Luiz Geraldo Mazza
Não é incomum na fauna política a figura do empolgado que dá entrevistas, de forma compulsiva, e consegue anestesiar-se, perdendo a noção do que está falando. Essa síndrome ocorre amiúde com profissionais de rádio e televisão e que de tão preocupados com a sua aparência, a forma como se dá o desempenho, perdem o senso de atenção relativamente às respostas dos entrevistados e acabam fazendo inquirições já devidamente clareadas.
Quando o político é dublê de apresentador o risco aumenta e isso se deu, neste fim de semana, com o senador Alvaro Dias ao fazer declarações sobre os clubes que ele teria conseguido emplacar na Copa Brasil, o que afirmou ter ocorrido tanto com o Malutrom, o que já era uma injustiça por não se poder compará-lo com o Paraná, campeão da segundona no ano passado, como depois com o próprio alijado e que retornou, graças aos ingentes esforços do parlamentar paranaense e que é também o presidente da CPI da Câmara Alta.
Como é possível, sob o ponto de vista ético, Alvaro Dias mediar interesses de clubes paranaenses junto à CBF e ao mesmo tempo manter-se fiel à sua condição de dirigente de uma CPI sem aquele mínimo distanciamento que deveria ser observado? A preocupação em faturar o episódio politicamente, o que poderia render-lhe perguntas sobre o Londrina, de sua região de origem, foi de tal forma dominante que o ex-governador paranaense sofreu um lapso ao esquecer que qualquer pedido que apresentasse ao Ricardo Teixeira, presidente da CBF, um dos alvos óbvios da CPI, significaria comprometimento. Para ele, que faz do marketing da moralidade a bandeira maior, um escorregão sério, imperdoável, com um detalhe: não se trata de coisa imperceptível ou sutil.
Fica, ainda, em função de tudo isso, a presunção cética de que nada vai acontecer de efetivo em termos de devassa necessária, aliás do futebol.
BIZARRICE
No meio do martírio de Covas, o âncora da Globo, condicionado pelo noticiário que falava de água no pulmão do paciente, dirigiu-se à sua repórter que estava na clínica pelo nome de Edema. Só faltou a repórter retrucar devolvendo a palavra ao colega pelo nome de Derrame.
AXIOMA O ex-prefeito de Maringá Jairo Gianoto deu o caminho das pedras para o seu colega de Londrina, Belinati, também cassado: um e outro nada têm a ver com desvios e corrupção e, sim, os seus respectivos secretários. Espera-se que estes também mostrem a sua versão sobre os acontecimentos. Só falta agora o Tribunal de Contas ratificar a jurisprudência, pois no caso de Londrina firmou a tese da responsabilidade delegada, a dos secretários, exclusivamente, como se o Executivo fosse de corpo fechado.
GLOSA Cícero Catani, proprietário do hotel-fazenda Vinhas de Bocaiúva, apresentou domingo, pela primeira vez, em cardápio do restaurante Sabores do Campo a carne de carneiro, fruto de cruza entre o hampshire down, originário da criação de Maurício Fruet, e o Santa Inês, que ganhou de presente de Aníbal Khury. Observou que a sabedoria do Buda evitava a frase atribuída ao mau sucesso em política: a de que foi buscar lã e saiu tosquiado, já que os ovinos de sua criação eram deslanados.
EPIGRAMA Correu por aí, célere, a notícia de que a Corregedoria da Polícia Civil iria pedir dos seus integrantes cópia do Imposto de Renda. Especulação deu margem a muita ira com alguns policiais querendo discutir a exigência em recurso judicial. Quando a CPI passou por aqui ficou visível, em alguns casos, que os salários pagos não justificariam sinais exteriores de riqueza.
SPRAY O senador Roberto Requião ingressou com várias ações por crime de calúnia, injúria e difamação contra o ex-deputado Hélio Duque, do PSDB. Num deles o indiciado pleiteou a exceção da verdade, o que foi aceito por um julgador do STF que determinou o julgamento da pendência em Curitiba. - Mais uma vez o processo eleitoral de 2002 fica sob o risco desse contágio, já que ao Hélio Duque não restará alternativa senão a de provar o que disse. - Também o senador Alvaro Dias fica sujeito à exploração dos incidentes de Maringá como Lerner em relação a Londrina. - Outra convergência: na Justiça Federal corre um processo do perdão de uma dívida de empreiteiros no governo Alvaro Dias e na qual estão indiciados diretores do Banestado e no de Lerner há os episódios recentes da Leasing e da Corretora. - Ministério Público está encontrando coisas cabeludas nas investigações do Hospital do Câncer e também da Liga que respalda a instituição. Uma das distorções: pagamento elevado de voluntários.-
Um artigo do presidente da Copel, Ingo Hubert, na Gazeta Mercantil, em que defende a desestatização está sendo respondido com o uso dos próprios argumentos do dublê de secretário e presidente de estatal. Corre a resposta nos meios técnicos e é motivo de comemorações.-
FOLCLORE Saiu um livro sobre o puxa-saquismo como arte. Das nossas estórias palacianas uma revela a capacidade de resposta do bajulador: o governador, irritado com os excessos, deu-lhe um chute no traseiro, mas o personagem não se deu por vencido replicando: Não é exagero, governador, mas a sua canhota está mais afinada e forte do que a do Rivelino.
CROMO Qual a irradiação possível dos cabelos como fonte de carícia? Lembro de um texto de Roger Bastide A psicanálise do cafuné editado em Curitiba.
AFORÍSTICO As CPIs laranja não deixam suco e nem casca. Prolixidade pode ser também lixo em quantidade como força de expressão.





