Quando se diz que o governo Lerner só pensa ‘‘naquilo’’ não se trata daquilo em que você está pensando, o que acaba significando, semanticamente, a mesma coisa: a obsessão é uma só – a venda da Copel de qualquer jeito. Como a venda da Copel também lembra o sexo forçado, uma forma de estupro, tal a forma do encaminhamento, acaba se inserindo naquilo.
Ontem, à tarde, por exemplo, várias reuniões foram realizadas no itinerário Palácio Iguaçu – Chapéu Pensador (que por sinal fica numa subestação da estatal), uma delas chamando às pressas até o presidente da Assembléia, Hermas Brandão, num esforço desesperado para segurar a base aliada movida a capilé. O problema é que o capilé, que houve no caso da CPI desmontada para examinar a sombria venda de ações do Sercomtel à Copel, parece rarear agora e na medida em que essa resistência interesseira, feita sob a alegação de que é preciso irrigar as bases municipais com recursos, os deputados vão percebendo que a causa da resistência ao leilão é majoritária na população.
O movimento de rua, tocado por políticos na Boca Maldita, não tem força nenhuma. Causas mais dramáticas como a da venda da Vale do Rio Doce mostraram o tom melancólico e inócuo da manifestação, ainda que tenha o mérito de colher assinaturas para um manifesto gigante. A pesquisa da Globo regional, com seus 94% de desaprovação à venda, vale por um milhão de discursos do Nelto Friedrich, que já foi homem-chave da coordenação política de Greca-Lerner.
Em todas as classes sociais a reação é idêntica. No Dia da Água (que Lerner também quer entregar para a iniciativa das privadas) houve um teste feito pela Associação das Mulheres de Negócios e deu 66 contra a venda, 33 a favor. Na medida em que acumula energia o movimento cresce e se consolida. O governo se desespera porque o açodamento tem um sentido: acertar o caixa estourado. Como o poder só pensa ‘‘naquilo’’ a resposta deve ganhar tom obsessivo também, embora quando da votação da lei, que permite a venda, os deputados, que ora se mostram irados e defensores da Copel desde criancinhas, ficaram com o governo.
BIZARRICE
Se o Giovani Gionédis fizer o PSC crescer como o seu escritório de advocacia vai transformar o PFL e o PTB em ‘‘bagrinhos’’ da coligação.
AXIOMA Como está o governador Jaime Lerner? Igual ao Atlético Paranaense até os 40 minutos do segundo tempo no jogo com o Treze da Paraíba.
GLOSA O Paraná teve em janeiro o maior crescimento industrial do Brasil (22%), conforme o IBGE. Cada vez que sai um resultado negativo o Miguel Salomão vem com aquela estória de que se trata de projeções sobre um base estatística de 1980, portanto defasada. Como explicava o Ricúpero naquele conversa com o repórter global: o que é negativo a gente esconde. Ou tergiversa como aqui.
EPIGRAMA Quando esse pessoal que está no governo assumiu a dívida do Paraná era próxima de R$ 1 bilhão e meio. Hoje está em R$ 15 bi. O saneamento do Banestado custou perto de R$ 6 bi. E os outros R$ 7 bi como surgiram?
SPRAY Fala-se por aí num ‘‘arranca rabo’’ entre primeiras-damas: de que país ou de que município? É a especulação do momento. Aqui seria imaginável algo entre a atual primeira-dama, Marina Taniguchi, com a anterior, a Margarita Sansone? - Empresários da área pública andam se queixando que as pressões para livro ouro de campanhas eleitorais já começaram. Açodamento é estilo da moda. Vide a idéia-fixa de vender ativos, os aceitáveis é claro.- Como isso lembra a Copel que tal uma investigação em torno de resultados, contratos, de áreas fora da energia como a da informática e telecomunicações? - O circuito denso de fibra ótica vale uma fortuna e é subaproveitado. Quanto rende o aluguel dessas linhas? - Essas são algumas das perguntas que podem ser feitas durante a visita do dublê de secretário da Fazenda e presidente da Copel, Ingo Hubert, à Assembléia Legislativa, se é que até lá a base não volta às boas com o governo, como fez na CPI da venda das ações do Sercomtel. - Sabem como os deputados se referem ao governo quando está em reuniões como as de ontem? Dessa forma: a P-36 já afundou ou continua boiando? - No encontro de ontem o governo decidiu fazer colóquios, um a um, com os rebelados. Poderão ser classificados numa escala que vai do alto clero aos trapistas, estes os mais parcimoniosos e frugais. - A associação de empresários do Circuito Italiano de turismo já conta com 43 membros, destes 15 igrejas. Perto da Associação Banestado, Colombo, o restaurante Grande Família é a novidade. Chega a reunir por domingo trezentas famílias e oferece à criançada tanques para pesca, gratuitamente. - As Lojas Pernambucanas na Boca Maldita dão uma lição na prefeitura de Curitiba: a parte fronteira da calçada é a única que está efetivamente limpa. Há até diferença de tom.-
FOLCLORE Jaime Lerner vai com o seu cabeleireiro, o Zé Trindade, no Manek’os Bar para tomar um chope. Quem está lá é o engenheiro Caíto Paula Soares que para constranger o cabeleireiro faz um elogio a Lerner: ‘‘O senhor é uma pessoa autêntica. Só o fato de cortar o cabelo numa Vila do Ofício não deixa de ser um ato de doação e de extrema generosidade.’’
CROMO A Patrícia Poeta, linda, no Jornal da Globo, anunciando com um sorriso o degelo da calota polar e o maremoto em todo mundo.
AFORÍSTICO O governo sofre com os aliados e quase nada com a oposição.

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