O jornalista Carneiro Neto costumava definir uma das rádios em que trabalhou como um trem-fantasma de parque. E explicava: eram tantos os problemas diários que ‘‘em cada curva havia um espanto’’. Nada mais parecido com o governo Jaime Lerner. Semana passada, contavam como certo apoio massivo da base aliada e na segunda-feira pintou a tempestade que se estenderia até a derrubada do veto à Lei de Incentivo à Cultura. Há quem diga que isso pode acontecer de novo.
Do lado do governo, como sempre, há euforia. Campello, que faz o meio-de- campo com a Assembléia Legislativa, diz ter 29 votos assegurados e mais cinco em franca negociação. A oposição também festeja, já que os deputados Ribas Carli e Plauto Miró Guimarães negaram o refluxo trombeteado pelo oficialismo.
Isso não espanta em se tratando de políticos, pois só eles, como sugere velha anedota, conseguem num jogo de pôquer blefar ao mesmo tempo. Nem o domingo será respeitado como dia de guarda e a pressão governista prosseguirá. Do lado tido como resistente surge o temor de trairagem em cima do laço e fala-se até que no dia da votação um rebelde estará dançando tango em Buenos Aires e outro em Paris contemplando o Rio Sena. Se for viagem oficial e paga pelo Erário, no qual a maioria está de olho, pega mal, mas acrescenta molho na intriga.BIZARRICE
Lerner cobra lealdade. Em política isso inexiste. Ele esnobou Ney Braga, tapeou Brizola por muito tempo, constrangeu Mario Celso Petraglia e Gionédis. Nesse campo é fora de concurso, mais do que como urbanista. De qualquer forma nem todo urbanista é obrigado a ter urbanidade.
AXIOMA A CNBB batizou e crismou o MST e agora o olha, descobrindo tardiamente a sua verdadeira natureza, quase como o Bebê de Rosemary.
GLOSA Campo Mourão realiza, amanhã, a oitava edição do Concurso Pinóquio que premia a maior mentira em ‘‘causos’’. Políticos estão fora porque o mentir é próprio à natureza da pessoa e da sua atividade.
EPIGRAMA Sai na próxima semana uma concorrência de fornecedores para o chamado anel de fibra ótica da Copel. Essa atividade é mais um dentre tantos mistérios da empresa por seu escasso retorno apesar do seu significado estratégico.
PLEBISCITO A Sercomtel está mais sujeita a amarras da competição do que a Copel, mas nem por isso o prefeito Nedson Micheleti, de Londrina, deixará de ouvir a população em plebiscito. Se no caso da Copel houvesse a sondagem, o povo, em esmagadora maioria, repudiaria o leilão.
VERDADE Não há relativismo maior do que o das verdades oficiais: num seminário (Motorsport e Desenvolvimento Industrial) o secretário Eduardo Sciarra, da Indústria e Comércio, destacou o fato de o Paraná ter exportado, só no setor automotivo, em 2000, US$ 774 milhões. Esqueceu de clarear que a importação no setor, ante o baixo índice de nacionalização, por vezes supera a exportação.
As verdades oficiais são multifacetadas, poliédricas: refulgem, o que não significa que sejam preciosas.
SPRAY Deputados, mesmo que fiquem minoria ante a ciclotimia da política, deveriam investigar tudo o que diz respeito à Copel: aquela história de pagar ações previamente em juízo a pretexto de evitar gastos maiores (CR Almeida, dispêndio de R$ 90 milhões) e fazer composições como a havida com a DM sob o fundamento de ‘‘acerto de contas’’, como saiu em edital na imprensa. - Também há muito o que explicar no caso dos títulos podres: Tony Garcia afirma que esses títulos de 1917 a 1929 (há, aliás, aos montes, papel pintado até do império por aí em farta negociação no mercado nacional na condição de títulos da Dívida Pública) se encontram sub judice na 4ª Vara Federal em Vitória e que não transitaram, portanto, em julgado. - A auditoria internacional, segundo o mesmo deputado, nega ter confirmado a regularidade da operação. - A Copel sempre foi uma casamata dentro do sistema. Quando Richa e a oposição assumiram, ela dificultava a prioridade do governo, eletrificação rural, por insistir em manter uma padronização caríssima e houve até a batalha ‘‘ideológica’’ em torno de postes de madeira tratada e o de concreto. As fornecedoras, para não perderem a escala do mercado, aceitaram baixar seus preços quase à metade. - Como aquilo se deu num momento de intensa democracia deve-se aproveitar o clima para saber de tudo, inclusive a tentativa de comprometer Ney Braga, que foi rechaçada por ele e a família, para usá-lo no esquema privatizante porque era presidente do Conselho da empresa. - Sobre a negociação de títulos uma empresa, para efeito do Refis, poderia até parcelar em 40 anos seus débitos fiscais. Aí também, segundo o deputado, se trata do Cofins e não do INSS. Enfim a palavra de um contra a do outro e terminado o debate ninguém vai investigar coisa alguma. -
FOLCLORE Quando Lerner lançou o calçadão justificou que era preciso criar uma pílula anticoncepcional para os automóveis. Hoje a cidade está um caos e sem solução possível de médio prazo e ainda por cima a região virou o segundo pólo automotivo do País, também por sua iniciativa.
CROMO Se faltar água, as estátuas se cobrirão apenas de azinhavre, aquele verde doente de difícil remoção.
AFORÍSTICO Quem afirmar que sabe o que vai se dar com a Copel está, antes de tudo, muito mal informado.

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