Luiz Geraldo Mazza
Depois de perder várias batalhas no Legislativo diante da base aliada em pé de guerra, o governador, pouco dado ao confronto, chutou o pau da barraca e tascou o ultimato: quem não está comigo não é amigo e passa a ser tido como inimigo. As coisas não são singelas como aparentam, já que os deputados rebelados não querem apenas recursos para suas bases eleitorais (seria como um maná bíblico num cenário de escassez) como também buscam expressar o pânico das pesquisas regionais que mostram apoio majoritário da população pela defesa da Copel. Essa indicação, por exemplo, assustou Plauto Guimarães pelo menos por algum tempo lá nos Campos Gerais.
Quanto mais demorar a resistência legislativa, agora acompanhada de ações no front judicial, haverá maior acúmulo de energia. Essa a razão do soco na mesa. Para quem como Lerner, acostumado que está a se beneficiar com a metabolização espontânea das crises (vide a bronca dos sem-terra e do circo do acampamento no Centro Cívico, a lentidão nas medidas para purgar a roubalheira no banco oficial), o gesto atípico da ameaça estabelece, agora sim, o jogo da verdade entre os aliados e isola a oposição, condenada a ficar chupando o dedo.
Ontem deu para perceber que alguns deputados já mudaram de opinião contra a venda da Copel e a versão palaciana era no sentido de que contaria, desde logo, com 30 votos. Outro sinal foi o recuo da oposição na idéia de votar repúdio a Ingo Hubert, deixando a matéria para a próxima semana. Ela própria, a oposição, percebendo que perderia a parada, pediu verificação de quórum.
Desde o início das escaramuças lembrei do caso Copel-Sercomtel. Se naquele a maioria teve a ousadia de reverter uma CPI instalada, o que não deve ter sido à brinca, de graça, dá para inferir que algo parecido ocorreu outra vez, pois mesmo que a intervenção do governador operasse como o grito primal na sessão de psicanálise seria insuficiente para efeitos dissuasórios. Esgotado o front político há ainda o jurídico que pode dar nova canseira no governo.
BIZARRICE
A crise governo-base aliada (pelo amor de Deus não usem o santo nome da Copel em vão) virou jogos florais. Se o Greca entra na parada ganha todas. Mas quem deu as cartas foi o Tony Garcia (que todo o mundo dizia ser, como Cyrano de Bergerac, a face bonita do poeta Jamil Snege) ao responder ao governador que não é leviano, mas leve. Levianos são os gordos do governo. E se há coisa que faz mal a narcisista é chamar de gordo.
A esse respeito é clássica a discussão entre dois gays em Copacabana. Um, irado, lembrava que tirou o outro da sarjeta, ensinou-lhe bons modos etc. Ao que o desleal numa frase o desmontou Gooorda!
AXIOMA Guaraci Andrade, homem de gabinete de Lerner já por usucapião (mais de trinta anos), surpreende o deputado Cesar Silvestri jantando com um filho no restaurante Devons e sem qualquer cerimônia começa a fazer cobranças. Ao deputado, constrangido, restou dizer que responderia na Assembléia.
Se essa postura generalizar-se vamos ter brigadas do terror. E como o governo sabe que não há segurança seus componentes podem abusar.
GLOSA Governo estuda ação judicial contra a lei da cultura. Também aí o mecenas só pode ser privado, tal como querem fazer com a Copel.
EPIGRAMA A Universidade Federal do Paraná foi eleita símbolo de Curitiba e gloriosamente esquecida nos anúncios e textos dos 308 anos. Lerner e Cassio Taniguchi tentaram forçar a eleição do Jardim Botânico. Além de esquecida, a Universidade está com suas calçadas tomadas por artesãos que deixam o local com o pior dos aspectos.
SPRAY Qual o custo dos acertos políticos como o da reversão da CPI da Copel-Sercomtel e agora na privatização? Isso não fere a Lei de Responsabilidade Fiscal ou os recursos assistenciais viriam de fontes alternativas? Essa era a reflexão de um sociólogo que assessora um desses movimentos pela ética na política. - Há um grupo de universitários analisando o caráter mutante dos deputados em disputas como essa da Copel: sua conclusão é que a sociedade foi passiva, conformista, no momento da votação da lei e que há tudo para que o governo consiga o que pretende. - Um obstáculo no caminho da privatização é a proposta no Senado (Roberto Freire, do PPS) para que cessem esses processos enquanto perdurar a crise energética brasileira. - Sabe-se que beneficiários do leilão estariam desobrigados de fazer investimentos em geração por causa da desmobilização de capitais na privatização.-
MÁXIMA Um governo que se recusa a ouvir pode dispensar, é claro, o Ouvidor.
FOLCLORE Irritante o privilégio concedido pelo governo FHC ao seu ministro da Saúde, José Serra. Até na novela das nove Porto dos Milagres inserções, em merchandising sobre a campanha da diabetes. Isso sem falar nos espaços dos jornais televisivos. Assim mesmo seu ibope não deslancha. Dias passados uma mulher foi visitar o marido na cadeia e levou uma serra para cortar grades. Ao ouvir a referência ao instrumento, o petista reclamou, com a inseparável visão conspiratória: mais propaganda pro candidato oficial.
CROMO Ao ver o sol na bruma da manhã o político, em estado catártico, murmurou como se rezasse obrigado Jaime Lerner!
AFORÍSTICO Há uma espécie de vaca louca atacando a classe política: amor e desamor ao governo em estágio extremo, pura paranóia.





