Luiz Geraldo Mazza
Hoje deveria ser a data maior da classe política, pois nada mais adequado do que o 1º de Abril para traduzir a essência dessa fauna indispensável à vida civilizada e democrática. E tanto o é que no golpe (ou revolução, segundo alguns brazilianistas) de 64, enquanto os vencedores insistiam que tudo se dera no 31 de março, ontem fracamente comemorado por motivos óbvios, a oposição, manietada, dizia que os fatos se deram no dia seguinte para, é claro, configurá-la como uma empulhação.
Vejam bem: foi num 1º de abril que nasceu a imprensa paranaense. O primeiro número de O Dezenove de Dezembro saiu naquela data em 1854, meses depois de obtida a autonomia provincial. E surgiu com marca digital, a de chapa branca, já que editava simultaneamente o que seria o Diário Oficial.
Não poucas vezes tenho dito, em palestras e artigos, que esse sinal de origem de certa forma persiste. Claro que toda a generalização tem riscos, razão pela qual a exceção, porventura existente, ainda que circunstancial, episódica, deva ser enaltecida. Age-se aí com aquilo que os juristas chamam de animus corrigendi, isso é o espírito pedagógico da correção.
Tudo aquilo que se espera que aconteça no Brasil se dá o contrário: a P-36, maior plataforma do mundo, afundando; Fernando Henrique Cardoso e Lerner, em ação simétrica, ameaçando os aliados com retaliações para evitar uma CPI ou uma derrota no caso da venda da Copel; o Brasil se dispondo a entregar as suas fontes de energia num momento de extrema escassez, ditada não apenas pela falta de chuvas, mas também de investimentos.
Talvez esteja aí a explicação para o fato de não pegarem mais as brincadeiras do 1º de Abril de passar tapeações para os outros, dadas em tom dramático. É impossível superar o absurdo do cotidiano.
SIMETRIA Há quem veja simetria nas ações de Fernando Henrique e Jaime Lerner por causa da tal ameaça de retirada de cargos dos infiéis. A causa de FHC é justificável por não haver uma pessoa de bom senso que desejasse uma CPI que não investigaria fatos precisos e determinados, mas difusos e genéricos, que iriam da operação de Jader Barbalho nos anos oitenta junto ao Banco do Pará quando governava aquele Estado aos casos de grampo na privatização da telefonia e mais o dossiê Cayman (lá o Banestado tinha a extensão de sua agência de Nova York) e os rolos do secretário Eduardo Jorge.
Claro que a platéia está envolvida pelo denuncismo em função até da aberta impunidade do País, mas com um ímpeto nada racional, bastante próximo do linchamento, se possível sem julgamento. Uma CPI dessa ordem paralisaria o País sem possibilidade de haver qualquer sinal de serenidade. E isso, é claro, só interessa a grupos oposicionistas que se mostram preocupados com a recuperação da economia, queda do desemprego e, sobretudo, a melhora de Ibope da figura do presidente FHC, ainda que a maioria também concorde que há, de fato, corrupção como nunca no governo.
Noutro episódio FHC buscou copiar Lerner: seus aliados criaram três CPIs para compensar a resistência aquela genérica. Só que aqui a oposição queria uma específica sobre o crime organizado e o governo respondeu com cinco laranjas. O escore é de cinco a três para Lerner. Mais uma vez o Brasil se curva diante do Paraná criativo.
CICERONIANAS Devemos agir com muita atenção, para não deixarmos de lutar pelo que pode ser obtido, e para não parecermos derrotados no que não obtivermos. De Marco Túlio Cícero em carta a Públio Lêntulo.
Está aí um dos fundamentos fenomenológicos da política, a certeza de que as aparências podem alterar conteúdos. Magalhães Pinto um dia segredou a Carlos Lacerda que gostaria que ele tornasse público o que dizia em particular para o político mineiro e no particular o que fazia publicamente. No fundo a exigência de regra moral, sabidamente uma ausência na prática política, o que a transforma numa arte de sedução e talento, mau-caráter e intriga.
Em tal clima é risível a cobrança de lealdade por parte de Lerner à sua base aliada, ainda que necessária até para testar convicções tão variáveis de pessoas que entregaram a Copel e agora se esforçam para fingir defendê-la.
AS CONTAS Depois dos episódios de Londrina e Maringá, que mostraram extrema vulnerabilidade do Tribunal de Contas e também das comissões de tomadas de contas das câmaras municipais, espera-se maior zelo e rigor. E isso começa a aparecer nas cobranças em cima do ex-prefeito de Londrina e em casos menores como o de Jandaia do Sul em que o dinheiro para atender a efeitos de vendaval foi para o espaço. E o dinheiro dos Jogos da Safadeza? Pode-se dizer que também, aí neste episódio, o evento levou?
REPÚBLICA Mais Cícero: Como num caso de tutela familiar, a administração da República deve guiar-se pela conveniência dos que a delegaram, não dos que receberam essa delegação. E quem atende aos interesses de uma parcela dos cidadãos e ignora a outra, introduz na sociedade algo extremamente nefasto, a divergência e a discórdia. Vejam, portanto, que proclamamos a República, mas ainda não a praticamos. Brasil e Paraná são um exemplo didático.





