A decisão judicial que mandou retirar a publicidade enganosa do governo sobre a Copel veio quando o Palácio Iguaçu, dando uma de senador Arruda, e já havia providenciado a suspensão do reclame. O importante é que o despacho do juiz das 2ª Vara da Fazenda Pública pode firmar jurisprudência clara para um poder já adoentado pelo hábito de abusar da publicidade.
Com a habitual alienação, a de estar fora da realidade e vivendo na Ilha da Fantasia, os áulicos do governo não deram a menor importância à decisão sugerindo que ela perdera a sua razão de ser com o fato de a propaganda já se encontrar suspensa por determinação superior. ‘‘Choveu no molhado’’ – diziam, tentando simplificar e subestimar o alcance da decisão.
Nada mais impróprio do que a metáfora empregada: quando ‘‘chove no molhado’’ sobrevem a lama, como se sabe, e essa matéria-prima é um dos componentes fortes do situacionismo. Há, é claro, a lama escondida do que houve de fato em coisas sinistras como a consequência da compra das ações da Sercomtel e nos Jogos da Safadeza, ambos submetidos ao regime da ‘‘caixa-preta’’, tão do gosto dos governantes de hoje. Todavia há a lama escorregadia, apropriada ao surfar dos acrobatas do sistema, presente na gangrena do Banestado e exposta à luz do dia, ainda que se saiba que haverá demora para a Justiça chegar nos culpados.
A decisão do juiz Luiz Osório Moraes Panza deveria operar como exemplo para os embriagados pela mídia, especialmente a assanhadíssima área do marketing, que age aqui no velho estilo fascista de repetir a mentira até fazê-la metamorfosear-se em ‘‘verdade’’ assentada.
Há alguns detalhes interessantes da medida judicial: o acerto em não conceder direito de resposta e, sobretudo, e isso é importantíssimo, a ‘‘suspensão dos pagamentos dos contratos de propaganda sobre esta divulgação’’. Novamente um exemplo, já que agências de publicidade ficam submetidas aos efeitos de sentenças quando pratiquem atos sabidamente temerários como esse de mentir de forma despudorada.
Mesmo após a declaração do presidente FHC de que a privatização da Copel era um assunto da órbita estadual e não federal, o governo mendaz insistiu na versão que lhe convinha para fugir à responsabilidade do ato predatório e que oculta a quebra do Estado feita de desídia, incompetência e boa cota de corrupção e fraude.
BIZARRICE
Só faltou, ontem, no meio do seu depoimento, o senador Antonio Carlos Magalhães fazer a pergunta dramática: quem sou eu?
AXIOMA Se a solução da questão do Senado for semelhante ao relatório da CPI Estadual do Narcotráfico chegaremos à conclusão de que nem sempre as saídas institucionais são as mais adequadas. Viva a insurreição, que pode ser um tanto quanto estúpida, mas sempre tem um lado criador e capaz, pelo menos, de romper o tédio da pasmaceira.
GLOSA Há distância muito grande entre grampear telefone, especialidade dos paranaenses, e violar o painel eletrônico do Senado, lá em Brasília?
EPIGRAMA O juiz determinou que não fosse paga a publicidade mentirosa que dizia que a venda da Copel se devia ao governo federal. Se propaganda assim caracterizada fosse impedida de receber as faturas seria uma festa: a maioria quebraria por falta de renda. Como vender coisas, promover pessoas e até as instituições sem mentir?
SPRAY Com toda a crise financeira e política, os Jogos da Safadeza, ainda não examinados pela Assembléia Legislativa e pelo Tribunal de Contas, estão na ordem do dia. - Há até marcada para o dia 8 de maio uma assembléia para aprovar relatórios e tratar dos próximos Jogos. - O encontro vai ser na Marechal Hermes, 102, Centro Cívico, sob o calor do poder. Nem o governo e muito menos suas ramificações se emendam. - O pior é que, tirando a ação do conselheiro Nestor Baptista, batendo forte nas picaretagens dos Jogos com malversação de dinheiro público, não se conhece até a prestação de contas da desastrada iniciativa. - Só para comparar: Florianópolis, com o Iron Man, disputa atlética de nível internacional, cem vezes mais barata do que os Jogos da Safadeza, tem resultados promocionais mil vezes maior. Lá a visão de interesses públicos é outra. - Literatura: o jornalista Eduardo Sganzerla lança hoje no Memorial da Cidade, às 19 horas, seu romance ‘‘Caminhos que levam para o Norte’’. Logo sai a nova adaptação de ‘‘Tao’’ de Lao Tse de Alberto Centurião de Carvalho, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado. - Dia 4 de maio, no câmpus Barigui, da Universidade Tuiuti, a exposição ‘‘Nicolau: um recorte na vida literária de Curitiba’’. O homenageado será o escritor Wilson Bueno, vanguarda e ponta-de-lança do jornal cultural.
FOLCLORE Rescendia a pizza, saborosa e crocante, o clima de ontem no depoimento do senador Antonio Carlos Magalhães sobre a burla no painel de votação da Casa. Uma espécie de temor reverencial formava a aura do ambiente.
CROMO ‘‘Um bebê perante o eterno// é formosa pétala// que Tao delicia.// Mas quem perde na dureza// a graça da eternidade// enrijece a sua gentileza// até retornar à maternidade.//’’ (‘‘Tao, o Livro’’, em livre adaptação).
AFORÍSTICO Dizem que os grampos pegaram conversas de jornalistas e de donos de veículos de comunicação, monitorados pelo Palácio. O surpreendente seria o contrário: jornalistas e empresários censurando ligações do governo.

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