Luiz Geraldo Mazza
Nada como a coincidência do calendário para devolver o tom aziago da Sexta- Feira Santa, o cenário dos anos 40 e 50. As pessoas não falavam, balbuciavam: rezava-se em voz baixa, o silêncio a tudo dominava, o pano roxo cobrindo imagens dos santos na igreja, nosso temor-pânico antes da comunhão era a possibilidade de engolir mosca ou mosquito a caminho do templo e romper com o rigor do jejum. Havia uma outra fatalidade: ai de nós se fôssemos nadar ou jogar futebol naquele dia, pois uma desgraça cairia sobre nós acidente, morte, sofrimento. E como havia ocorrências sinistras, como a marcar o peso da injustiça da crucificação.
Seguir, contrito, a procissão, assistir a filmes ou peças teatrais da Paixão, o ritual da missa ganhando mais densidade no sentido místico e revelador da Eucaristia. Lembro da frase de Munhoz da Rocha falando da igualdade revelada nesse ato de comunhão à transcendência, ao que ele chamava de verdade não dialética, essa que nos coloca diante de uma perspectiva da eternidade.
Hoje é uma velharia pensar nessas coisas. A liturgia foi simplificada e com isso perdeu o mistério. O latim praticamente abolido: para compensar, tudo ficou mais claro desde o santo Giovani Roncali, o Papa João XXIII, com o Concílio e as encíclicas Mater et Magistra e Populorum Progressio, algo bem mais forte do que a Rerum Novarum e mais interativo aos nossos dias.
Como vivemos em tempo de julgamento e até de disposição para o linchamento, como se percebe nas reações das pessoas e multidões diante da impunidade que marca a vida brasileira, nada mais apropriado do que saber até que ponto as regras jurídicas foram cumpridas no julgamento e execução de Cristo. Pilatos era a única autoridade com poder delegado e o chamado jus gladii para decidir sobre o Nazareno, e se absteve de fazê-lo, com o que se concedeu ao Sinédrio, conselho judaico, força decisória para a execução. Vi um trabalho do jurista Evaristo de Moraes a respeito dessa análise em que ele relaciona, um a um, os vícios processuais e faz até uma analogia com julgamentos de Sócrates na Antiguidade e o do judeu Dreyfus que deu margem ao libelo de Zola.
Rosadi conclui: A acusação não foi precisada; o delito não foi definido, o artigo de lei não foi indicado. Não se ouviu nenhuma testemunha; não se fez prova nenhuma das imputações; assim, é inexplicável e injustificável a sentença. E, na realidade, a condenação não foi decretada: o acusado foi simplesmente entregue aos seus acusadores, não obstante haver o juiz reconhecido sua inocência. Jesus não foi condenado; foi assassinado.
E quantos julgamentos se dão assim, mesmo com toda a parafernália do direito e dos rituais processualísticos. Só que raramente os mártires se consagram; o autor da Utopia, Thomas Morus, somente há pouco tempo foi canonizado. Giordano Bruno obteve, recentemente, o perdão dos seus assassinos, no caso a Santa Inquisição; Galileu se valeu de malícia para fugir da fogueira.
AFORÍSTICO
A malhação de Judas era um folguedo nas mãos de crianças e também se degrada quando usada pelos políticos, cujo itinerário de traição é rotina
BIZARRICE Muita gente gostou da censura do presidente do TC, Rafael Iatauro, em cima do governo, pela ausência dos secretários num seminário sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Melhor o fará, porém, se endurecer no acompanhamento das contas desse governo, campeão de caixas-pretas. E é o que se espera.
AXIOMA Está criado um problema com o pedido de direito de resposta do PT à propaganda enganosa da Copel. O próprio Judiciário poderia ter feito isso quando tanto Alvaro Dias como Roberto Requião o atacaram se valendo da tevê e demais meios de comunicação, dadas as facilidades (e tutelas) da praça.
Alvaro disse que um juiz, um promotor e um desembargador, num caso de liberação de dinheiro sob custódia no Badep, que eles deveriam usar roupa listrada, de presidiários, e não as vestes talares da Justiça. Requião foi mais longe e permaneceu, vários dias, atacando o Judiciário pela televisão.
GLOSA Carvalhinho chocou o público ao dizer que havia tantos interessados em seus serviços que ele parecia uma noiva gostosa que todos querem comer. Em semana de parábolas as elípses e hipérboles se tornam frequentes. E ganham um tom meio funk e punk com a retórica do presidente da Fiep.
EPIGRAMA Sugere o anarquista Elísio Marques, ex-juiz e ex-PM, que caso seja difícil escolher entre oficiais o comando da corporação, poderiam convocar o ex-governador Paulo Pimentel, coronel-honorário por decreto.
MEMÓRIA No arrastar compassado da procissão da Sexta da Paixão, de repente um canto agudo: a mãe do escritor Wilson Rio Apa, no papel de Verônica, entoa a glória de ver o rosto de Jesus impresso num pano alvo. Na frente, como sempre, o gordo Elias Karam, vereador, com a insígnia de mariano. Essa Curitiba mais mística, religiosa, se diluiu no tempo.
FOLCLORE Ironia das ironias: a revista da Associação dos Magistrados do Paraná, hoje em seu número 62, oitavo ano, leva o nome de Novos Rumos, que era o título de um jornal do Partido Comunista Brasileiro.
CROMO A inocência sumiu de todas as partes até dos atos religiosos, nos quais íamos conquistar namoradas, todas Filhas de Maria.





