Luiz Geraldo Mazza
Teste de competência
Lerner passou em dois testes de competência, um de caráter político - o das eleições, especialmente a de Londrina -, outro de sentido técnico-operacional, ao levar a melhor na batalha dos investimentos internacionais, dos quais a das montadoras é apenas 25% dos R$ 5,5 bilhões programados. Corre riscos, no entanto, no desafio do Senado e especialmente de Roberto Requião na questão do Paraná 12 meses.
Não será com apelos ao paranismo, velha falseta da terra - às vezes para proteger mercados e interesses cativos, desconsiderando a competição -, que se resolverá a pendência. Muito menos com posturas melodramáticas e centradas no vitimalismo. Urge não esquecer que o Senado está dando força a Requião, justamente porque o espírito de corpo o protege da cassação do TRE. Daí as seguidas missões, importantíssimas, conferidas ao ex-governador.
Colocados esses fundamentos do problema, pode-se dizer que a competência do governo está em xeque: não é possível que apenas um senador tenha força suficiente para levar o Palácio Iguaçu a uma derrota. Há mediações que podem ser feitas na base da aproximação da bancada federal paranaense, junto a outras lideranças do Senado. Isso sem falar na pressão que produtores rurais, especialmente os pequenos, podem fazer da mesma forma que os prefeitos.
Seria chocante que num momento em que se reclama com alguma dose de razão, que o desenvolvimento do Paraná está centralizado na região metropolitana ou ao longo do eixo Curitiba-Ponta Grossa, se perdesse essa gama de investimentos aos pequenos agricultores, afinal um dos diques para conter a migração - que, aliás, deve se acelerar com as interpretações sobre os efeitos do novo ciclo industrial.
Não se resolve isso tentando chamar Requião às falas ou cobrar coerência de alguém que se mostra irredutível em suas posições ou ainda tentando apontá-lo como traidor dos interesses paranaenses, retórica inútil e que não leva a lugar nenhum. Apenas, portanto, uma questão de competência.
BIZARRICE - Uma inesperada batalha entre grupos étnicos e culturais está mudando a imagem da Curitiba integrada e harmônica: o memorial feito na antiga praça Khalil Gibran, na frente do Passeio Público, para homenagear muçulmanos é um templo iraniano e, portanto, persa. Isso irrita, a um só tempo, os primos árabes e judeus. Os primeiros porque não se identificam com aquela estética e respectivos aparatos e os segundos porque olham iranianos como financiadores do Hezbolah, terrorismo da pesada.
As críticas a monumentos como o cavalo do Largo da Ordem e anjos esvoaçantes parecem curiosidades perto dessa falha de identificação de raízes. No passado, os artistas eram mais atentos a essas questões. Tanto que quando inauguraram a Curitiba-Lapa houve bronca por causa do monumento ao tropeiro feito por Poty, em que se reclamava que a égua-madrinha estava mal colocada no cenário.
SPRAY - Por pouco quase passa o orçamento participativo na Câmara Municipal: 15 a 13 votos. Todos se lembram da forma ríspida como Cássio Taniguchi se referiu ao assunto num debate: ele quis dizer que questões estratégicas não podiam ser deferidas a leigos. Não deixa de ter razão. Só que em política é preciso dizer bem as coisas e de forma politicamente correta. - O orçamento com esse traço não é panacéia como basistas sugerem, mas não deixa de constituir-se numa forma branda de estimular a cidadania. E tudo que for feito nessa direção é válido, desde que sem exageros demagógicos. - Ninguém criou tantos canais de participação na história paranaense como Richa, mas se viu, por causa dos abusos, a uma freiada em virtude do assembleísmo e democratismo, parentes do fascismo configurado nas brigadas. - Das boas coisas decididas destaca-se o compromisso de revisão do Plano Diretor e no mapa de valores imobiliários da cidade. - Quinta-feira um caminhão com carga de explosivos passava serenamente no centro. - O leilão da Malha Sul provou, pela comparação, que não é estapafúrdio o preço estabelecido para a Ferroeste, apesar da chiadeira inconsequente. - Público em maioria numa coleta de opiniões sobre o aborto autorizado para a gestante que teria um filho anencefálico em Maringá se manifestou a favor do juiz. - Prova de que não há mais planejamento no Paraná está no orçamento: emendas de traço demagógico são aceitas reservando um real, por exemplo, para uma escola. Como o legislador finge que legisla, o administrador finge que aceita e não dá a menor bola para as emendas, como aconteceu neste ano.
FOLCLORE - Tião, que foi jogador do Rio Branco, massagista e técnico, tem histórias incríveis, mas uma delas cheira fantasia: olhou o craque Pagão, o que precedeu e depois acompanhou a era Pelé no Santos, e achou que ele não ia longe com as pernas tortas. Três meses depois de uma passagem curta pelo Rio Branco, Pagão era titular da seleção paulista. O pior foi um dia em que tentaram multar Tião, que começou a rir sem parar e, como pedissem explicação, ele esclareceu: nada recebia como massagista e portanto não poderia sofrer a multa.
CROMO - Colagem bonita é a da via crucis da Igreja de Jacarezinho: o pintor Sigaud, comunista, parente do bispo direitista e criador da TFP, botou nas cenas da paixão autoridades como o delegado de polícia, o prefeito, figuras do cotidiano do tempo da inspirada criação.
AFORÍSTICO - Se o público adotasse os critérios do futebol para a política, um desses partidos comunistas seria certamente a segunda opção do eleitor, tal qual se dá neste momento com a Portuguesa. O problema é chegar lá. O PSB prova ser possível.





