Luiz Geraldo Mazza
A décima edição do Festival de Teatro de Curitiba, carregada de conotações de nepotismo e privilégio contratual, como demonstrou a Folha de S.Paulo, tem um concorrente sério: a área político-administrativa do Paraná em termos de circo. Tanto o governo como a oposição superam tudo o que um MoliSre, por exemplo, pensou na devassa do ridículo ou Pirandelo detectou na dissimulação como regra de vida. A bancada situacionista, em busca de compensações para a sua base eleitoral, ameaça o governo e este finge não ouvir.
Temendo, ontem, nova rasteira no legislativo, que fez o governo no melhor estilo das burlas do teatro mambembe? Adiantou o relógio para forçar a inexistência de quórum para votações. Nada disso impediu que Tony Garcia, com o ardor dramático de um Jack Nicholson, embora com a voz adolescente de um grunge, ameaçasse céus e terras. Algaci Túlio, com a elegância de um Lawrence Olivier, em Hamlet, declamava o ser ou não ser de Shakespeare, ele, mais do que nunca, dividido e ambivalente, já não sabendo se é governo ou oposição.
E nada mais ajustado para esse décor do que o ingresso em cena do mais teatral dos nossos políticos, Rafael Greca (ah se Felini o visse em vida junto com sua Margarita certamente os sequestraria para Cine Citta), a sugerir com a sutileza de um intrigante florentino ou um Iago (aquele que levou Otelo, pelo ciúme, a matar Desdêmona) que os que estão contra a venda da Copel nada têm de bem-intencionados.
Como também a oposição dá o seu tom, Valdir Pugliesi, com a serenidade de John Guielgud numa trama shakespeareana do padrão de Rei Lear ou de Timon de Atenas, faz imprecações bíblicas, em linguagem de caminhoneiro, para tentar derrubar o governo pela palavra. Daí se conclui que a despeito do leque de ofertas do Festival de Teatro, promovido por gente do governo como se o governo fosse, nenhuma apresentação superará as da nossa política, medíocre em nível de sublimidade, mais forma do que conteúdo.
E em tudo isso que somos nós, jornalistas? Não apenas espectadores, mas participantes desse picadeiro, como também pessoas comprimidas no inferno sartreano de Entre quatro paredes e o público de um modo geral com aquela bolinha vermelha de palhaço no nariz a tudo assistindo com a cara de bobo que paga toda encenação.
BIZARRICE
Stalin fez a pergunta clássica quando propuseram a mediação do Sumo Pontífice na Segunda Guerra Mundial: quantas divisões têm o Papa? É o que muitos perguntam diante do exagero do noticiário em torno da adesão do Giovani Gionédis ao Partido Social Cristão como se fosse ameaça a tudo ou tivesse votos quando não os tem sequer como os do vereador Mauro Moraes, seu líder.
Como o peixe é o símbolo do PSC espera-se do Gionédis que faça algo como a multiplicação. Pelo menos em dois como a logomarca da Hering.
AXIOMA Na primeira quinzena de abril a polícia civil anuncia greve, o que já é encarado como um caso extremo de redundância.
GLOSA Uma figura do governo, quando soube do afundamento da P-36, lamentou: que pena não ter acontecido por aqui, já que seria mais uma graninha, via multas, da Petrobras!
EPIGRAMA Que faziam os deputados e senadores antes do advento das CPIs? De tudo, só que nada investigado por CPIs.
SPRAY Está aí uma iniciativa que merece elogio: sindicalistas ligados a CUT promovem hoje, no auditório do Sindicato dos Telefônicos, o dia inteiro, uma jornada em busca uma saída coletiva de geração de trabalho e renda para os demitidos banestadenses.- Mais eficaz do que discurso e agito de calçada (também importantes) é indispensável essa ação solidária.- Dá para ver pelo temário:Trabalhador e economia solidária, O crédito e a economia solidária, Complexo Cooperativo, Economia solidária no campo, O Fat e a economia solidária, A Universidade e as incubadorasetc.- Uma sugestão: que tal voltar a estudar o padre Lebret com seu Movimento de Economia e Humanismo? Em 1963, um ano antes do golpe, Ney Braga teve em mãos o primeiro plano de governo feito pela equipe que seguia a filosofia do grande dominicano. Uma das estratégias era alfabetização em massa, conforme o método Paulo Freire. Imaginem se os milicos iriam deixar.- Fala-se numa escalada de grilagem de terras em Campina Grande do Sul: se fosse ação dos sem-terra haveria mais barulho do que silêncio.- Outra coisa: a devastação da Mata Atlântica, nas barbas da Polícia Florestal, logo depois da divisa com São Paulo em direção a Curitiba (4 km e meio) é chocante como se não tivéssemos leis.- A tal poda da Assembléia e dos seus jardins implicou em derrubada de frutíferas como maracujá, primavera, jacarandá mimoso, cerejeira do Japão, paineiras, aroeira falsa. Se não fosse o alerta a devastação seria maior.- Xerox de jornais de Maringá, de 1998, badalando Luis Antônio Paolicchi e o apontando como assessor de prefeituras, sob recomendação do Tribunal de Contas, circulam por aí. Um dos que distribui é o deputado Ribas Carli.-
FOLCLORE Deputados rebelados da base aliada queriam aprontar outra para o governo ontem na Assembléia, mas os engajados palacianos mexeram, de novo, nos ponteiros do relógio para esvaziar a sessão. Um deles foi realista: afinal eles não metem a mão apenas em ponteiros de relógios.
CROMO O sonhador viu a flor Dama da Noite fazendo trotoar no jardim e, desconsolado, bebeu o vegetal Copo de Leite.
AFORÍSTICO Não temos polícia, nem fiscais, nem governo. Não é fim da picada e sim a picada, a trilha, do fim.





