Luiz Geraldo Mazza
O mito das barricadas, algo que permeia a cultura francesa e que volta e meia reaparece nas insurgências políticas, povoa o imaginário também dos tupis e tapuias da terra. Eles acham que berreiro em carro de som, discursos que ninguém mais tolera por mentirosos e superficiais, passeatas e comícios seriam o máximo em matéria de manifestação.
Agora, com o caso da venda da Copel, voltam com os mesmos slogans, aquele mesmo placar (e que não funcionou no caso das diretas, já que os execrados acabaram se reelegendo), achando que essa é a saída prioritária. Esquecem de um detalhe: dormiam quando o governo fez passar com a maior tranquilidade a proposta no Legislativo e talvez seja esse remorso que os leva à crença de que são insubstituíveis como pregoeiros do novo tempo.
Em 1961, o então prefeito de Curitiba, general Iberê de Mattos, se entregou a esse ritual das manifestações pela posse de João Goulart. Até se anunciou, vejam o lado mais ridículo do espetáculo, a distribuição de armas. Curitibano, desconfiado como sempre, não aderia com muito entusiasmo às manifestações. O dono da bola era o prefeito que procurava secundar o esforço de outro petebista, Leonel Brizola, aquele sim fazendo a resistência pela cadeia de rádio que chamava da Legalidade.
Meses depois, ano seguinte, tivemos eleições e o general foi candidato a deputado estadual na listagem trabalhista. Apesar do tom populista de sua gestão e de todo o carnaval cívico em favor da posse de Jango acabou lá embaixo na relação de suplentes. Ninguém faturou tanto o frisson daquela celebração no Paraná, o que prova que o dado circunstancial nem sempre acaba favorecendo os que brigam na linha das barricadas. Há ainda a subestimação do adversário como houve em 64 quando os dominantes do sistema achavam que comícios como o da Central do Brasil seriam mais fortes do que a passeata das rezadeiras. Não era como acabamos vendo e sofrendo.
ADENDO
A pouca visibilidade, anteontem, das manifestações dos professores, a classe mais renhida e organizada do trabalhador público, é outra amostra de que há uma espécie de cansaço dessas arregimentações que por sua frequência acabam banalizando e tirando a autenticidade de sua expressão.
Segundo a PM, havia pouco mais de 800 pessoas no auê em Curitiba.
CORRUPÇÃO O ocorrido com a mobilização em Brasília pela CPI da Corrupção é outra amostra clara de que há uma espécie de fadiga do material, um estresse em cima desse tipo de agito. Esperavam juntar 20 mil pessoas e não deu nem a metade. E depois aparece lá, na condição de salvador da Pátria, o Lula, aquele que surgiu no cenário brasileiro para perder eleições, especialmente aquela que não devia para Collor. Ora fica visível que tal CPI, por sua ausência de objetividade e por ser uma espécie de tiro de chumbo perdigoto para alcançar o que é difuso, simplesmente visava imobilizar o governo e deixá-lo submetido a um clima de linchamento.
A maior parte dos casos suscitados já está sob cuidados do Ministério Público (Sivam, grampos do BNDES, ações de Eduardo Jorge, precatórios, ajuda aos bancos etc). O governo é desgastado na medida em que intervém junto a aliados para deter a onda de assinaturas favoráveis.
A economia brasileira se recupera, a imagem do presidente é melhor, a taxa de atividade econômica se eleva, caem os indicadores de desemprego e isso retira da oposição o discurso do caos, aquele que leva injustiçados e ressentidos para o ativismo das passeatas.
Sobre o mito das passeatas, na área militar há uma versão de que naquela dos 100 mil no Rio de Janeiro para marcar a morte do estudante Edson o homem da CIA, Vernon Walters, estava entre os manifestantes. Se verdadeiro, isso não tira a justeza da manifestação, mas acrescenta-lhe um tom de caricatura e retira-lhe a dimensão de martírio, como se deu com o Iberê de Mattos.
O TOUCINHO Vários leitores, provavelmente da nova geração e não ligados em manifestações do populário como cantiga de roda e jogos florais, escreveram para saber como era esse brinquedo do toucinho a que me referi ontem para lembrar da grana da venda das ações do Sercomtel. Era assim: Cadê o toucinho daqui? E vinha a segunda voz o gato comeu. Perguntava-se sobre o gato e se respondia que tinha fugido para o mato. E o mato? o fogo queimou. E o fogo? a água apagou. A água estava movimentando o moinho, este preparava o trigo, que a galinha comeu, que estava botando ovos, que o frade chupou e este rezava missa no altar, que ficava no se lugar. Cadê os mais de R$ 100 milhões?
A palma da mão direita, aberta, com a esquerda indicando o sumiço do toucinho poderia ser usada na campanha da moralidade em Londrina.
O PORCO Outro folguedo, na base do destrava-língua, era a pergunta Meu pai matou um porco. O que você quer do porco? O outro respondia: língua. O cara voltava à carga Como é teu nome? e vinha a resposta Língua e assim por diante. O perguntador partia para perguntas constrangedoras em torno da língua para tirar o participante do sério e derrubá-lo.
É mais fácil saber em que lugar se encontra o toucinho e qual a parte do porco que você prefere do que um informe sério sobre a grana da Sercomtel. E quem souber pode correr o risco de perder a língua.





