Já não há a quem apelar para botar ordem no setor de segurança: agora a Polícia Militar metralha estupidamente um carro que conduzia três estudantes em Curitiba. Quando o agente da lei é o próprio terror, o que fazer?
Na história recente da PM há situações muito parecidas com essa e em casos primários de técnica de abordagem feita de forma selvagem e desastrosa. Só um oficial responde pela reincidência, dois homicídios, praticados como se todos, diante da paranóia reinante, estivessem à beira do embotamento.
O carro dos estudantes foi atingido com tal fúria, nada menos de 22 disparos, que dava a impressão de que seus autores se achavam numa missão santa como, por exemplo, a de cercar e prender aqueles que comandam por aqui o crime organizado, denunciado com riqueza de detalhes na passagem da CPI federal e que já redundou em dezenas de execuções como queima de arquivo. Essa também a evidência de que os que agem à margem da lei contam com garantias que uma espécie de ‘‘instituição’’ alternativa, mais eficaz que a formal, lhes concede no desenvolvimento de suas atividades.
Ontem, à tarde, em Londrina, a sociedade mobilizada também contra essa forma de banalização da violência esperava do secretário José Tavares algum sinal de tranquilização, uma indicação de que há ainda alguma esperança. Não há e isso está patente na ocorrência de Curitiba. Se as vítimas não se mobilizam, como felizmente agiu em tempo certo, e aí envolvendo a Polícia Civil, a família Zanella, teríamos uma farsa a mais para transformar um estudante assassinado num delinquente como poderia ocorrer na violência mais recente.
Falta pulso, autoridade, para enfrentar as patologias modernas. Desconfia-se que os critérios de recrutamento e ‘‘formação’’ de policiais civis e militares abandonaram as normas mínimas de rigor. Depois da tempestade da CPI federal, que provocou a derrubada da cúpula civil, esperava-se que houvesse mudanças para restituir o perdido sentimento de segurança da população. Elas não vieram. E o caos, que impera na parte financeira e administrativa, atingiu a segurança em escala máxima.
BIZARRICE
A política brasileira está mais para trombadinhas e trombadões, como se percebe no dia-a-dia. Mas agora o presidente FHC introduziu entre os seus adversários os trombonistas isolados como ACM e o caturra Requião. Se o calor político persistir abrasivo o que vamos ter é casos de trombose.
AXIOMA Uma pesquisa na CBN-Curitiba sobre a Copel ouviu 77 pessoas via Internet. 79,2% contra a privatização, 20,7% a favor. No mesmo dia o cientista Pinguelli Rosa disse que vendê-la é uma loucura.
GLOSA Uniandrade não queria fazer funcionar o terceiro ano de arquitetura sob a alegação de que atender poucos alunos era antieconômico. Quando os estudantes contrataram advogado ela prometeu que providenciaria o ingresso desses alunos em outra instituição. Anteontem no Jornal Nacional apareceu o caso de uma instituição que recebeu, quatro anos seguidos, o conceito ‘‘D’’ e o seu dirigente, irado, desafiou as autoridades a fecharem o curso de direito, no Rio. Vai ver é antieconômico melhorar o curso.
EPIGRAMA E quem será o sósia do governador ao lado do Jairo Gianoto e do Luis Antônio Paolicchi na foto que saiu em vários jornais?
SEMÂNTICA Se você ouvir que há zapatistas no Brasil preste bem atenção porque podem estar se referindo a sapatistas e sapatões.
SPRAY Porta arrombada, tranca de ferro: enfim saiu o relatório do Tribunal de Contas sobre Londrina. Calcula-se que aplicações irregulares cheguem a perto de R$ 100 milhões.- Há uma emulação, como todos sabem, aliás em muitos aspectos saudável, entre Londrina e Maringá. Aí a malandragem, que é minoria, torce para que o rombo seja maior numa do que em outra.- Do que se soube no caso de Maringá entrou gente da Capital no pedaço para a drenagem da grana. Isso prova que em irregularidades está consolidada a integração norte-sul.- A sociedade organizada e o Ministério Público, em ambos os casos, saíram na frente, muito antes do órgão que deveria controlar tudo isso, o Tribunal de Contas.- Fato curioso ocorre neste momento: todas as usinas do Paraná, tanto as da Copel como da Eletrosul, estão com mais de 90% da carga, enquanto se dá exatamente o contrário na maioria das outras do país que sofrem na estiagem.- - A malha urbana de Caiobá e Guaratuba está sendo destruída pelo transporte pesado e o uso do itinerário do ferry-boat. Prefeituras não têm recursos para enfrentar esse tipo de anomalia. Uma campanha foi deflagrada sobre o tema.-
FOLCLORE A ‘‘lírica’’ (se é que se pode assim denominá-la) funk é dominadora: no Carnaval, em Guaratuba, o Nelson Justus, lá no alto do carro de som, entoava as marchinhas antigas (‘‘a jardineira’’, ‘‘mamãe eu quero’’) e a massa partia para o ‘‘tapinha não dói’’, ‘‘tá tudo dominado’’ acompanhando a banda. Se o Nelson fizesse escolhas tão corretas na política e na gestão dos transportes tudo estaria às mil maravilhas. Ele seria um romântico. Dança da garrafinha, da bundinha, do ‘‘segura o tchan’’ perto do que a funkmania criou é cantiga de roda ou de ninar.
CROMO Nas conchas, no hipocampo, caramujos, sargaço o receio da toxina.
AFORÍSTICO E se há luz lá no fim do túnel bem que pode ser o cigarro de maconha do crime organizado.

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