje presidente da Associação da Vila Militar, coronel Abelmídio, passa para a reserva. - Auditoria Militar impronunciou o PM que atingiu, por ricochete, o sem-terra (na verdade um assentado de Itaipu) Antonio Tavares Pereira. - Elias Mattar Assad, dirigente da Associação de Advogados Criminalistas, aceitou representar a OAB como advogado dativo no tal Tribunal Internacional, a Lei de Linch vertida em teatro, que vai julgar o governo nos embates com o MST, canonizando-o.
FOLCLORE Numa coisa Lerner e o MST convergem: o respeito à arte de Niemayer. Lerner quer trazer o Museu Guggenheim a Curitiba e instalá-lo no Edifício Castello Branco, obra do arquiteto para um instituto de educação. O MST também recorreu à arte do arquiteto para o Monumento às Vítimas da Luta pela Terra.
CROMO De lilás o horizonte se tornou azulado até escurecer: anúncio de amanhã calmo no passado pode dissimular a tormenta.
AFORÍSTICO Governos quando caem rapidamente lembram um cadáver insepulto.





