Luiz Geraldo Mazza
Alvin Toffler foi um dos formuladores dos fundamentos da nova sociedade centrada na tecnologia e na inteligência. Sua primeira obra O choque do futuro abafou e isso até soa como um contraponto à assincronia da sociedade brasileira que parece dominada pelo choque do passado, cuja expressão mais forte está na questão da terra e da utopia regressiva do MST.
Na política, seus agentes costumam apostar na amnésia do eleitor. E já ficou demonstrado até em vídeo que Lerner disse ter preferido morrer a vender a Copel. Na Gazeta do Povo de 4 de fevereiro de 1996, página 5, Lerner diz que é um social-democrata e por essa razão não estou aqui para torrar o patrimônio público. Explicou o que pretendia: transferir o excesso de ações ordinárias em poder de governo num fator multiplicador de investimento. Só que boa parte desses recursos, desde o primeiro de R$ 160 milhões, foi usada para acertar problemas de caixa, despesas de pessoal, de custeio.
O desespero do governo para leiloar a Copel o quanto antes e justamente para desatar o nó financeiro que o estrangula é claro, meridiano. Como isso se dá num tempo de descobertas de atos de corrupção (Banestado, o alude de lama de Maringá e Londrina) e de impaciências da base parlamentar (muitos em busca de vantagens como moeda de troca) há um background que pode facilitar ações da sociedade, mais do que essa oposição incompetente e de ocasião, para levar a novela da privatização para 2002, ano eleitoral. É verdade que a venda do Banestado também se deu em meio à campanha municipal, o que no entanto não tem a potencialização de um referencial como a nossa maior empresa.
O front mais adequado do que o político é o judicial. Como joga na emoção, a oposição pensa em impeachment de Lerner, o que é de uma burrice próxima da sublimidade por sua notória inviabilidade. Para a oposição o melhor é deixar Lerner continuar com o seu estilo de governo para acumular energia e surgirem mais atos comprometedores, isso sem falar na quebra consumada do Estado.FUNKEIROS
Naquele dia, claríssimo de barganhas, quando os deputados derrubaram oito vetos de Lerner, poderiam perfeitamente cantar as palavras de ordem da música primata do funk como estou maluco!, tá dominado e, em especial, o tapinha não dói. Pra quem é esnobado e leva chute no traseiro, mesmo que de forma alegórica, o tapinha, igualmente simbólico, não dói.
RICHA Considero Richa o mais democrata dos governantes que tivemos nos últimos 50 anos. E o foi tanto que deu todos os espaços aos basistas e só recuou quando percebeu que estavam confundindo democracia com democratismo e assembleísmo. Um Lerner, um Requião, um Alvaro Dias jamais teriam peito de levar a denúncia do secretário Belmiro Valverde, Planejamento, contra Erasmo Garanhão, da Fazenda, de que havia pago comissões indevidas em empréstimo internacional ao exame do Legislativo e aberto à televisão. Discute-se se agiu corretamente ao sacrificar o denunciante, certamente a maior figura pública do Paraná em visão organizacional e estratégica.
Usei a frase é preferível um turco lento a um truculento para referir-me a autoritários como os seus sucessores que anularam a oposição. E ela, com apenas dois deputados mais atuantes, Airton Cordeiro e Luis Alberto Martins de Oliveira, era mais forte do que todo esse bloco que está aí e rosna, mas pouco avança.
Pois o Richa repetiu, anteontem na CBN-Curitiba, que fui o seu primeiro chefe em sua carreira de jornalista e a cada vez que ele repete isso o Décio Macedo, mineiro-maringaense, hoje curitibanizado, faz blague dizendo que já que lhe ajudei no primeiro emprego ele podia ter me dado o último no Tribunal de Contas, órgão que acho cada vez mais dispensável como os fatos o estão demonstrando.
CONTÁGIO Pelo jeito a síndrome Custódio da Silva, o vereador que preferiu ser deputado para fugir da acusação de que rachava a grana de assessores, pode estourar na Câmara Federal, atingindo um destacado parlamentar. Na realidade se não prevalecesse um clima de hipocrisia, farisaísmo, e tais atos fossem cobrados a massa de indiciados iria assustar.
A malha corporativa defende o que ela própria considera pecado venial. Se a Receita Federal investigasse, de forma complementar, à cada denúncia do gênero, o leão iria urrar de satisfação e o povo, que anda ansioso para ver a impunidade desmascarada, o acompanharia.
PAULA SOARES Hoje é o centenário de nascimento de Francisco Paula Soares, médico militar, mestre universitário e político tempo integral. Chamei-o nos anos setenta, quando estava entre nós, como o estivador da concórdia, ainda que pertencesse à, por vezes intolerante, União Democrática Nacional. Apelidado de coronel Botinha revelou, na condição de seu assessor, um dos maiores filósofos e cientistas políticos brasileiros, o norte-paranaense Fausto Castilho, que geriu a Biblioteca Pública, é dos quadros da USP-Unicamp e surpreendeu meio mundo ao retornar da Europa e dar cursos que assisti sobre a dialética hegeliana e a fenomenologia de Heideger no fim dos anos cinquenta.
É preciso lembrar dessas figuras, não para idealizar o passado, mas mostrar que nada justifica que tenhamos hoje, em termos comportamentais e éticos, na chamada classe política, referências que nem de longe podem ser cotejadas com esses personagens e levem o público, por suas ações e omissões, ao horror, de forma generalizada, a uma fauna indispensável à vida democrática.





