Diante da frouxidão do atual governo, não são poucos os que se lembram de paradigmas mais ousados como Parigot de Souza, Jaime Canet Júnior e, claro, Manoel Ribas. Do Parigot tem uma sensacional: convidado a inaugurar a sede do Tribunal de Contas, constrangeu os participantes com um discurso em que, de forma singela, questionava se, para a construção daquele Taj Mahal, se levou em conta algum critério de prioridade.
Certo que os maiores exemplos, até por seu folclore, vieram de Maneco Facão. Ele obrigava, em seu tempo, o Paraná a acordar mais cedo. Chegava na cidade e procurava o delegado de polícia, o inspetor de ensino, a delegacia de rendas. Um dia, na Lapa, não encontrou viva alma no serviço e tascou a frase famosa: ‘‘Berço de heróis, terra de vagabundos!’’
O mais recente foi Jaime Canet Júnior. Sua gestão objetiva, que fez do asfalto subdimensionado um modelo de programa internacional, era marcada pelo agudo senso de decisão. Ao ver a forma – aliás, igualzinha a que hoje se pratica no Paraná e em Curitiba – como se dava a ‘‘terceirização’’ de automóveis, aplicou uma canetada violenta, revogando os contratos. É verdade que o regime era pesado, as eleições indiretas e não havia tanta necessidade de cultivar esse tipo de clientela.
Era duro com a frouxidão e a desobediência: nomeou Gerson de Sá Tavares para o Deto, Departamento de Transportes Oficiais, e pediu-lhe que fosse verificar o informe de que havia um Galaxie no Corpo de Bombeiros. Tavares era militar, coronel do Exército reformado, e sabia lidar com hierarquias, mas houve resistência na entrega do automóvel. Alegava-se que era o CB (sigla do Corpo de Bombeiros) 1, indispensável. Quando algumas pessoas perceberam que a requisição era para valer, pintaram o carro de vermelho e com a simbologia da gloriosa corporação. Tavares sentiu algo estranho no cheiro de tinta fresca e, ao ser informado, o governador deu a ordem: quero o carro aqui, como estava no original, no pátio do Palácio. No dia seguinte, lá estava reluzente o carro em sua versão original, preta, como convém a uma viatura de luxo. A muda de vermelho para preto se deu na madrugada sem troca de requisições e papelada.
CIBERNAUTAS
Hoje a informática está massificada, mas quando do início dessa era qualquer operador de computador posava de extraterrestre, tal era a relevância que fazia de si mesmo. Dá para imaginar o que acontecia na recém-criada Celepar. Um dia, Paulo Pimentel foi visitá-la e os profissionais da área mostravam jogo de palito, de xadrez, o escambau, com o equipamento. Isso, sem falar em especulações sobre viagens à Lua com determinado tipo de combustível. Paulo os ouvia atentamente, até que fez uma pergunta prosaica para quem estava em tão altos vôos: ‘‘Agora me digam em quanto tempo estaremos em condições de processar as folhas de pagamento do funcionalismo.’’ A conversa terra a terra deixou os gênios em crise.
ADAPTAÇÕES Muitas críticas à autora da adaptação de ‘‘Os Maias’’ na Globo. A mais contundente delas é a que afastou o irmão que era amante da irmã e que ela justificou como decorrência da fome de ética no País. Vi um filme do gênio Mario Moreno, ‘‘Cantinflas’’, em torno de uma adaptação de ‘‘Romeu e Julieta’’. A versão era toda rimada com coisas engraçadíssimas, como a de dizer que Montesco (Montecchio) era fresco. Pois os amantes de Verona marcam um encontro no salão paroquial da igreja, o padre um cúmplice do casal. Romeu (Cantinflas) toma chocolate à mesa e Julieta lhe declara da porta, emocionada: ‘‘Romeu não vê que por ti// meu coração bate?’’ O repique cantinflesco: ‘‘Julieta, deixa eu terminar meu chocolate!’’
CHATOS Dalton Trevisan, de natureza arredia, fez uma crônica sobre os chatos. Lembro da primeira linha ‘‘Livra-me, Senhor, dos chatos’’ e depois os caracterizava com expressões fortes na linguagem bíblica: ‘‘eles fazem secar o leite no seio materno’’. Curitiba e sua Boca Maldita são uma siderurgia de chatos: os que fazem previsões sobre a economia, a oscilação da bolsa, os machões (como diz Fernando Pessoa, nunca se viu alguém declarar, em memória, a própria pusilanimidade), os entendidos em propaganda e política, os literários que tiram poemas e contos de um bolso imponderável, os amantes, enfim uma fauna pra lá de variada. Vigaristas dando lições de ética, puxa-sacos buscando posar de exemplos, eunucos querendo passar por Don Juan, fazendo gracinhas para as mulheres que passam como se isso atestasse a masculinidade.
Uma das linhas da fauna é a do cortesão de políticos e empresários. Aparece um nas proximidades e lá vêm as demonstrações de uma intimidade indesejada. Com tanto chato – e sempre nós o somos certamente para alguém – há de existir a hostilidade dissimulada: aquela de um sujeito não entrar na roda em que está um desafeto, real ou imaginário.
Se Guilherme Figueiredo, que escreveu ‘‘Tratado Geral dos Chatos’’, fosse revisto, o autor deveria chegar em Curitiba para um diagnóstico e a variação da galeria aumentaria consideravelmente. Toda a pessoa que dá muita importância a si mesmo é um tipo de chato arrebatador, paroxístico e que, como o portador de mau hálito, não percebe que a esmagadora maioria, mesmo sendo chata, não pode suportá-lo. É uma questão de limite.
TRANSGÊNICOS Pois o Paraná arrebentou cientificamente com essa história da laranja geneticamente modificada e resistente ao cancro cítrico. Aí o chato frasista, metido a crítico literário, deu a sugestão: ‘‘ que tal cruzar o canarinho branco do Dino Almeida com a corruíra nanica do Dalton Trevisan?’’

mockup