Luiz Geraldo Mazza
Vejam como a política, notadamente a que se pratica no Brasil, é arte para magos e prestidigitadores: a melhor hipótese para a não venda da Copel estaria na escolha de Jaime Lerner para vice numa chapa presidencial combinada ainda entre o PSDB e o PMDB. Isso se levarmos a sério o raciocínio oficial no sentido de que a privatização de Furnas levaria o segundo maior colégio eleitoral do País, o de Minas, a alinhar-se com o topetudo Itamar Franco. É que a venda da Copel, devidamente politizada, seria transferida para evitar prejuízos incontornáveis à chapa governista.
O samba de crioulo doido é coerente com as oscilações da política e mostra que as determinações de governo, ainda que acertadas com o FMI como um dever indeclinável, estão sujeitas a variáveis prosaicas. A seriedade da proposta do senador Roberto Freire (PPS), de suspensão de todas as privatizações das estatais de energia enquanto perdurar a grave crise no setor, é desprezada, mas o medo de que Itamar Franco empolgue Minas (não esquecer, em meio a essa paranóia, que foi de lá que veio a tormenta de 64 tocada por Magalhães Pinto, então governador, e os generais Olímpio Mourão Filho e Luis Carlos Guedes) com seus pundonores nacionaleiros, deixa Brasília apavorada.
Matematicamente, com toda a sinuosidade do raciocínio, é mais fácil uma razão dessas brecar o leilão da Copel do que os efeitos da mobilização de rua (depois de amanhã teremos a efígie de Lerner malhada como Judas e mais coleta de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular) até porque os atores da cena dificilmente convencem alguém, derrotados crônicos de eleições, inclusive a mais recente de prefeitos.
Outras ironias serão proporcionadas como a ordem de FHC de bloqueio ao projeto de Roberto Freire, o que deixaria os senadores e irmãos Dias numa situação quase circense ao se verem impelidos ao voto chapa branca nacionalmente em aberta contradição com a campanha regional que fazem contra o leilão da Copel. Felizmente os fatos ajudam a desmascarar essa atividade pouco digna, cada vez mais próxima do respeito que se deve às ruas suspeitas, que é a política e suas variadas formas de empulhação e oportunismo.
EPIGRAMA
E se a prisão de Belinati for decretada, ele entrega o time todo ou transforma seus aliados, livres, numa espécie de Barrabás libertado?
BIZARRICE O jornalista Ricardo Prefeito usa muito as referências a clássicos para ilações políticas e serviu-se de uma delas de Petrônio, aquele árbitro da elegância, em seu Satiricon, adaptável ao Brasil em que o pensador alerta que as coisas negras que acontecem se dão no mundo todo, mas que não alteram o céu azul. Parece, enfim, falar do Brasil. Um político ao ver a alusão a clássicos saiu-se com sutileza: Ainda vocês pararam no Atletiba? Essa pode ter vindo tanto de deputados da situação como da oposição.
AXIOMA Lerner, aproveitando a cumplicidade do Legislativo, quer agora um salvo conduto para viajar a qualquer momento ao exterior sem pedido de licença. Quer flexibilizar, desburocratizar, botar óleo lubrificante nos procedimentos. Com essa Assembléia é só o que faltava: facilitar o Lubrax para que tudo siga rápido e sem transtornos. O remédio é relaxar.
GLOSA Saíram as pesquisas de Alvaro e a de Requião: na do tucano o próprio aparece disparado com 18 pontos à frente, na do trombonista há empate. Desse jeito os institutos tendem a ficar com a mesma credibilidade dos candidatos, isso é quase nenhuma.
SPRAY Uma forma discreta de examinar o caso Copel é desenvolvida pela Fiep: comitê de alto nível, formado por setores representativos do consumo de energia (Grupo Votorantin, Klabin, montadoras, cooperativas etc) avalia os impactos e ouve especialistas. - Um dos que prestaram depoimento foi o Gomide, ex-presidente da Copel, hoje dirigente de privatizada. - Coronéis na lista para o comando da PM: Gilberto Foltran, J.A. Paluch, Justino Sampaio. Se a Lei Chab emplacar, também o chefe da Casa Militar, coronel Vieira, sai. - Audiência da secretária Alcyone Saliba, da Educação, no Plenarinho, tinha o triplo do público que acompanhou o caso Copel com seus lances surpreendentes. - Vai sair um Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio em 2 de maio na Reitoria da Universidade Federal. Pela relação dos jurados, não haverá processo contraditório, isso é quem defenda o outro lado. Até em Nuremberg houve. Por mais bárbaro que seja um crime deve-se dar defesa ao acusado. Se assim não for, isso será tudo menos democrático e radicalmente fundamentalista.
FOLCLORE O ex-deputado Donato Gulin esteve na Assembléia Legislativa, o que foi suficiente para sugerirem que ali estava representando interesses de empresa associada à Copel (a Tradenner). Não é a primeira vez que intenções de Gulin são mal interpretadas: uma ocasião, anos 70, ele foi apanhado na estrada com milhares de codornas que ele e os amigos caçaram e que iam oferecer em banquete ao governador Canet Júnior. O Ibama daquele tempo pegou o Gulin. Agora estão deixando ele voar à vontade, caçando votos de novo.
CROMO A verruga no dedo prova de que não se deve apontar uma estrela.
AFORÍSTICO De 1997 a 2000 a Petrobras foi enquadrada em 11 acidentes graves de natureza ecológica e pelo jeito nada lhe aconteceu. Agora só falta o babaca nacionaleiro dizer que é sabotagem e plano para a privatização.





