A política, atividade das mais ricas e teatrais, lembra e muito com os seus arquétipos aquela teoria de Platão da projeção de imagens na caverna e também a do psicanalista Carl Jung que se referia ao inconsciente coletivo. No Brasil quando se falava em traição sacava-se um nome: o de Calabar que depois com a revisão dos ‘‘novos’’ historiadores a marca se abrandou. Outro da galeria internacional é Fouchê, um engenheiro da intriga, com admirável capacidade de adaptação às mutações da política na França.
Quando o deputado Tony Garcia levantou anteontem na sabatina de Hubert o caso da negociação com títulos para ajustes do Refis sugeriu-se que por trás dessa denúncia haveria o dedo do ex-secretário da Fazenda, seu antecessor, Giovani Gionédis e que busca nervosamente seu espaço na área política. Essa impressão aumentou quando houve o informe de que Gionédis teria se recusado a fazer a tal negociação com títulos ‘‘podres’’, uma das especialidades deste governo, quando lhe apresentaram a fórmula.
Na verdade se Gionédis a rechaçou deveria, por imposição de consciência, levar o fato ao conhecimento do governador. Deve tê-lo feito e também não impressionaria que houvesse decisão em contrário, pois nos lamentáveis fatos da Banestado Leasing, embora informado da gravidade dos desvios, Jaime Lerner promoveu o diretor da área a secretário de Estado.
Não há, pois, um Fouchê que estaria armando essa tempestade da base aliada, mas tão somente o entredevoramento do mesmo grupo no choque de interesses, na disputa de espaços e também de recursos. Como numa peça sartreana (invoquei aqui, outro dia, ‘‘Entre Quatro Paredes’’) não há inocentes na trama: tem-se a impressão de que um projeta no outro as suas malignidades. O inferno, no caso, não é a oposição, numericamente incapaz de ameaçar hegemonias e ainda por cima de ralo talento, mas os ‘‘outros’’ do sistema que são eles mesmos.
Graças a divergências familiares e empresariais, Pedro, numa reação bíblica de um Abel prestes a ser abatido na ira de Caim, derrubou o irmão Fernando Collor do governo, proporcionando uma das mais fortes exibições massivas de civismo, bem mais densa e consequente do que a da ‘‘Diretas jᒒ. Naquele caso as instituições funcionaram sob pressão da opinião pública, o dínamo mais adequado da democracia. E isso pode acontecer agora desde que não estejamos apenas assistindo a um espetáculo de troca de vantagens. Se assim for, ao povo só haverá um caminho: o da indignação e inconformismo.
BIZARRICE
O brasileiro é sadomasoquista: se sai o ranking da pobreza e o País aparece nos últimos lugares não são poucos os que vibram. Houve quem chegasse ao orgasmo ao ver a P-36, a maior do mundo, naufragar como se aquilo operasse como símbolo do País que afunda. Não eram poucos os que celebravam ontem a liquidação pelo Banco Central de quatro instituições financeiras de Curitiba.
AXIOMA Na Internet tem o ‘‘Naked News’’ (Notícias Nuas) onde mulheres bonitas apresentam o noticiário sério e aos poucos vão fazendo um ‘‘strip tease’’. Ontem até uma grávida estava lá, pelada, dando a notícia. O deputado Luiz Carlos Alborghetti, o Cadeia, tem o direito de entrar com uma ação de plágio, uma vez que ameaçou várias vezes – e isso há muitos anos – tirar a roupa, a própria, enquanto sugeria também estar tirando a dos outros.
GLOSA O fato de a Copel adquirir títulos ‘‘podres’’ não a torna desigual num governo que abusou do expediente. Rotina não é pecado, diz o gerente do motel.
EPIGRAMA A Copel é a Petrobras regional. Com uma diferença: suas falhas são menores, apesar de o governo parasitá-la em cima de empréstimos no BNDES e na caução de suas ações para acertar o vexame da compra dos títulos estaduais.
SPRAY No programa nacional do PFL o governador Jaime Lerner vai ter espaço menor do que o concedido a Roseana Sarney, do Maranhão. No episódio a tradução clara da baixa expressão política do Paraná.- Mas o Mauro Salles esteve por aí tratando do assunto, juntamente com a ex-secretária Cila Schulmann.- Roseana está com ibope bem superior ao de Lerner e é apontada como presidenciável fora do Maranhão, situação que não se repete com o nosso governador, que só é badalado aqui e, quando muito, em Santa Catarina, aliás onde são tomadas muitas das decisões políticas.- Se os conselheiros do Tribunal de Contas se pautarem pelas deliberações dos órgãos técnicos, como no caso, ainda que tardio, de Londrina, melhora de imagem como se fosse lipoaspiração.- Ir em cima da URBS na questão do arrendamento de automóveis é ato de higiene até porque só reclamado no calor das campanhas eleitorais.- Uma devassa nos Jogos da Natureza, já iniciada com as providências da Corregedoria (Nestor Baptista) alavancaria o processo de pasteurização dessa imagem.- Olho mais atento nas organizações sociais autônomas daria um vastíssimo material.-
FOLCLORE Coisas dignas dos trapalhões se deram anteontem na Assembléia. Pessoal do governo e aliados engajados, nervosos, acabaram fazendo as rituais confabulações para conter a pressão dos rebelados e da oposição. Nem perceberam que estavam no gabinete do Tony Garcia que no ringue tentava levar Ingo Hubert ao nocaute. Renato Aragão ainda tira o time de campo. É demais.
CROMO Olhamo-nos nos olhos e assim nos vimos refletidos.
AFORÍSTICO Em Adrianópolis o chumbo vai do corpo à alma.

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