Um importante jornal argentino, ‘‘La Nacion’’, divulgou no dia 1º de Abril que há um acordo entre o Brasil e o Paraguai para a venda de Itaipu. Como a data em que a notícia foi divulgada é apropriada a molecagens de toda ordem quem sabe até ela tenha servido para mexer com o velho temor platino da bomba hidráulica da até então maior hidrelétrica do mundo, a de Itaipu.
Nem por isso o nosso Euclides Scalco, presidente da binacional, teria ficado de orelhas em pé, já que conhece como ninguém os termos do acordo feito em pleno regime militar, época em que não se falava nas simplificações imbecis do neoliberalismo e da globalização, como a empulhação do ‘‘Estado Mínimo’’. Aquele era um tempo, ao contrário, de Estado com elefantíase, caminho mais do que necessário, na cabeça de milicos e tecnocratas, do Brasil Grande. Continuo aí com a fórmula da melhor cuca paranaense, Belmiro Valverde, que resume bem o equilíbrio: ‘‘nem Estado ausente, nem onipresente’’.
Nem as compensações surgidas com as hidrelétricas de Iapipe-Yaciretá, de acordo entre paraguaios e argentinos, acalmaram a bronca patrioteira. Um dia eu estava em Buenos Aires e vi, na manchete do ‘‘Clarin’’, uma ameaça de argentinos de derrubada de helicópteros brasileiros que sobrevoam as quedas do Iguaçu porque afetariam, com seu ruído, a tranquilidade dos pássaros que ornamentavam aquele cenário. Derrubar helicópteros por causa de andorinhões que poderiam ficar estressados é uma dessas formas de radicalismo ambiental que não dá para suportar, mesmo que cercada das melhores intenções. Tratava-se, porém, de amainar o orgulho ferido dos nossos vizinhos, uma bravata.
Até as melhores publicações do mundo ficam sujeitas a ‘‘pegadinhas’’ como essa da venda de Itaipu e que certamente atiçou os nacionaleiros de todos os partidos, da extrema direita à ultra-esquerda, ambas burríssimas. A ‘‘Veja’’ aceitou, como verdadeira, certa vez, uma das ‘‘barrigadas’’ clássicas da nossa imprensa quando divulgou o surgimento do Boimate da cruza de cromossomos de um bovino com os da fruta que consumimos como legume. Para certas cabeças não há o inverossímel como se dá com a crédula Velhinha de Taubaté.
Costumo dizer que não precisamos de ficcionistas do realismo fantástico porque o que Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Cortazar e outros se esforçam para mostrar no campo da criação aqui é notícia, dado factual. Imaginem a plataforma, a maior do mundo, afundando. Só podia ser aqui.
MECENAS É insuportável a choradeira de artistas, e isso abrangendo todas as áreas e alguns notórios picaretas, de que o Estado tem que ser o Mecenas, o protetor de plantão, dessa gente. Todos querem ver o seu CD produzido, o seu filme financiado e assim por diante. Como há muitos pretendentes acaba vigorando o fundamento bíblico de que apenas alguns serão escolhidos.
Ninguém pretende que o governo – a União, Estado e município – fique indiferente. Se falta pão, dá para imaginar a dificuldade para o circo. O que é intolerável é a existência de proteção excessiva para os que mercadejam na área: em Curitiba o limite entre público e privado inexiste.
O artista verdadeiro, aquele que detém reservas de talento, acaba dando um jeito de se impor e dispensa patrocínio e achego.
DE PESCADOR Quando a Quitandinha era um lugar adequado para pescar até porque a cidade não crescera tanto em volta do Rio da Várzea havia um ‘‘ponto’’, logo na entrada, na primeira curva, que todos buscavam. Pois num sábado o jornalista José Mugiatti Sobrinho perdeu um isqueiro no local e no domingo o Rueda, que era de outra turma, fisgou o objeto em meio à captura de lambaris do rabo vermelho. Incrível: tirou o isqueiro do fundo do rio, secou-o e o acionou para acender o cigarro. E comentou que aquilo não deixava de ser um amarelão, referindo-se à cor do objeto e ao apreciado e buscado e raramente
encontrado o lambari dourado.
PASÁRGADA Dorival Caimi tem a sua Maracangalha (‘‘Se Anália não quiser ir// eu vou só// eu vou só’’) e Bandeira a sua Pasárgada, lá onde ele é amigo do rei. Quando me perguntam de lugares utópicos, desejáveis e pouco encontráveis, costumo dizer que a minha aspiração vem da adolescência: achar o poço dos lambaris amarelos, como se tocados por Midas, e o bordel das normalistas, uma invencionice que povoava a cuca dos iniciados em descobertas sexuais.
GRAMPOS Se efetivamente for aprofundada a ‘‘varredura’’ em cima dos ‘‘grampos’’ vão acabar achando alguns ‘‘bobs’’. Aliás, a oposição já pensa em faturar o episódio diante da afirmação do advogado dos ‘‘grampeadores’’ que teriam sido monitoradas conversas telefônicas em comitês de oposição. Se o que detinha mais condições para ganhar, o Vanhoni, só elogiava o lernerismo deve haver muito pouco a descobrir. Até porque o publicitário do PT é da agência mais prestigiada do governo, a Heads, que pertence ao genro do governador.
SÍMBOLOS Regina Célia Borges, ex-diretora do Prodasem, é o novo símbolo do Brasil: assumiu toda a responsabilidade no caso da manipulação do painel eletrônico, entregou os senadores ACM e José Roberto Arruda, livrou os seus colegas de qualquer participação. Dentro em pouco, a despeito do que possa haver de mudança na vida brasileira, estará esquecida, como se deu com o motorista Heriberto, herói por algum tempo do caso PC-Collor, e que hoje ninguém sabe por onde anda e, o pior, nem quer saber. Heriberto foi até capa de revista e Regina provavelmente o será.

mockup