Luiz Geraldo Mazza
Só faltou confete e batucada no carnaval cívico de ontem na Assembléia Legislativa: nunca os deputados foram tão independentes ao ponto de derrubarem oito vetos do governador e, ainda por cima, lançarem a obrigação de o governo apresentar relatório dos seus gastos, mensalmente. Votação esmagadora de 28 a 8. Nosso Legislativo se dá à compulsão da opereta bufa, como já fez inúmeras vezes como naquela em que ameaçou o Apocalipse do Palácio Iguaçu com a CPI das ações do Sercomtel adquiridas pela Copel e depois voltou atrás.
Parodiando Máscara Negra do Zé Keti, a maioria poderia entoar o refrão: Vou vetar-te agora// não me leve a mal// hoje é Carnaval!
O governo tem o que negociar com os deputados como havia de sobra no recuo da CPI? Parece que não. Ele aparenta estado terminal, embora os áulicos o vejam com saúde de vaca premiada. Afinal vaca premiada em tempo de vaca aloprada é de um valor inestimável. Ir ao presidente da República e voltar com aquela bobagem da campanha do José Carlos Martinez de um trem saindo de Paranaguá e chegando em Antofagasta, no Chile, é de arrepiar. Percebe-se que o Carnaval também chegou no Executivo, no estadual e no federal. O delírio é a regra.
A obrigação de apresentar os gastos é um imperativo moral. Lembro que Bento Munhoz da Rocha Neto o fazia com regularidade: o povo acompanhava o deve- haver do Poder Público, mensalmente. É um repique diplomático dos deputados à negativa do Palácio Iguaçu em repassar automaticamente o duodécimo dos 2% que cabem ao Legislativo. Em meio a um clima de chantagens, essa disposição é de uma sutileza digna das democracias mais avançadas.
BIZARRICE
Antes sob Lerner, Curitiba decalcava a Europa. Agora, no climax da mundialização, no caso da lei do silêncio e da lei seca, passa a copiar a Fazenda Rio Grande ou melhor, o ex-prefeito Cartário Júnior
MAIS FARSA Só falta sair agora o Ibope do governador para que os ocupantes do Palácio comecem a retirada. Engessado num nó financeiro sem saída, ao governador só resta ir à Ilha das Cobras para repousar, o que aliás tem um forte significado alegórico pois aquele belo recanto do litoral já foi um presídio, mas também área de quarentena para o gado indiano que o empresário Garcia Cid corajosamente importou, apoiado por Moisés Lupion, e que permitiria, anos depois, na gestão Ney Braga, a melhora dos nossos plantéis pela ação do secretário da Agricultura, Paulo Pimentel, por isso chamado de vaqueiro alegre com inteira justiça.
Isso tudo passa na Quarta-Feira de Cinzas junto com a dor de cabeça. E volta a seguir a Assembléia Legislativa ao ritual da submissão. Só não dá para garantir o pagamento do funcionalismo, o que engendraria novas cefaléias.
E para nós, o público, vale novamente lembrar da metáfora de Máscara Negra dirigida à massa, à plebe ignara: Quanto riso! Ah, quanta alegria// mais de mil palhaços no salão... Somos os palhaços do salão, alguém duvida?
Continuaremos tratando o governo e deputados com delicadeza e até com alguma reverência, por quanto tempo? Dia chegará em que não será viável participar, por ação ou omissão, dessa inominável farsa.
AXIOMA Se o prefeito Cassio Taniguchi pretende fazer da remodelagem da Praça Osório um exemplo da Curitiba Social com a reserva de espaços sofisticados para engraxates que tire o cavalo da chuva. Isso é assistencialismo barato. Muito lustro, pouco ilustre.
GLOSA Dengue já foi sinônimo de faceirice. Com a volta da endemia, predomina o sentido da patologia sobre os requebros. O requebro hoje é de febre mesmo.
EPIGRAMA Há pessoas do governo com vacas na Argentina, agora bloqueadas de circulação por causa da aftosa. Uma vez um semanário de Curitiba publicou a quadrinha com o dinheiro da propina// compra vacas na Argentina. Será que era referência aos criadores internos?
SPRAY A síndrome da queda (ou do risco) de edifícios, depois do episódio do Atlântico em Guaratuba, está levando proprietários ao pânico exigindo reforço em casos de fissuras. - Editorial desta Folha assinado pelo ex-senador e diretor-superintendente José Eduardo Andrade Vieira foi elaborado no mesmo dia em que o jornalista Abdo Aref Kudri, presidente do sindicato de proprietários de jornais e revistas, colocava-se também contra a forma como se dá o processo de privatização da Copel. - Se as pesquisas já demonstraram que a esmagadora maioria da população é contra o leilão nos termos em que está, afinal, como sempre, na obscuridade da Caixa Preta, pode ser retomada a boa idéia do plebiscito autorizatório ou não para a privatização. Suspeitas podem ser removidas como o óleo da Petrobras dos rios da Serra do Mar. - Hoje é dia de evasão em massa para as praias e para o interior. As estâncias climáticas e hotéis fazenda estão lotados. - Dieese continua desmistificando indicadores oficiais: o mais recente é sobre a indústria da alimentação que apesar do crescimento nas vendas teve queda superior a 6% nos empregos.
FOLCLORE Eu sou do tempo da Companhia Força e Luz, o Partidão é contemporâneo do lampião de gás, mas, como em todas as outras, também estamos nessa! O anarquista Elísio Marques, no movimento em defesa da Copel.
CROMO No ventre da montanha de carvão dorme silente o diamante.
AFORÍSTICO Após o Carnaval, declamemos todos E agora, José? de Drummond.





