Luiz Geraldo Mazza
Religiosidade popular é muito séria, tanto que olhada com desconfiança pela hierarquia da Igreja que, é lógico, busca enquadrá-la nos cânones da boa doutrina. Um dos ritos populares, a malhação de Judas, como se viu ainda ontem, foi, por muitas vezes, desaconselhada como se tivesse uma conotação próxima da barbárie açoriana da farra do boi, felizmente hoje amainada pela reação da opinião pública.
A malhação de Judas é um folguedo que ainda conserva alguma expressão nos centros urbanos e na área rural. Os bonecos pendurados em postes ou árvores, sob a guarda diligente dos pretorianos que irão justiçá-lo, é uma forma de apropriação política do fato histórico-religioso e oportunidade para execrar autoridades e lideranças próximas da comunidade.
O apelo para que não se reprisasse o legendário justiçamento se funda numa inevitável carga de vindita, presente na manifestação e que contraria fundamente o espírito cristão. A glória próxima da Ressurreição, a vitória sobre a morte, que se celebra hoje, portanto um dia depois, teria majestade suficiente para fazer esquecer o dado da retaliação.
Vejam, porém, como o povo reescreve os fatos religiosos: se a punição a Judas, representado num boneco, dribla as recomendações, há de se considerar também que a própria Páscoa, até por sua mercantilização, faz da busca ansiosa aos ninhos para o encontro de ovos e coelhos de chocolate.
Ucranianos, dos dois ritos, fazem dessa festa um acontecimento excepcional com a bênção dos alimentos (krachankas), a exposição dos ovos pintados (as pessankas), as procissões em torno do templo. Há muita cor e alegria nessas celebrações e apesar de tudo que Curitiba já fez para explorar o lado mais cultural das etnias pouco se fez para tirar partido dessa festividade. Se já temos a encenação da Paixão pelo Grupo Lantéri há, portanto, uma riqueza de programação para fazer, aí incluindo a variedade dos rituais e elementos da arte bizantina dos ucranianos e abrir caminho para um tipo especial de turismo, já vitorioso no caso do Natal, único evento da terra merecedor de figurar num calendário nacional.
No Paraná há especial significação porque os ucranianos aqui são a maior comunidade em todo o mundo, fora o país de origem, secundada pelo Canadá.
PITORESCO
Inevitável o folclore que acompanha as encenações melodramáticas da Paixão. Numa delas, para substituir o ator Roberto Menghini entrou como Jesus nada mais nada menos do que o Fernando Fontana, hoje com algo tão contundente como a coroa de espinhos no comando do INSS. Há uma passagem, esta do Pretextato Taborda, o nosso Tato, que não tinha fala numa cena de imprecações dos discípulos contra Judas. E enquanto uns o chamavam de traidor e desagregador, o Tatinho tascou contrabandista
COMPETIÇÃO Claro que há no País áreas muito mais adequadas para explorar o filão religioso, no qual Nova Jerusalém, em Pernambuco, e o megaespetáculo da Paixão, incluindo atores globais, leva todas as vantagens. Assim como em outras cidades há o peso da tradição, aliado a fatores de motivação. O cenário de cidades históricas, como as mineiras, por exemplo, facilitam muito.
No caso específico dos ucranianos teríamos ainda o Parque Tingui que poderia ser empregado para esse fim. Da mesma forma que no Natal se faz a promoção dos presépios, um concurso desse artesanato especializado, também se poderia, por exemplo, montar exposições de arte e iconografia religiosas, específicas sobre a Paixão, e que por sua abrangência ganhassem expressão nacional.
Um dos orgulhos das igrejas é a via-sacra. Muitos dos nossos artistas trabalharam com talento e rigor documental em igrejas. Uma das mais curiosas é a do pintor (comunista) Sigaud, irmão do bispo conservador e fundador da TFP, na matriz de Jacerezinho. O artista colocou em cena vereadores, o delegado de polícia, o prefeito e figuras populares nessas magníficas pinturas. É um exemplo do tipo de material que poderia ser recolhido. Dá para citar também o pintor morreteano Theodoro de Bona, autor de magnífica Via-Sacra.
ZÉ DAS TRANÇAS Conta Fernando Pessoa, o pernambucano que andou por aqui, dirigiu o Teatro Guaíra e falou mal da cidade no Livro de Cabeceira do Homem (Editora Civilização Brasileira) que na encenação da Paixão em Olinda o barbeiro entrou no papel de Pôncio Pilatos e quando disse que era a autoridade romana o povo replicou, em coro, Zé das Tranças, Zé das Tranças que era o seu apelido. O tumulto ganhou o teatro e aí Jesus, que era o presidente da Câmara Municipal, fez um apelo de concórdia ao público. Foi uma experiência mais difícil do que expulsar vendilhões do templo.
PARANAGUÁ No Cine Santa Helena, em Paranaguá, é encenada a Paixão. No intervalo, para acentuar o sofrimento de Cristo (Roberto Menghini), que estava na cruz, o pessoal da produção quis mostrar o personagem suado, astênico, próximo da morte e lançou sobre o corpo do ator um balde de água gelada. Este, com o impacto térmico, vociferou um palavrão daqueles de fazer corar freiras, no mesmo instante em que o pano do palco de abria, lentamente. Segurou a interjeição a meio caminho, pendeu a cabeça para o lado esquerdo do corpo como quem caminha para expirar e só o pessoal dos bastidores é que percebeu a quase mancada e teve que se conter demais para não dar gargalhadas.





