O governo paranaense tem um título inegável: o de trapalhão máximo. Quando se pensa que esgotou o repertório vem com outra, o que já levou, como tenho dito, o Renato Aragão a procurar o psicanalista por se sentir tão superado por esses artífices do Paraná. O que é simples, como explicar as razões da venda da Copel, o governo complica e acaba transformando num obstáculo, embora tenha a servi-lo a maior estrutura de comunicação social já colocada a serviço de um governante no Paraná com jornalistas palacianos recebendo salários de marajá e agências de publicidade deitando e rolando.
Dele se poderia dizer que é, a um só tempo, a mosca que caiu na sopa do Raul Seixas ou aquela imponderável pedra no caminho do Drummond de Andrade. Veio com aquela tolice, na verdade um ruído de comunicação, de sugerir que quem decidia a venda da Copel era Fernando Henrique Cardoso, afinal desmentido cabalmente pelo próprio. O que caberia informar é que há uma razão de ordem geopolítica e estratégica a justificar privatizações do sistema, mas nunca que isso deixasse de respeitar aquele mínimo de autonomia que o falso federalismo brasileiro ainda conserva. FHC disse o óbvio e as acrobacias verbais de Alceni Guerra para sugerir que o presidente não agira com correção tornam o episódio mais lamentável sob o ponto de vista da inteligência.
Como a Copel é a pedra no caminho, a única hipótese de salvação do caixa, – esta a verdade inteira. O governo voltou a mentir e de forma escandalosa quando omitiu fatos como o de que 70% do produto da venda não será, de forma clara e expressa, aplicado no Fundo de Previdência. As coisas não param aí: o texto do contrato com o Banco Central sobre o saneamento, na verdade sepultamento e aterro sanitário de patologias recentes e passadas, do Banestado, praticamente anula ou pelo menos colide com os fundamentos da lei que tratou da autorização para o leilão da ‘‘jóia da coroa’’. De fato, se está aceita em contrato a responsabilidade de pagar os R$ 415 milhões de dívida com o Banco Itaú na cobertura das ações caucionadas da Copel, percebe-se que cada vez tudo fica mais nebuloso.
Há gente maliciosa sugerindo que o governador quer o salvo-conduto da Assembléia para viajar e sair do Palácio e se mandar sem pedir o chapéu. Sem burocracia, como seus auxiliares argumentam, e sem constrangimentos. Já a oposição, que costuma contar com o ovo ainda no fim da galinha, imagina-o como um Milosevic a correr do castelo com a turba pró-Copel ululando nas ruas e restabelecendo o mito francês das barricadas.
EPIGRAMA
Pouco importa saber se foi o Salomão ou o Gionédis quem fez o barco afundar. A pá de cal fica por conta do Ingo Hubert certamente
BIZARRICE Quem foi? Essa é a pergunta que se faz no interior do elevador quando há pum no recinto. (O mais terrível é o silencioso, o ninja). A pergunta tem a força inquisitória daquele texto clássico de Lenine ‘‘Que fazer?’’ Isso vem a propósito da discussão sobre quem afundou o barco fazendário, se o Miguel Salomão ou o Giovani Gionédis.
A primeira antecipação de recursos do Banco Central com ações da Copel para fins de privatização se deu com Salomão (também as descobertas da quadrilha dos 60% do ICMS e as tropelias da Leasing) e o resto, que não é pequeno, com o Gionédis, especialmente aquela história de antecipar tributos de empresas privadas e públicas e pegar toda grana adiantada dos royalties de Itaipu.
AXIOMA Uma das coisas mais quadradas dos ideólogos é ‘‘politizar’’ até o amor ou a amizade. Marta Suplicy discordava de duas coisas com o marido, do qual se separou: não admitia a CPI do Lixo que atingia financiadores de sua campanha e se opunha à candidatura de Suplicy, opcional à de Lula. O PT é assim: quando governo não passa de um PFL mimético, disfarçado. Bom mesmo só na oposição.
GLOSA Entender arte moderna é fácil. Duro é entender o governo.
SPRAY Enquanto o governo deblatera, faz retórica, o deputado Gustavo Fruet providencia a remoção da alínea ‘‘b’’ do inciso X do parágrafo 2º do artigo 155 da Constituição Federal que retira dos Estados produtores de petróleo e seus derivados e energia elétrica o direito à tributação. - Estive em Salvador e não dá para comparar o sistema de circulação com o de Curitiba, um caos. Outra coisa: a polícia está na rua, em toda parte, descentralizada. - Conheci também um pedágio que funciona e uma concessionária que faz duplicações, viadutos e pontes, algo inconcebível por aqui. - Pela vez primeira o sindicato de jornais e revistas preenche o posto de vice-presidente executivo, tarefa que cabe agora ao jornalista Alcy Ramalho Filho.
FOLCLORE Lerner alega que precisa desburocratizar a sua relação com o Poder Legislativo para viajar à vontade, mais do que já vem fazendo. Jamais provou a utilidade da maioria das viagens, embora dê trabalho à vice Emília. Dá para apostar que essa passa, a não ser que os deputados queiram mais coisas. O capilé está cada vez escasso, ainda que se desdobre na água em várias doses.
CROMO Na Lagoa do Abaetê, os versos de Caimi permanecem: o mistério se torna vivo na água escura e nas dunas, pintura com áudio.
AFORÍSTICO Calígula nomeou senador o seu cavalo, Incitatus. Este, se vivesse por aqui, poderia rejeitar a homenagem.

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