Luiz Geraldo Mazza
Já vai longe o tempo em que o Carnaval era motivo de caricaturas políticas, charges e de crítica de costumes. Dá para imaginar o bem que faria a todos esse exercício em cima dos acontecimentos nacionais como os decorrentes das batalhas entre os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho que só pelo que disseram um do outro na tribuna parlamentar mereciam a cassação por evidente quebra de decoro. Isso aí, perto do caso Barreto Pinto, cassado por ter sido flagrado de cueca, é brincadeira.
Mesmo os fatos regionais caberiam nessas charges, pois os nossos políticos, por sua excelsa mediocridade, dariam boa contribuição. O fato é que a festa, especialmente a massiva, para turista ver, não mais comporta essa hipótese que ficaria, no máximo, restrita aos chamados blocos de sujos, última expressão de vitalidade nos quadros de críticas, individuais ou de grupos.
De outro lado as marchinhas, que davam o tom dominante, especialmente nos salões ou em auditórios, é que mais expressavam as glosas do dia-a-dia. O Cordão dos Puxa-Sacos (de 1946, tempo de redemocratização pós-guerra) é exemplar e retoma inclusive a ação dos bajuladores de períodos históricos anteriores como o expresso no ato dos que queimavam a mão na ânsia de servir o chimarrão a seus chefes e decantada nos versos Iaiá me deixa subir essa ladeira// que eu sou do bloco dos que pegam na chaleira, esta de 1909. A caricatura com os áulicos, como hoje são chamados, está bem expressa num dos sucessos de muitos anos: Lá vem o cordão dos puxa-sacos// dando vivas a seus maiorais// quem vai na frente // vai ficando para trás// e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais//.
Se havia crítica também sobrava adesismo como aquele em favor de Getúlio Vargas (O retrato do velho) em sua volta ao poder pelas eleições. Bota o retrato do velho outra vez// bota no mesmo lugar// o sorriso do velhinho// faz a gente trabalhar//. A figura patriarcal de Getúlio, em especial na ditadura, era cultivada ao extremo. E até no esforço psicológico da Segunda Guerra Mundial ele era incluído no mesmo dos patamar dos chefes de Estado. Quem é que usa um cabelinho na testa?// E um bigodinho que parece mosca?// Só cumprimenta levantando o braço// Eh, eh, eh, palhaço!// Quem tem o G que representa a glória// Um V que ficará na história// E um sorriso que nos dá prazer// Eh, eh, eh vitória! Pelo exagero da metáfora dá para perceber o quanto se engajavam os músicos e letristas nas artes do adesismo.
O tal sorriso do velhinho, apregoado nessas duas produções, decorria da inegável empatia provocada pela figura do ditador e naquele retrato em que ele aparecia sorrindo em repartições públicas, casas comerciais ou particulares com a máxima embaixo O Brasil confia no Chefe da Nação. Era mais do que um chefe de Estado, corporificava a própria Nação, o que se dava em comum com Salazar, Franco, Stalin, Hitler, Mussolini e tantos outros.
ESPANTO
Se a crise regional é tanta, como todos dizem, como explicar ainda, a despeito do alegado caos, o interesse de Requião e Alvaro Dias pelo governo?
ALEGORIA Houve um tempo em que os blocos de sujos exerciam o papel mais crítico do Carnaval de rua como também isso já se deu nos famosos desfiles dos calouros da Curitiba universitária dos anos 40 a 50. Hoje a esperança fica para depois da Quaresma, na véspera da Páscoa na hora de malhar Judas. É uma forma legítima de o povo se expressar. O duro é que os chefes de Estado andam, ao lado dos oposicionistas, cada vez mais gordos e achar recheio para corpos adequados às lojas Varga não é fácil.
Imaginem o drama de populares de Ivaiporã que desejassem malhar um Judas com as características do Orlando Pessuti. Dá para concluir que é bem mais fácil reformar a Constituição do que acertar esse tipo de figurino.
CONCURSO A disputa pelo 1º Cartório de Protesto de Títulos de Curitiba, que originariamente era do Maravalhas e cujo último titular era o Sílvio Name Júnior, se for estabelecida para valer, sairá no mínimo no Couto Pereira.
PENDÊNCIAS Não bastasse o drama mensal para fechar a folha de pagamento do funcionalismo estadual, há pendências que ameaçam todos os projetos da gestão Lerner, como a resistência ao pagamento da Previdência pelos já aposentados (a regra nacional pode servir de paradigma) e especialmente por aqueles que alcançaram 70 anos, já beneficiados por lei anterior. Tudo isso obriga a revisão de cálculos atuariais. Além disso, há os precatórios de bilhões como o da CR Almeida e tantos outros, inclusive os de alimentos, a revisão de aposentadorias e pensões com trânsito em julgado. O plenário do Tribunal de Justiça está muito dividido em relação a esses assuntos.
CLICHÊS Malhar funcionário público e caricaturá-lo como um ocioso sempre foi um dos macetes carnavalescos. Um dos clássicos é Maria Candelária é alta funcionária// saltou de pára-quedas// caiu na letra Ó// Ó Ó Ó Ó// Começa ao meio-dia// coitada da Maria// trabalha, trabalha// trabalha de fazer dó Ó Ó Ó// Às duas vai ao dentista// às três vai ao café// às quatro vai à modista// às cinco bate o ponto e dá no pé// Que grande vigarista que ela é... Outra é essa: O Brasil tem muito doutor// muito funcionário// muita professora// Se eu fosse o Getúlio mandava// metade dessa gente pra lavoura...





