Se Stanislaw Ponte Preta fosse vivo faria de Curitiba seu cenário predileto no seu Festival de Besteiras. As coisas aqui, no terreno do absurdo, dão-se agora em minutos e horas. Lerner dá uma entrevista na CBN nacional e diz que aqui não há problema carcerário (tivemos duas fugas, ano passado, com diferença de menos de um mês com prejuízos materiais) e que somos modelares com os presídios industriais (só há um, em Guarapuava). Incrível é que o governador acredita no que fala, certamente baseado nas informações palacianas. É capaz, como sugeriu o jornalista Fábio Campana, de acreditar que está mais magro.
Transformamo-nos numa siderurgia de besteirol, este sim o maior feito do novo perfil da economia desenhado pela gestão atual. O secretário de Segurança, José Tavares, baixa um édito para prevenir ações da torcida organizada que é um primor de ilegalidades e irracionalidades. E agora para atingir um raio maior, e conter a violência, quer não apenas o toque de recolher como a imposição da lei seca etc. Preocupado com aspectos jurídicos, já que se sugerira que o fechamento de bares se desse em determinados bairros, Tavares não admite ferir o princípio da isonomia e impor a ordem em toda a cidade.
A praia em Curitiba, como lecionava Paulo Leminski, é o bar. E o Tavares, embora a sua aparência com o baixinho da Kaiser, quer uma lei seca, total e irrestrita. Arrumar a Polícia, que deveria ser a sua prioridade, ainda mais após o furacão da CPI que expôs as vísceras do sistema, é um projeto ainda em lento andamento. Badernas como as das torcidas mancomunadas têm provisão nas leis brasileiras: tudo previsto, e de fácil enquadramento, razão pela qual a Polícia Judiciária não pode se mostrar perplexa diante de um fenômeno psicossocial que não tem, por exemplo, a complexidade de uma ação terrorista de fundo político ou de uma articulação como a dos ‘‘comandos’’ que operam, há muito tempo, nos presídios.
É um insumo para o fascismo essa visão anárquica, decorrente da impotência das autoridades para manter a violência sob um mínimo de controle. Como é que quando há um fato, institucionalmente traumático e atípico, como o do atentado à PIC, as providências ganham velocidade? Prisão e processamento dos bárbaros uniformizados, identificação das gangues infiltradas, e pronto. Ademais quem deve pagar pelos prejuízos ao patrimônio público é o próprio governo.
BIZARRICE
O governo agora mente com extrema solenidade, como se isso viesse a conferir majestade e a imponência de um acórdão à empulhação
AXIOMA A folha de pagamento do funcionalismo é o corte epistemológico, a cada mês, no delírio triunfalista. A corrida atrás das fontes possíveis mais parece um filme de perseguição do Carlitos no cinema mudo: aquele, especialmente, do Chaplin sem saber como livrar-se da porta giratória do hotel que o prende.
GLOSA Postos de gasolina centrais de Guaratuba fecham à meia-noite. Isso não impressiona; os hotéis não funcionam nas férias de julho...
EPIGRAMA Global Telecom distribuiu sorvetes na praia. Teve uma serventia bem institucional: batendo-o na testa, o usuário teve a cabeça refrescada dos sofrimentos na tortura das ligações e das deficiências.
ATO FALHO O general Ítalo Conti, no 56º aniversário da tomada de Monte Castelo na sede da Legião do Expedicionário, leu o texto épico sobre o feito sem citar o nome do autor, Joel da Silveira, correspondente de guerra.
SPRAY Neste mês há praticamente mais dois dias úteis para o governo estadual sair do sufoco e pagar o funcionalismo. Não está fazendo, inclusive, o repasse dos municípios. O IPVA acabou, os royalties de Itaipu secaram, e a arrecadação continua atrofiada. - Quando o time começa a viajar de um lado para outro é que a coisa está braba. Informa-se que um dos clientes cativos do Estado teria dado um empréstimo de R$ 5 milhões para ajudar no 13º. As paraestatais privadas estão melhor que o cliente principal, coisa de Kafka. - A história da TV do Paraná, feita por Jamur Júnior, não vai mais ser editada pela Imprensa Oficial. As razões são obscuras e com jeito de censórias. ‘‘Paraná Vivo’’ de Temístocles Linhares foi reeditado e seu valor, hoje, é discutível. - Deveriam reeditar a ‘‘Geografia Física do Paranᒒ de Reinhard Maack, esta sim importante e cujas tabelas (temperatura, pressão, ciclones, geadas, mudanças mesológicas, climáticas) poderiam ser atualizadas. - ‘‘Cardeais’’ da Copel, que em maioria discordam da compulsão leiloeira do governo, vão se manifestar agora na fase mais crucial do processo. A massa cinzenta, não o baixo clero.
FOLCLORE Como suportar Curitiba com os seus bares fechados: Bernard Levy, assessor de Sartre, diz que o mestre jamais sentiu angústia. Se passasse por uma dessas certamente o sofreria. Estar em Curitiba e sem bar é demais.
HAMLETIANA Você é popozuda, tchutchuca, cachorra ou potranca? Madreselva!
CROMO A flor morreu: ainda que murcha, conserva a dignidade, múmia vegetal.
AFORÍSTICO Terrível será para todos o momento em que o governo, com as sandálias da humildade, revelar a verdade.

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